Tuesday, July 17, 2007

Vida e Palavra com Relógio de Doze Sílabas

Para os meus muito queridos Amigos
de musicais e felizes anos
Luís Silva e Jorge Cordeiro





Relógios quero sejam todas as palavras.
Contem do tempo manigâncias pueris,
ardis e manhas e manhãs tão infantis,
tais gentis horas da cor da flor do anis.

Um dia à noite erre a Lua pelo mar.
Das oliveiras nasça azeite e brandura.
Palavras digam s’isto é ou não loucura:
tudo é procura, nada se pode encontrar.

Ao longe o perto, perto nunca aqui presente.
Ausente é certo, incerto é o demandar,
volte sem voltar toda a perdida gente
a tempo ainda de ao tempo palavrar.

Tanta gentinha. Tanto filho de alguém
que mais não está e que não esteve nem vai estar.
Relógios contem as palavras de ninguém
– e alguém as ouça hora a hora sem escutar.

Agrestes chuvas, duros sóis, cortantes ventos.
Lojas rebrilham a olhos desempregados.
Chega-se a noite, peito da mãe dos lamentos,
dá leite preto a bebés fossilizados.

Ouve-se fado por vielas todas voz.
Gatos magrinhos, silhuetas de antenas
– são diagramas, solidões e solidós,
lembram, esquecem, todos juntos, todos sós.

Dança-se tango por vielas todas alma.
Ai calma, que hoje navalhas não vão beber
fundo no peito das virgens que o queriam ser
– e que o foram mas, ai!, só na hora do nascer.

Ponteiros quero toquem todas as palavras.
Esmaltem elas retratos crepusculares.
Aos lares não faltem as memórias, por amargas,
que adoçam mesmo as almas mais biliares.

No campo santo, dormem bebés calcinados.
Setenta anos demoraram a dormir.
Acordam cedo, a tempo de ouvir os fados,
dançam o tango só para a Lua refulgir.

Gaze fria, a madrugada traz-nos das fontes
da cabeça encantada ao mais gelado
porvir. Ele é entrar, ele é sair, senhores,
tango e fado, tudo morto, tudo nado.

E esse mar só, sempre só, tão sideral,
qual céu baixado às estrelas que em si mesmo
conta a esmo: vês-mo tu, triste e astral?
Mas vê-lo mesmo ou só o sonhas, afinal?

Do mais da vida mais da morte vou saber,
chegue o meu tempo palavroso ao relógio.
Não jogarei à pulcra sombra nem prestígio,
nem sombra dele, muito tenho que viver.


Texto: Caramulo, tarde de 16 de Julho de 2007
(à excepção da última estrofe: idem, manhã de 17 de Julho de 2007)
Fotografia: Caramulo, noite de 6 de Julho de 2007

3 comments:

Jorge said...

Doze sorrisos para doze sílabas e para uma palavra que nos é querida: Morneta. Que doces recordações.

Daniel Abrunheiro said...

Boa, Jorge.

Sophis said...

Também faço parte dessa quadrilha, lembram-se?
Como eu gostava de ter outra vez menos de 20 anos nem que fosse por uma noite na cave do Bife.