Friday, July 27, 2007

Rosário Breve 10 - Saudades Pobrezinhas

Na edição de hoje d'O Ribatejo

Nasci numa terra tão pobrezinha, que até os sinais de trânsito eram a preto-e-branco.
Em todas as casas, o comer era muito pouco, o que fazia com que os ratos chamassem nomes muito feios aos inquilinos. Em cada lar, havia uma avó sentada a um canto e falecida há anos sem que ninguém topasse a diferença. Ninguém conhecia ninguém porque nunca houve dinheiro para tirar fotografias. Eu próprio não sei, ainda hoje, se de facto eu não era o filho do vizinho e, ele, outro gajo qualquer.
Como ninguém tinha televisão, havia ainda uns resquícios de inteligência. Inteligência, sim. Por exemplo: apesar da extrema pobreza, ninguém emigrava porque lá fora não havia Salazar. É claro que havia alcoolismo, a ponto de só os cães não andarem bêbados. Mas os ratos andavam, o que só agravava os nomes que eles nos chamavam.
Eu passava muito tempo em casa ao pé da minha avó, no intuito de aprender o que me reservaria o futuro – e o futuro era isto, enquanto não vou ter com ela. Isto, ou seja, escrevo peças para uma companhia de teatro cujos actores são tão maus, mas tão, que, quando andam na rua como as outras pessoas, as outras pessoas riem-se.
Um dia, passou um carro na rua. O medo fechou-nos em casa mais de um ano, não fosse o caso repetir-se. Tínhamos medo de coisas simples porque, na altura, ainda não éramos europeus, éramos só os vizinhos de cima do norte de África. Éramos, éramos – e desconfio (todos os pobrezinhos são desconfiados) de que ainda o sejamos, só que disfarçados.
Apesar de tudo, tenho saudades de nascer. Sim, mesmo naquele rincão abandonado por Deus e castigado pelo regedor, que era um senhor muito amigo do padre e portanto de Deus também. Ele até já tinha ido a Lisboa, tendo voltado nunca soubemos porquê. Oh sim, tenho saudades das minhas pobrezinhas primícias. Mesmo que eu não fosse exactamente eu, mas outro.
Do que não tenho saudades é do hoje deste País, até porque Salazar morreu há uma data de anos e ainda não houve ninguém que topasse a diferença.