Friday, July 20, 2007

Rosário Breve 9 - FALA O 513

Hoje, n'O Ribatejo (www.oribatejo.pt),
a nona crónica da série Rosário Breve.
A foto remete para esse 1988 improvável.
Sou o parvalhão da ponta de lá,
o que olha para a objectiva sem respeito pela patriótica
concentração que toda a marcha pelotónica em Ordem Unida exige.
Fala o 513

Na minha já remota mocidade, a tropa chamou-me e eu fui. Cheguei lá, tiraram-me o nome e chamaram-me 513. A realidade tornou-se mecanográfica naquele mesmo instante.
Era em Mafra, nas traseiras do convento que D. João V mandou edificar com o ouro do Brasil. Miliciano involuntário da Escola Prática de Infantaria, fiz como os outros: comi, calei e aprendi umas coisas de topografia que mais tarde até me foram úteis, já que a tristeza é uma sangria de azimutes. De escalímetro na mão, nem me tenho perdido assim tanto como dizem por aí.
O meu instrutor era um alferes chamado Sardinha que andava sempre sobre brasas. Se bem me lembro, era filho de um general. Apesar disso, não deixava de ser um bom rapaz. Os meus camaradas de recruta eram como eu: verdes de alma e de farda. Tinham saudades das namoradas, punham na boca nostálgica uns cigarros cujo filtro amargava nas madrugadas muito frias daquele Março improvável.
O melhor de tudo era a saúde. Verdade: nunca fui tão saudável. Corri os 80 metros em 9,4 segundos, proeza que comoveu um dos dois olhos do alferes Sardinha. À refeição, o prato de metal ficava mais limpo do que um céu de Junho. Dormia como um mergulhador, abençoado pela fadiga e pela consciência em dia consigo mesma. Tinha força e não forçava. Julgo, até, que era feliz.
Hoje, ainda marcho, mas para os 50 anos. Em manhãs como a de hoje, acontece-me dar por mim com saudades desse tempo em que a corrida se media aos 80 metros e não às décadas. Não é que me apeteça ter uma G3 para resolver de vez, nas repartições de finanças e nos bebedouros de sábado à noite, as chatices do costume. Não. O que me apetecia mesmo era não chamar “remota” à mocidade.
Isso – e vestir-me de verde outra vez, a começar pela alma.

1 comment:

Paula Raposo said...

Excelente precisão de palavras, Daniel! Um beijo.