Monday, July 09, 2007



VIII Poemas mais 4 com Gato


Antes dos poemas novos, algumas palavras. A primeira série (em números romanos) não tem grande coisa que se lhe diga. É mínima nota: depois de um inverno que só quis acabar pelo fim de Junho, a luz do Caramulo deflagrou como um nascimento: o nascimento de outro mundo com dimensões outras.
Mas algo há sobre o primeiro poema da série numerada a árabe. Convidado por amigos novos que por aqui fiz, fui jantar ali a uma casita agrícola do Torgal que tem aos pés todo o vale de Besteiros e todo o olhar até à Serra da Estrela. Antes de nos sentarmos à mesa, mostraram-me os animais de criação. Havia pássaros e outros bichos: um gaio, uma catatua, um melro, faisões com suas fêmeas, rolas, pombas, coelhos, galinhas com seu galo, porcos, cabritos com suas mães, porcos. E então o coração enrolou-se-me como uma coisa mole: tinham um gato fechado, à altura do olhar de uma pessoa, numa gaiola mínima e cega de cimento com rede. Disseram-me: “É porque está doente com tinha e há medo que pegue aos outros bichos.”
Eu disse: “Não. Isto não pode ser. Vou pegar nele e levá-lo para outro sítio, num bosque onde haja proximidade de casas.” Tive de fazê-lo em segredo por causa da senhora da casa. O marido estava aflito. Mas deixou-me levar o animal, que deixei longe da prisão num sítio com árvores, água e casas perto. O primeiro poema da segunda série de hoje antecede essa libertação.



I. À Luz – I

Glória à luz
que, justa, de
si mesma
ufana,
é luz e glória.

Grácil arborizadora
de manhãs, luz
com seiva e
pássaros.

Montanhosa alegria –
para os sombrios
até.

Louro de ouro
manso touro
total,
tal luz.

Escultora de casas,
o retrato fixa
ao olhar das
janelas.

Sem uma flor
que lhe dês,
dá-lhe,
ao menos,
alguns escuros
versos.

Assim farei.



II. Irritação

Todos sabemos que o amor e a vida
se irritam mutuamente, a ponto de
o sempre daquele acabar sempre
no nunca desta.



III. À Luz – II

A luz é tanta,
é tanto o sol,
que as flores explodem em silêncio.
Quando acabam de explodir,
são árvores grandes e cantoras.



IV. Tudo o que se Quer em cada Verso?

Uma linha de vida.



V. Photomaton ou como é que se Diz

Também não vás agora afrontar
teu mesmo planeado retrato
com tua instante foto-passe.

Coisas diferentes são
o futuro e a educação.



VI. Chama o Actor, Está na Hora

Não,
agora não.
Ele diz
que não,
que não é
ele agora.
Sim,
é ele
agora,
apesar
da hora.



VII. Segredo

Ando aqui a descobrir as leis pequeninas
com a pequenina ajuda da versificação.
Digam nada a ninguém, muito menos
à minha Mãe.



VIII. JMFJ – para ele

O poeta João Miguel Fernandes Jorge,
entre tantas outras leis maravilhosas,
foi quem nos disticou que a
diferença entre coisa e poesia
é
dizer
pássaro
ou
ave.
Eu lembro-me disso.
Gaivota e albatroz?
Não.
Pássaro.
Ave.




1

Conheço do felídeo o olhar puro e matador.
Feliz desgraçado que nos habita o amor.
Preso, torna-se um peluche despoderoso,
palhaço sujeito a doenças e menos bonito.

Na gaiola da vida passa como o tempo.
Na gaiola dos homens passa como o tempo dos homens.
Nunca escrevi um poema que fosse um tigre.
Nunca escreverei, sequer, um poema que seja um fruto.
Conheço do felídeo o olhar puro e escrevedor.



2

Contra todas as probabilidades,
a vida não é para viver.
Vai pelo que olho dela,
não pelo que dela te digo.
A vida não é para viver.
Fazem casas nos montes,
ameaçam-nas brevemente
com uma capela breve,
aturam mercearias,
fazem uma equipa de futebol de salão,
um baile no inverno,
um baile no verão.
E nada mais sabem
contra todas as probabilidades.



3

Nosso corpo é colchão
a alheios sonos sujeito.
Premindo o osso o coração,
dormir resulta contra o peito.



4

Nunca de mais louvarei
as árvores do meu País.
Escarpado tesouro verde
a cujos pés bebe um rio.

Algumas fábricas pequenas
com operários pequenos
de pequenos salários.
Suas mulheres escurecidas
queimadas pelo mesmo
justo sol que espelha o rio.

A estrada tão gémea da vida:
seus riscos, seus buracos,
suas margens vilipendiadas
onde as putas – como nós –
entristecem de sono.

Vinhas, comércios de automóveis
– como nós – usados,
bancas com a fruta da época,
a cabeça de uma capela,
as cabeças de duas palmeiras,
um súbito cemitério
como uma súbita caixa branca
cheia de brinquedos com legendas.


Datação dos textos:

I – Caramulo, manhã de 5 de Julho de 2007
II a VIII – Caramulo, tarde de 5 de Julho de 2007
1 a 3 – Torgal (Caramulo), tarde de 6 de Julho de 2007
4 – Viagem Caramulo-Coimbra, tarde de 7 de Julho de 2007

3 comments:

LM,paris said...

olà daniel, dasabou uma trovoada agora mesmo no céu de paris, com imensa chuva,uma tristeza subita de tardes de outono. Sem fim.
Jà ontem ameaçou,hoje quebrou-se o metal e até abana a janela.
a historia do gato é terrivel,
coitadinho ali fechado!
a sua frase "cega de cimento " é terrivel, até asfixia.
Os seus poemas sao caminhadas, passos pequenos ou maiores, respiram-se.
un souffle court qui s'anime, s'allonge comme les fiers bras,
relevés, d'un arbustre.
tem que conhecer Gamoneda e Bernard Noël..um abraço de paris avec
pluie
pointillée,
piquante,
pleureuse,
puissante,
palpitante,
pulmonique,
pulsatile,
pudique,
pugiliste,
pusillamine,
purpurine...
atem-na!
STOP!
LM, paris

Manuel da Mata said...

Daniel,

Li e gostei.
Um abraço,
Manuel

Paula Raposo said...

Quando te leio parece tão fácil escrever!