Thursday, July 05, 2007

Para LM, em Paris, que foi a Montparnasse Deixar um Espelho a Beckett

Mãe, Fernando, Jorge e Pai na Nazaré, meados da década de 50 do século passado

Seguem-se algumas páginas escritas no Caramulo entre 2 e 4 deste Julho de 2007. Dedico-as a uma nova leitora: LM, de (ou em) Paris (http://autre-cas.blogspot.com/). E de Paris me enviou ela um comentário que copiei para a caixa de mensagens deste mesmo "post", hoje, agora mesmo. Aos leitores de boa-fé, recomendo vivamente a leitura da mensagem de LM. Aos de má-fé, já agora, também.

Programa:

I – Rosas da Areia mais 23 poemas (tarde de 4.07.07)
II – Da Última Humanidade e de Últimos Versos – 18 poemas (tarde de 2.07.07)
III – Sonhados Damascos e Bolçando Fora – 2 poemas (noite de 2.07.07)
IV – Diário de uma só Tarde – (tarde de 3.07.07)

Haja paciência, portanto. Enquanto vocês lêem isto, vou ali à pastelaria escrever mais umas coisas. Comecemos.





I – Rosas da Areia mais 23 poemas
(tarde de 4.07.07)



Rosas da Areia

(oito nonas e uma sétima)

Era era o tempo do mar
era o mar todo o tempo que tínhamos
nascíamos molhados do interior mar
de nossas mães
éramos como peixes que voam ao sol
tínhamos todo o tempo deferido pelo sol
a nossa infância deve ter sido
a melhor coisa daquele tempo ao sol

Era era quando as sombras tinham corpo
e panos estendiam para refrigério das rosas
era quando havia rosas nascidas na praia
dava-se a areia a prodígios salgados e escarlates
para nosso contentamento nosso maravilhamento
era no tempo antes da pedra
que em todo o lado e para todo o serviço
é tumular

Já nossos pais tinham feito todo o amor
para que sem castigo fosse a nossa nudez
e nossa genitália não mais que fisiológico enfeite
aceite pelos mais reputados especialistas em congresso
e até por Deus em caso disso e em caso Dele
era quando ouvíamos o próprio corpo
aumentar a mesma luz
para que mais sombra mais rosas refrigerasse

Era era tudo através do vento veicular
de palavras coevantepassadas
quando os mortos antigos não matavam o dia
antes senatoriavam como júpiteres benignos
aquém da dor e da lágrima que a vitrifica
aquém do hialúrgico coração que a usar aprendíamos
sem recurso algum à moeda falsa
das canções e dos ceguinhos-de-pedir

As doenças vinham como novidades caloríferas
havia canja era uma festa
os pés adormeciam antes de nós
e as mãos eram pura cartilagem de cebola
na boca os dentes falavam entre si
a língua era portuguesa
e a testa era refrigerada pelos pais
que se volviam sombra para que rosas fôssemos

E éramos e éramos isso
rosas tidas mantidas cultivadas e desejadas
por esses jardineiros mortais
que um do outro um dia
nos descobriram
ao dispor
na areia da praia
que mais dentro lhes era

Não era não era tudo pela graça de Deus
mas quando até Deus era de graça
e a nossa única vilegiatura a eternidade
aos domingos água de açúcar espargia a cidade
perfumava um demorado assado o quarteirão
e tudo o que tínhamos era tudo o que havia
daí nos parecendo que em tal dia
fosse mais evidente o coração

O Pai extraía conselhos de almanaques
a Mãe vigorava enxuta sobre caldos
os iguais a mim e a ti pulsavam iguais
o Verão era uma nação total e totalitária
quase nem acreditávamos que alguma
vez houvesse chovido
chovido mesmo veja-se lá bem
sobre o mar

Eu entro aqui mas saio já
só por me sentir infestado de rosas desde as areias de então
depois de tantos filhos-da-puta hoje
ainda me infestam as rosas de então
como é natural não como disto
mas viver vivo disto
não era não era mas é mar é.



Promessa Escrita ao Pedinte

’inda te hei-de ver a pedir por aí.



Comunidade

Toma por mim às vezes o coração
memórias que me são alheias
sendo próprio dele alhear-se-me
mas precisando de mim para ser ele.

Julgo que tal não é incomum às demais gentes
mesmo às que em versos não procuram
perder-se um pouco melhor,
toma.



Relatóstico



Recebo sempre as mágoas alheias
como a relatórios confirmados.
Nem precisam de corpo
para se me chegarem.
Na cama as sinto
violetas e violentas.
Nunca crescemos.
Somos os miúdos e as miúdas
do hospital pediátrico.
Não se diz relatórios.
Diz-se diagnósticos.



Ventioloncelo

Bastante venera o vento a si mesmo
insta dele constante a voz a esmo
veloz violoncelo da vã melancolia.

Sendo dia muito arvora e desarvora
mistura em segundos os minutos duma hora
e quando vem a noite veio vai a ventania.



Todas essas Palavras Ditas Antigamente

Todas essas palavras ditas antigamente
são exactamente mas exactamente
como relógios antigos mesmo os parados na hora:
continuam a dizer o tempo de antigamente
agora.



Prática

Colecciono peixes a pilhas
parede acima da lareira
tenho retratos das filhas
nem sempre lenha para a fogueira.

Junto de tudo desperdícios
retiro do rumor a harmonia
pratico um só dos mil ofícios
chamo-lhe por graça Poesia.



Fala o Sueco

Aqui na minha terra as pessoas
começam a arder de repente
depois chove e passa-lhes.

Ajudo cães e árvores a reprimir
o terror
perante as pessoas da minha terra.

Mas só faço isso depois
de esconder os fósforos.



Fala o Velho

Deito-me cedo para praticar.



Cat Quero

(Um muito pouco depois de a minha filha Leonor nascer,
tomámos ambos o costume de ir ver os gatos ao pátio.)



Mostrei-lhe os gatos unidos pela fome
era ela uma rosa de quatro quilos.
O meu Pai entretinha-se todo a morrer
nesses meses emoldurados pelo pátio e pelo berço.

Depois viajei. Fui buscar coisas de que
não precisava nem este bocadinho.
Vi lojas de pão lojas de vinho.
E sozinho me tornei gato. Outro. Mais um.



Tristeza na Estação de Serviço

Usufruo de uma tristeza metódica como uma igreja.
Tornam-se-me tabernáculas não resolvidas linhas.
Botija-se-me muito a alma de cerveja.
E gin havendo voltam coisas pergaminhas.

Tudo resolvo com chá preto junto ao lume.
Nos joelhos estão a gata e Conan Doyle.
Fruir mesmo a tristeza é um costume.
Vida não falte ao ir e nem gasóil.



O Problema da Edição em Portugal e no Mundo

A gente não lê os romances escritos pelas casas
que a luz publica para ninguém.



Livro Negro da Globalização

Is it a shiver down my spine?
como dizia um preto meu amigo
que sabia inglês e vivia de
conhecer dinamarquesas
sempre que via uma dinamarquesa.



Desamor

Se tudo em ti
se transforma em –me
isso não é nada
comigo.



Fala o Calceteiro

Ando aqui há tantos anos
a fazer de calceteiro

palavritas azulpretas
palavritas pusbrancas

e não acabo o passeio
carago
e não vejo modo
de acabar o passeio
carago.



Fala o que Trabalha na Agência de Viagens

Não digo que não faças o mesmo
mas acontece-me pouco ir.

Não digo que faças o mesmo
mas acontece-me muito mais
ficar.



A Economia Faz Grande Parte da Vida

(para ler só com bês)

Baixando-te
lamviverás.



Prosa Derivada de Poeta Integrante
do Espólio Geracional dos Últimos Pais que se não Divorciaram

Por pobreza – digamos escassez – de teus pais e de educação, optaste por casar com um salário público e um filho ou dois. Pois fizeste tu muito bem. Agora que eu te pareço amor, não me fodas.



Exit

Diz-me a vida:

– Eu tenho tempo.

Digo-lhe eu, respeitoso:

– Pois oh minha senhora eu não.

(Mas tenho. É só a entrar com ela.)



Tal

Admiraram-se muito uns senhores por causa de tudo isto ser pedra e tal. Eu não tinha ainda, então, voz activa. Não disse nada por causa disso, mas aquilo ficou-me. Aquilo de tal e pedra. Anos mais tarde, para aí uns trinta, voltei a encontrar os senhores. Era certo. Estavam muito bem onomásticos, datados e deitados: em e sob pedra.



Mínima Máxima sobre o Poema Anterior

O futuro é de mármore
desde que haja quem pague.



Receita Dada ao Cozinheiro

Volto agora a casa de que jamais saí.
O carvão, há. Uma tira de vaca assará.
Rondará a gata seu pasodoble vá-lá-dá-cá
em torno d’acesa brasa cor-de-rubi.

À parte refogarei a comovida
cebola que tanto faz chorar.
Leve e ligeiro ’ind’ eu deixarei fritar
Lâmina d’alho que é comer sem ser comida.

Instância esperta: da vaca um bocadito
cortar não mais qu’m’unha dela.
Esse bocado num pote mais negrito
deixar cozer enquanto a vida é bela.

Dour’ eu batatas se as houver.
Faç’ eu um finca-pé ao bom tempero.
Nem toda a vida um homem tem mulher.
O mais é ter fomita e desespero.



Mana, São

Isto emana.
Tudo isto é daqui.
Não é preciso ir muito longe.
Não é preciso ir mais longe
do que a sombra faz
geografia.
A gente está no hospital pediátrico
pronto
a gente é do hospital pediátrico.
Nós somo-nos filhos.
Os pais genitalizaram-se
pronto
está bem.
Não não somos a culpa deles.
Nós imitamos na cozinha
a receita e os frascos da Mãe.
Nós imitamos na memória
os almanaques do Pai.
Mas não pois é não somos
doutores.
O mais que estudámos
foi em verso.
Eu às vezes
pois
e depois.



Canção Final por Agora

Por cantar menos que a morte
perdi letra do viver.
Que o cantar não é ’ma sorte.
Sorte é o não nascer.

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II – Da Última Humanidade e de Últimos Versos
– 18 poemas
(tarde de 2.07.07)




1

Daria um ano da minha vida
para assistir a uma tarde de Camões vivo,
outro ano para uma viva noite de Gomes Leal,
sempre em Lisboa.
Tabernas e duquesas,
a mesma ideia neles,
dois versos únicos,
deles.

Quis-me o Fado deixar,
como a eles,
o uso das tabernas.

Mas duquesa nenhuma
e verso nenhum,
como a
eles.



2

Entristeço a horas certas.
Fica-me o coração cheio de ossos.
A garganta fecha como um cinema velho.
São seis e meia da tarde.

O resto do dia, passo-o
albergando cães, cometas,
algarismos, toxinas,
mármores, lenços e
saudades das meninas.



3

Senta-te aqui comigo.
Quero falar-te dos cedros
sem abrir a boca.
Quero apontar-te as ruas
sem erguer a mão.
Não estou aqui, mas
senta-te aqui comigo.



4

A gente às vezes não cabe na gente.



5

Em Matosinhos, uma manhã, senti
o poder dos barcos.
Impôs-se-me o desejo de habitar nenhures,
como habitam os que habitam
tal poder.
Aquilo passou.
Uns doze anos depois, senti
o poder dos barcos.
Foi na Rocha Conde d’Óbidos.
Eu envelhecia,
aquele poder não.
Passaram dez anos.
Habito na montanha
e já não entristeço tantas vezes.
Subo às pedras
e, se isto não é
o poder dos barcos,
então enlouqueci finalmente,
como enlouquecem os que enlouquecem
perante o mar.



6

A gente chega a um piano
prime uma tecla
e sai um pássaro.

A gente chega a um bosque
reprime um grito
e sai uma alma.

A gente chega a um filho
toca-lhe uma face
e sai outro pássaro.

A gente chega a um campo
pede-lhe uma tarde
e passa uma eternidade.

A gente chega a uma confeitaria
pede um anis
e dão-nos um anis.

A gente chega à morte
pede um minuto
e dão-nos um campo.

Eu chego ao pé de ti
tu pedes-me o último verso
e é este.



7

Tenho algumas praias no catálogo,
que folheio sem pressa nos sábados de inverno.
Chiam ao lume as sardinhas de novembro.
A gata alcatifa-se toda de nervos.
Na cozinha, a mulher impera sobre frascos.

Como flores nascem e morrem os minutos.
As cortinas da sala ondulam bosques canadianos.
Tenho alguns bosques no catálogo,
que folheio na cama pelas insónias de outono.
A gata fauna-se toda pelas lãs do chão.



8

Dá-nos o vento na cara
coisas que não podemos aceitar
com palavras.



9

O mendigo roxeia ao sol a perna.
É uma boa perna-de-pedir.
Alguma poesia anda com pernas assim.
Vou mais pelo sol,
embora coxeie como tantos outros
deste ofício.



10

O céu canta, a chuva aplaude.



11

Ondas vermelhas e peixes muito verdes,
de modo que fechar os olhos dentro de ti.



12

Vejo-os chegar de dentro da terra.
À chuva enxugam a sede.
São de ossos claros e pueris
como olhares infantis.
Conhecem todas as árvores.
São de rápidos rancores, são
de perpétua melancolia.
Só falam de noite dos sonhos do dia.
Chegam como o amor: por insensato milagre.
Cavalgam as estações como a trilhos.
Perfumam-se apenas entre si.
Suportam a ancestralidade da memória.
Com lebres brancas em branca neve sonham.
São a última humanidade.

Os cães.



13

Esta noite, tive problemas com os anjos.
Chegaram-me tarde a casa, vinham
todos roçados e sujos, queriam
azeite.
Dei-lhes azeite, beberam, queriam
o lume aceso.
Acendi-lhes o lume, um deles
queria ouvir fados da Amália.
Como a Amália esta noite não veio,
tive problemas.



14

Implica sempre
muito sangue
e
muita luz.
Mas não
vos falo
de cinema.
Falo-vos
dos
filhos.



15

Gerânio é palavra que sozinha floresce.
Janela, palavra que olha para dentro.
E tempo é coisa que decresce.
Ou então cresce, tudo é conforme o momento.



16

Mui bela é a não quebrada mão
do homem que, a mão pousando
em alheio quebrado ombro, uma estrela
lhe pousa.



17

Os meus a quem pertenço
são esses nomes ouvidos
dentro do sangue
com os ouvidos do sangue
à boca do sangue.



18

Eu agora vou falar duns cedros
sem abrir a boca.
Como aqui não estou, também
ninguém há-de notar
por aí além.

Ruas há de tantos anos,
que o tempo é só
uma das pedras do chão.
E rosas há tão encarnadas,
que a gente tem de as morder
para reconhecer
o sabor da família.

Tu agora não estás aqui,
és talvez um dos cedros.
És uma boca cheia de terra.
Macio e lento e macilento,
abres porém a boca
àquilo que a terra dá:
gerânios, pianos, pássaros,
mãos, céu, cães,
gata, ossos, lebres,
noites, outonos, bosques
e últimos versos
como este, também.



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III – Sonhados Damascos e Bolçando Fora
– 2 poemas
(noite de 2.07.07)



Sonhados Damascos

No Verão, o céu só chove em veludo.
São tiras de um azul tão negro quão o dos
sonhados damascos.
Esse veludo chega ao chão
das casas pagas a prestações
pela pobre gente que mora
ricamente em condóminos
sonhos.
Bate um mar de televisão
no sargaço de alcatifas.
Electricidades fazedoras de sumos
plastificam a língua bebedora.
No Inverno, o recolhimento conventual
toca até as boîtes,
frias tostas mistas disfarçam
a nostalgia de mandioca
e feijão preto
às putas brasileiras
como
sonhados damascos.



Bolçando Fora

Quando – finalmente – a idade
nos permitir chegar à Noruega,
o léxico levaremos já para
carne enlatada e peixe salgado.

Ao Escaguerraque bolçaremos fora
a bílis de anos e desenganos
tantos. Sem igreja e sem raça,
chegaremos prontos para a chuva sólida.

Animais obnubilados veremos pastando gelo – e
santuários de madeira à contraluz.
Tudo quanto a idade permite, é belo.
Não é preciso sempre invocar Jesus.

Crianças de mais de setenta anos
milenarão pelos centros culturais.
Guardaremos cedo o sono como aves.
Seremos umas delas, não mais.

Barcos de outros poemas barcarão
nossa intensa sede de sal trazida.
Poucas luzes na noite semestral.
Pouco tempo para quanto esperámos.

Aceitam-nos agora: chegámos.
Dão-nos roupa sintética, conservas.
Somos os sepultos nascituros.
Seremos da idade das ervas.

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IV – Diário de uma só Tarde
– (tarde de 3.07.07)



Há pessoas que são países
a que não podes ir.
Outras, países que
não deves visitar.



Seremos da idade das ervas. Vinha subindo a calçada, vieram subindo estes versos de inconsequente geopolítica humana. O tempo meteorológico é mais responsável por eles do que eu. Está um dia fosco como uma lâmpada caducada. Poalha de água em vez de ar, borrões de quase-cor em vez de árvores. Se se pode trabalhar numa sala hermética, tudo bem. Mas se se tem de sair (para cigarros e café), temperatura e humidade não resistem a tomar o verbo e o verso, arrefecendo a ambos com geopolíticas frustes. O remédio, parece-me, é comprar o tabaco, tomar rápido a chávena de café e reencaminhar os sapatos para a tal sala.
Enquanto não, confirmação da pouca gente no arredor. Nem transportes, nem gente que transportar. Em pleno Julho, uma revisitação do inverno: a geopolítica foi tomada pela rarefacção demográfica. É claro que há vias de saída, algumas das quais, até, de airoso êxodo: tenho Conan Doyle em casa, assim como Beth & Garry Hogg (The Young Traveller in Norway). Mantém-se o televisor tão apagado quanto o dia – e a coisa vai.
Do interior da pastelaria chega à sala de mesas um bafo morno e são de fornos sujeitando a farinha ao milagre do pão, ao prodígio dos bolos doces e dos salgados. Uma pessoa deixa-se estar na mornidão. A janela quadriculada de caixilhos engaiola para fora o inverno anacrónico deste Julho. Ao balcão, breve conversa sobre a catástrofe ambiental do aquecimento, da extinção das estações, dos cabrões poluidores, da merda que fazemos (uns mais, outros menos) ao mundo: frio na África do Sul, calor no Árctico etc..
A tudo isto indiferente, um par de namorados (alienígenas, nunca os vimos por estas bandas e debandas) contrabandeia uma conversa arrulhada de beijicosculações. Ele é de cabelo preto e de suíças à Jim Morrison; ela, de louro natural, peitoril rijo e columbino, barriga direita em escarpa e à mostra. São jarros bonitos, flores de si mesmos. Calculo-lhes 25 anos a cada um: meio século de amor sem cólera, no total.
Na mesa ao lado, o futuro deles: um casal na orla sexagenária. Ele, santantoniado por uma calva epicêntrica, emolduradas de branco a nuca e as orelhas; ela, ainda elegante, traça o torso de blusa verde, o nariz intenso e material, as varizes prensadas às pernas por seda elástica de farmácia.
Com a senhora da pastelaria, comento o tempo. Digo-lhe que, assim sendo, estando e indo o Julho, ela que aproveite enfeitando a casa de gambiarras-de-feliz-natal. Ela ri-se. Como os dois casais saíram entretanto, sou agora o único cliente da casa. Ela aproveita para pegar na revista de têvêcelebridades, sentar-se com ela ao colo no canto oposto do estabelecimento.
Melancolizo sem dor. Afinal, mando vir uma dinamarquesa e acampo por coisa de talvez uma hora mais ou assim, atento ao despovoamento e à irrupção canora de tantas palavras inconsequentes como a vida, a minha.
Ao contrário de minha casa, aqui o televisor trabalha. Distraio-me um pouco com o desfile, na prática ininterrupto, de têvêgente que seria vazia se a não enchesse tanta estupidez. Fala a minha língua, esta gente, garante ter nascido no meu País. Recolho ao caderno – e a vós – com a tristonha culpa do compatriotismo o mais obtuso.
Recordo a manhã. Foi boa, lavada, precoce e útil. Levantei-me muito cedo, verifiquei à varanda se o mundo não tinha d-existido, comi alguma coisa, tomei café, saí para me inscrever no comércio de pão fresco e bons-dias, voltei para casa, li o correio, comecei a trabalhar na edição radiofónica de uma história. Às onze e meia da manhã, já o almoço brandamente se dava a cocções no fogão. Ripei peito de frango para a gata, que, ao perfume da refeição nascitura, me não largava tornozelos, alma e cristandade. Ela comeu e voltou a deitar-se, melancólica ela também à percepção da poalha de água que lhe recordou, como a mim, o espírito de Raul Brandão e o espírito de meu Pai, almas de que lhe falo à lareira quando ela quer dormir e uma história.
Quatro e meia certas da tarde incerta, assisto à vitória final do nevoeiro. É como se Deus fumasse gelo. Entra um homem de queixo quadrado e rala barba negra como um problema de palavras cruzadas. É um sossegado. Tenho-o visto por aqui, sempre só e sem uma palavra. Calças e jaqueta de uma ganga que lhe vai ficando, limpíssima embora, menos bem: a progressiva idade progressivamente há-de afazendar-se – digo eu, que sou uma besta conservadora.
De repente, visão de um belo cavalo na televisão. Ainda bem, farto de burros estava eu.
Cedo ao nevoeiro. Do outro lado da calçada, um cacto institui-me a imagem de um polvo no mar de cinza. É tudo tão bonito. Desde menino que tais epifanias. Me fazem desejar não-viver em prol de um lugar cativo de balcão perante palcos destes. Sim, tudo é muito bonito. Noutros julhos, Julho era Figueira da Foz & Mãe. Isso passou, como passou a Nazaré para Jorge & Pai. Ainda há Mãe, ainda há Figueira, mas não a possibilidade mínima de reconciliar a autonomia dessa mulher-de-armas com as armas autónoma dessa Princesa de Pobres que a Figueira, não o sendo mais, me parece ainda. Cada julho me carece Julho. Passo.
Boa meteorologia com tudo, contudo: visão interna de Veronica Hammel fazendo de Joyce Davenport em Hill Street Blues, quando se me acabara já a Figueira da Foz e quando o mundo iniciava a cutelaria funérea das desepifanias.
Havendo, agora, a mente revisitado a luz única da Figueira da Foz e a luz única do olhar de Veronica/Joyce, não devo, talvez, chamar “luz” ao que esta tarde arde no meu Caramulo: fosca, caducada lâmpada. Talvez não deva. E no entanto é luz. é luz, sim: é uma roupa da hora, fluida, variável, infiel roupa – mas roupa e luz.
São seis e seis. Há tempo. A tarde striptisa-se , inverna-se em plena escadaria. Outra epinefrina (a palavra apareceu numa legenda da televisão) lhe acode ao coração: nesta paz, até uma arritmia seria um orago de festa. Mas não há qualquer necessidade dessa evolação. Conta – tudo se resume a – como um homem se protege do tempo (o que nubla a luz, não o que passa como um rio). Não o nega nem o renega – separa-o de si por uma janela de pastelaria, um cacto, uma actriz, um desejo, uma inocência. Como epitelial (outra palavra de legenda) nos é, a todos, a luz nas mãos – a tantos anos, a mesma marca indicial, inicial, principesca.
Mas – sim ou não? – a profusão da realidade vem dos olhos. Eu passeei pelas pedras vilanadas: onde a história comunga mortos e vivos e pássaros e coisas. Passeei bem, li um anúncio nascido da precaução, alertava de fugas de gás (fugás, portanto), de cansaço de horas (canoras, portanto), de frescas loucuras (fressuras, portanto).
Cerra-se a cerração. Poucos homens, poucas mulheres. Esta vila existe de acordo com a existência: faz desaparecer. Nem a ilusionistas emprego daria – ocupei o lugar.
Mas muitas árvores. Precisam de luz, apenas. Como peixes de ar na água, precisam de luz. Tornam-se-me tinta-da-china, elas, sem a luz postal do bom turismo, essa força que adjudica assadores de cordeiros e cozedores de bolos.
Eu não queria – mas não é possível não, pelo verbo, evitar o verso. Ele, o verso, volta. E canta. Tu queres ver? Tu queres ver:

A rapariga opera a menina que foi.
Ex-trai-se: torna-se mulher.
A quádrupla óssea anca de boi
engana a menina, vaca se quer.

Ela deita idioma e língua, baixas.
Outra mulher relenta veludos.
Ela trabalha em comércio e caixas.
Ela percebe mui de nadas e tudos.

E se não for assim, como já é?
E se não for assim, neste diário,
como já é no mundo?

Procuram os totós do mundo
respostas na poesia,
como se ela as tivera.
Tem.
Não tem.

Hoje, choveu. Mas pouco.
Vinte e cinquenta e nove da tarde. Noite.


9 comments:

Daniel Abrunheiro said...

Recebi hoje esta mensagem/comentário. Veio de longe. Aqui fica.

LM,paris has left a new comment on your post "Direitos de autor agitam teatro ACERT de Tondela":

manha de todos os dias, em paris ,
uma hora a menos, raio de espaço tempo e quando me vêm com o tempo real...esta discussao é interessante, anteontem li pela primeira vez os poemas do daniel, li e reli, tudo era verdade na lingua dele e que eu ouvia, à medida que corria o cursor, sem falhas, ou sim , uma palavra que eu achava linda, que nao conhecia...trinta e tal anos em frança...desculpem là!
Agora penso que hà uns anos encontrei o tal josé rui martins,
uma espécie de ogre( diz-se assim?) aqueles que nos contos comem as crianças e nao deixam nada.
Foi assim que eu o vi e senti, num encontro num café na Bastille, participavamos nesse ano no Festival de Teatro português em França,e eu ouvi-o falar dele e toda aquela mise en scène do seu personagem, a esposa ao lado, nem bolia...à noite, a cie apresentou
um espectàculo mediocre e sou simpàtica. Ele aumentou o palco,
(achou-o pouco largo),à tarde pôs-se a cortar madeira e a pregar tàbuas alargando de um metro a cena!
Uma coisa louca, o publico esperou no hall mais de uma hora...aquilo tudo era uma accao histérica, onde aquela energia dobrava toda a gente à vontade daquele senhor!
E depois a peça era tao mà, tudo era feio e mal feito, pra quê tanta revoluçao para parir um mini-rato doente e sem pêlo?
Fugi daquele mundo sem amor, nem humor, nem talento, desculpem là, fiquei deccepcionada do trabalho, so se via e ouvia o rui que nao parecia estar a actuar, mas a obrigar a malta a ouvi-lo, jà que falava mais alto, era ele o mais alto e era ele o maior!
Prontos, jà perceberam que nao me admira nada do que leio nestes comentarios, o que eu conheci desse senhor, é excessivo, sem lugar para qualquer tipo de escuta, sensibilidade ao que està a fazer ou ouvir. Parece uma maquina a triturar as coisas e pô-las ao seu serviço, nao é bem a ideia de que me faço nem da vida, das relaçoes humanas.
Os umbigos do mundo sao cansativos, e algum dia alguém tem de lhes dizer que nao estao cà impunes.
Dou uma dentada e ladro de longe,
jà que nao toco piano mas falo francês...tenez bon daniel, defenda aquilo que ache justo, estamos consigo. um abraço de paris aboyements gratuits à tous les étages!LM, paris

Manuel da Mata said...

Quem será esta "LM" que quis aboyer no canil do Daniel?
Aqui na puridade, esta LM sabe de teatro e de versos, Daniel... Dela me tem falado um nosso amigo e tenho-lhe lido alguns textos.
Boa noite, daniel.
Bonsoir, LM.

Gabriel Oliveira said...

Não são LM Lights, não senhor. São mesmo daqueles vermehos, que dão para alcatroar a estrada do Louriçal às Cavadas! ;)
Muito bem dito, LM. Obrigado pelo retrato credível!

Gabriel Oliveira said...

Não são LM Lights, não senhor. São mesmo daqueles vermehos, que dão para alcatroar a estrada do Louriçal às Cavadas! ;)
Muito bem dito, LM. Obrigado pelo retrato credível!

LM,paris said...

caro daniel, vou tentar rosnar direito nas linhas tortas da vida...que bom ter encontrado
ontem a sua pagina,
obrigada, merci da pensée, das prendas dedicadas,
os poemas « a rosa de areia »,
« havia canja uma festa, os pés adormeciam antes de nos,
as maos pura cartilagem de cebola « todos lindos, e a fotografia na praia, dos seus pais e irmaos, apanhados num movimento
em plano inclinado, sépia, a ternura sempre presente
no corpo dos pequeninos !
Adorei o vou à pastelaria, jà venho…a poesia suspensa,
e o labor quotidiano, amoroso na alegria, joyeux non ?
humor e casualidae, vi-me logo a ir à pastelaria e voltar,
claro com poemas no caderno, nos papeis do banco,
nos envelopes, o que estiver ali à mao !
Canto na rua, as cançoes de Cathy Berberian, tento…
conhece le grand lustucru ?
Ou a cançao de cage, flowers, ou as de Bilitis,
Debussy, canto mal e às vezes alto,
na rue des archives, no bairro du marais :
« il m’a dit cette nuit j’ai rêvé,
j’avais ta chevelure autour de mon cou,
j’avais tes cheveux comme un collier noir autour
de la nuque et sur ma poitrine,
je les ai caressé et c’était les miens,liés par la même chevelure,
la bouche sur la bouche »,
Tenho de ir, vou dançar com o Sultan,e jà venho, tenho um ensaio, deixo-lhe um poema:

« os erros combatem-se, nada fica para tràs
a nao ser um simples vinco na cara de lado
a lamber o peso
os anos sulcam-nos de surpresa
rompendo a asa que nos protege
envolvendo os noites que nos dao os dias
em que jà nao sei se espero
ou se anulo a mesma
estou de volta e resfolgo
como um cavalo cansado, até que enfim !

as ras retiram-se, està a nascer o dia.

LM, paris

Daniel Abrunheiro said...

L.: a verdade é que o comentário que me enviou, foi para mim uma alegria. Claro que só podia vir de uma pessoa que é amiga do grande Zé Antunes Ribeiro.
Merci.
Une rose pour vous.

Sophis said...

Moço, ainda me dá um ataque de ciúmes, a mim e ao clube de fans!rsrsrsrsrs

Amigo, estavas naqueles dias em que nadas num mar de inspiração.

beijos

JJC said...

Daniel, com regularidade aqui venho saber novas da Poesia Portuguesa. Continuas a surpreender, sempre. E essa dedicação profissional resulta neste casamento (improvável) da qualidade com a quantidade!
Um abraço (admirador e espantado) do
QJ

Daniel Abrunheiro said...

Obrigado, King.