Wednesday, July 25, 2007

OITO OITAVAS FELIZES mais NOVE BUSCAS



Oito Oitavas Felizes

Num canto do pátio, esta tarde, ao sol,
pude ser feliz para aí uns três minutos.
Às vezes, acontece. Eu faço como as outras
pessoas e aproveito. O vento brincava nas
árvores como uma criança grande. O sol
não era desses do catolicismo que vão
ao baile para espantar os pacóvios. Não:
era um pai sereno e, de novo, novo.

Ao longe, outros gajos como eu, em outros
pátios como o meu, multiplicavam a
solidão da felicidade à la minuta.
Tão bem me sentia, que abençoei, até, os
filhos da outra. Além do muro, vi
passar um homenzinho de um dos lares
terminais cá do sítio. Levava consigo
o transístor, seu último filho, ou amigo.

A luz envolvia-me como uma manta.
Também posso dizer: como um lago.
Cheguei a sorrir como os artistas de circo.
Pensei se a minha velha Mãe, estaria
aproveitando aquele sol, pensando no
marido dela. Mas logo afastei de mim
esse pensamento. Fi-lo como quem afasta
uma cortina de veludo que anoitece uma sala.

Depois desses três minutos, voltei ao trabalho,
que se fazia tarde. Só que, depois, tão
estranhamente, o lastro feliz continuou
areando a bolsa de couro do meu coração.
Então, eu disse-me assim, entre aspas itálicas
de monólogo interior: “Carago, mas que
raio é isto? O trabalho tem tempo que
sobre, mas tu, tempo que falta. Sai daqui.”


Como estava a ordenar-me coisa a mim
mesmo, obedeci. Saí. Fiz o que fazemos
todos: vim andando, andando fui.
Tive duas sortes. A primeira foi a sombra
dos castanheiros. São árvores conventuais.
Estar à sombra delas é como ter-se uma
pessoa matriculado num pretérito benigno,
em que até o chão é uma diversa qualidade da altura.

A segunda foi ter visto uma rapariga tão bonita
como um debate de rosas moderado por uma
fonte. A todas as glândulas fazia bem olhá-la.
Escoltada pelos pais, tomou uma laranjada
sem tirar os olhos do chão.
Fez bem, fazendo isso – pois que
a virtude assassina daquele tipo de beleza
é cegar os poetas imbecis com felicidades de pátio.

Lembrei-me de escrever-vos estas oito oitavas
por razão quase nenhuma, motivo que aliás
repito em todos os versos outros de todas as
outras morfologias. Sim, posto que escrever
é como viver: não se sabe porquê, nem para
quê. Estrofar oitavamente uns minutos vitais
é tão ridículo mas tão inofensivo, digo-o eu
que tenho caneta, como sorrir à artista de circo.

Como sempre volta o mais eterno dos nuncas
(o agora), agora volto a pensar na minha velha
Mãe, a quem a noite rebuscará, como de costume,
o antigo coração. Espero, como sempre, que ela
continue cortando pela esquerda o trânsito da
solidão. Que a continue ensolarando algum dos ditos
dito pelo marido dela, esse cavalheiro pobre
que, noutro pátio de outros minutos, era novo e sereno como o sol.



Nove Buscas

1

Quero outra vez um pouco ainda
de atravessadas luzes por
fluviais árvores ao ar brando
de um entardecer que já não sei
dizer.
Um pouco ainda disso
antes de viver.

2

Espalha o corpo certas águas no linho do sono.
Todo o corpo é mar e nadador quando sonha.
Todo o vivente é talvez demasia do Outono.
Talvez por o coração não saber onde o ponha.

3

O pessimista borra-se.
O optimista deixa-se de merdas.

4

O antigo mar rejuvenesce o antigo homem
que o abarca. Trocam sinais
de sal e entendimento.

Continuarás depois de ter sido
– diz ao homem o mar.

E o homem nem responde,
dando à costa.

5

Coleccionei para a vida toda todos os gestos
lá de casa.
Como a mais velha se sentava, de faca
na mão.
Como o do meio trinchava o arroz doce, dizendo
palavras de canela.
Como o próprio sucessivo mesmo repetido cachorro
humanizava o carinho alimentar
das jantas festivas.
A 15 de Novembro de 1982, não tinha ainda
morrido ninguém no mundo
de então.
Havia arroz doce e havia cão.
Garrafas de porto e espumante
endireitavam o torto e retardavam o adiante.
Celebrava a família nem sei o quê.
Eram pequenas, muito pequenas, as novas crianças.
As minhas, então, nem novas eram.
Honrámos a pagela do Irmão Doutor Sousa Martins
e abocámos porto, champanhe e arroz doce.
A Mãe campeava entre farturas de couve
e talhadas de melão.
Respirava para cima um vapor de favas.
O Velho, coxo de uma perna, era olímpico
em sua dele tristeza reservada às melhores
festas daquele planalto tão baixinho
quão o mais alto dos contraltos proletários.
Era tão engraçado ninguém ter morrido.,
que, às vezes, nessa véspera de 16 de Novembro de 198enta-e-tal,
trocávamos de braços e mãos para que se
repetissem os gestos.
Ainda temos disso, os restantes, julgo eu.
Eu corrijo a espinal medula com a mesma torção
de outro irmão que boceja à materna maneira.
Mas não, julgo e versejo eu que não,
pode a vida ser tão arrozdoceira.

6

Junto ao rio vive-se um fresco
que as lusafamílias sentem bem
ser contra o Demo, tal grotesco,
emanação da Virgem-Mãe.

Vai ’ma fartura? Queres um balão?
Há framboesa açucarada em baunilha.
Senhor Avô, o capilé é ou não é?
Ou é de Alicante torrão a filha?

Vem o fresquinho. Ainda é tempo
de outonar em primavera.
Não deve quem ganha o momento
esperar p’la feira, qu’ela não espera.

7

As mulheres são emanações da floricultura.
Perigosamente perfumam suas redondezas.
Certezas só dão em puericultura,
Que machos p’ra elas são só incertezas.

Habitam o mundo, o mundo elas são.
Moribundo soldado à dele exclama
entrega de sopro e de coração,
quando a ele se apaga a chama.

Mulheres de maridos. Sempre cozinheiras.
Mulheres do caraças, entregues, servis.
E passam com isto as vidas inteiras,
só que sempre senhoras do mesmo nariz.

8

Ainda guardo alguma alegria muscular.
Na ’statística não confies da meia idade.
Quarenta e tal anos, por Deus, hão-de dar
’mas gambas e coisas o mais à vontade.

Nem jogging nem shopping, realmente eu não.
Eu não, realmente, sou de sapatilhas.
Mas cruzo meus mares com a condição
do calado verniz lustrar minhas quilhas.

Quarenta e tal anos? Eu já tive vinte!
Nem sinto que seja merdoso acinte
sofrer da miudagem boquita ou toleima.

Do caminho feito, faç’ eu outro tanto,
não se m’ esgane a voz nem idem o canto,
que quem não insiste, não sabe o qu’é teima.

9

Não venha (ainda não, por favor) o zimbrocobre
acidulado do repentin’ arrependimento.
Não venha agora, que não é momento.
Não cobre o que tapa, não tapa ou descobre

quem tanto em si mesmo buscou
quem não encontrava nem nunca encontrou.



Caramulo, tarde de 24 de Julho de 2007

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