Wednesday, July 11, 2007

Praceta Noroeste

Prólogo

O texto que, mercê das vossas gentil bondade e bondosa gentileza, ides ler,
Praceta Noroeste, tem uma origem, digamos, curiosa.
Tive um dia bom. Manhã cedo, fomos ao minimercado. Enquanto ela cirandava em torno de coisas espirituais (lixívia, bacalhau, tomate pelado, esparguete, champô, dentífrico), eu ia só por uma latita de pasta de cavala para a gata. Deu-se o caso de a felicidade me esperar ali mesmo: numa estante baixa, latas de feijão-frade a 25 cêntimos. Gastei o meu último euro do mês em quatro. Depois, retirámos e fomos à pastelaria tomar o café matinal. Feito isto, casa com eles. Recolhi ao escritório e dei-me largas horas a fazer o trabalho que por ora me exige corpo com alma dentro: uma reunião de cerca de duzentos (talvez mais) textos em coisa de quatro cadernos autónomos. Pronto.
Cá se almoçou o feijão-frade, café à moda da casa, cigarreta no queixal e retorno ao escritório. A tarde correu bem: fisiologia em ordem, alma no sítio, um bocado de Chopin, um bocado de Jarrett. Pelo crepúsculo, apeteceu-me tirar os olhos de onde os tenho agora e subir ao centro da vila para tomar um café que eu não tivesse de fazer. E também para ver o episódio do
CSI Las Vegas que por essa altura passa no canal AXN lá da pastelaria do André e da Mónica. Assim fui, assim foi.
Antes do
CSI, tive tempo para acabar a leitura de Jakob von Grunten – um diário, de Robert Walser. Porreiro. E foi então.
Foi então que, folheando a próxima leitura (
Absolute Friends, de John le Carré), que ali tinha à mão no saco, se me deu uma espécie de sincretismo (chamemos-lhe assim). Ter um le Carré na mesa teleguiou-me inapelavelmente para a recordação prazenteira de outro livro do grande escritor, Um Espião Perfeito (A Perfect Spy). Nada de anormal, até aqui: gostei tanto dessa obra (decerto a mais autobiográfica do autor, assim como, talvez, a melhor dele), que qualquer coisa ma faz recordar. O caso, neste caso, é que na visão interna me surgiu um homem de gabardina atravessando uma praceta num dia baço e húmido. Esse homem ficou comigo – e eu escrevi de seguida um texto para me livrar da tenacidade da visão. Claro que um tenesmo qualquer é bem pior do que qualquer tenacidade, mas ainda assim: tinha de me evacuar daquilo. Do homem e de certo móvel-arquivo verde que não sei por que recordo também. Eis senão quando.
Sim, eis senão quando me surge, no mesmíssimo ecrã do gajo do le Carré (isto é, na mesmíssima minha corneta), a visão de um livrinho interessantíssimo que adquiri e li em Outubro de 2003:
A Passagem Noroeste (Ice Blink, no original inglês), de Scott Cookman. O livro de Cookman não é literatura. É o relato histórico e documental do “trágico destino da expedição polar de Sir John Franklin”. É uma obra deliciosa (embora séria). Um bocadito da contracapa para vos estimular: “Dois dos navios mais modernos da época. 129 homens escolhidos a dedo. Um comandante que tinha sobrevivido a três anteriores viagens ao Árctico. Desaparecidos sem deixar rastro. Que foi que aconteceu?”.
Bem, o que (me) aconteceu foi que quase não vi pitada do
CSI. Deitei-me a escrever uma coisa que, atenção!, não é sobre estes dois livros, mas é por causa deles.
O que resultou foi
Praceta Noroeste. É um texto, no mínimo, esquisito. Por não ser bem poesia (apesar da estrutura em verso e estância) nem decerto prosa, é, com tudo e contudo, uma espécie de poema narrativo. Para mais, não pude evitar um urdume de cariz interseccionista que, a meu ver, só emaranhou a coisa.
Mas enfim. Bem-vindos a este texto. Um abraço e uma rosa.



Praceta Noroeste

Um homem de gabardina cinzenta e chapéu castanho
atravessa a imensidão: a praceta de árvores simétricas
pouco depois de ter chovido.

Como ele, choveu em mansidão a chuva. Volveu,
a chuva, cerimónia toda a memória.

É um homem de chapéu, gabardina e
íntima cerimónia: mansa memória imensa
que atravessa uma praceta de
ordenados plátanos, suaves tílias.

Em uma sala de uma casa da praceta,
estantes lacadas de verde suspendem,
como a babilónicos canteiros, livros.
São livros de contabilidade: de
memória também, portanto.

Nem todos de contabilidade, porém.
Alguns relatam viagens: todas
de barco, todas aos mares do gelo.

Nunca este homem saiu desta cidadezinha.
Nunca, sequer, foi além da moldura
desta praceta. E
no entanto.

E no entanto também ele
desafiou a Passagem Noroeste.
Foi ele, aliás, o único a sobreviver –
ao Botulismo, ao Inverno e à Passagem.

Ele alinha permanentes números
verticais e vermelhos
em colunas riscadas de azul ao alto.
Enquanto somas e transportes se acumulam
nos cadernos longitudinais de capa dura,

o contabilista,
entre estantes verdes como tílias,
de caneta de rubra tinta permanente na mão,
ouve as estrídulas gaivotas no rasto
do seu barco desafiador de gelos e noroestes.

Sai de casa depois de vestir a gabardina,
a praceta vê-o à porta do barco elevando
o chapéu à cabeça, atravessa a banquisa,
compra pão na pastelaria e
conservas no minimercado,
e regressa ao barco em mansa imensidão.

Sucedem-se os barcos, as cifras,
as chuvas, as gaivotas.
No prego alto do bengaleiro,
dorme cabisbaixo o chapéu
de castanho feltro.
Como uma pele sem corpo,
espera a gabardina que não mais
nasça e se demore o sol.

E como gabardina, chapéu,
homem e contabilista,
tudo se sucede em mesmidão:
mesmas gaivotas, mesmas chuvas,
mesmas cifras, único barco.

Longe, muito longe a norte para oeste,
nasce e demora-se o sol
sobre todo o gelo marinho, que aperta.
Esparsas, como na memória,
estantes verdes pontuam o veio da
Passagem Noroeste
em imensa mansidão.

Sobre a mesa da cozinha, o pão
ainda quente chama as mãos do
navegador. O gato roça as
canelas do contabilista.

Uma chávena de chá no barco– nenhum
gosto pode exceder o desta
beberagem extraída às folhas
das tílias da praceta.

À praceta chega o Verão, polar é
o vento de lancinante cutelaria
cortante dos ramos das ordenadas árvores
de em torno, arroja-se o solitário capitão
à esbraseada hibernação estival.

Recolhe-se o gato à sombra fresca
do paiol de víveres, aí dorme
alheio sempre à mortífera pressão das
placas mandibulares do
mar congelado a toda a roda do
barco agora quieto como
uma casa.

Confia porém o contabilista na
volumetria do calado, na
engenhosa estrutura de vigas contrafortes
que esqueletam o casco e
na robustez da porta que, subindo
ele à cabeça o chapéu, abre para sair
de casa e ir ao pão e às conservas.

Onde a banquisa é mais fina, corta-se
o gelo em círculo e por aí se
pesca o peixe mais puro da vida,
que vivo ainda dá o homem ao gato,
desperto entretanto pelo roçagar da cana
cor de rubra tinta permanente.

Oblonga conserva de arenque abre,
cada crepúsculo perpétuo, o navegador
na cozinha. Acode o gato à partilha
da ração, escorrido para o pão
o azeite da lata. Nisto, o barco
ressoa: batem à porta.

É a Primavera. Plátanos e tílias
assomam à flor do gelo. Na
padaria, o solitário capitão saúda
os marinheiros de cujos impostos trata
na vertical azul, entre duras capas e
suaves tílias.

Ninguém estranha que a cabeça do
contabilista ande forrada de um
denso gorro-de-orelhas, nem
que o tronco, couraçado de um blusão de
penas de ganso, apresente a pujança de um
tronco de árvore de praceta.
O gorro é castanho, o blusão é
cinzento. Lacada de verde, a Primavera
fende já salvadoras fendas no gelo dos
números vermelhos.

Caramulo, entardenoitecer de 11 de Julho de 2007

6 comments:

Paula Raposo said...

Parece tão fácil escrever...

Daniel Abrunheiro said...

E é, Paula. Viver - é que é difícil.

LM,paris said...

Bonsoir presque....até fico tonta de ter de voltar a mim mesma depois de o ler, gostava que continuasse falar do homem da gabardina, e do seu gorro de penas do ganso.Estava a vê-lo, nao queria perdê-lo!
Daniel este seu poema é assim como se diz en francês, merveilleux, e o sentimento que dà indicible, montanhoso, largo, espaçoso, nao acabou ali pois nao?A sua escrita é vivida, vê-se tudo em transparência, convocatoria, ausentamo-nos de nos, seguimos as palavras que deixam de ser elas,
para acabarem sitios, luzes, pessoas, bichos, cheiros, paisagens, emoçoes.
Bom,amanha volto à terra...aqui chove!
um abraço ainda de paris, LM.

Paula Raposo said...

Viver?! E o que significa 'viver'?!

Daniel Abrunheiro said...

Julgo que significa "durar".

Paula Raposo said...

Ahhh 'durar'! Isso é difícil, sim.