Sunday, July 01, 2007

À Hora no Parque com Eles




Amo tudo o que não pode ser, que tem de ficar dentro de mim.
(…) aquilo que deveria estar morto vive com mais vida.
Robert Walser,
in Jakob von Gunten – um Diário



Receio um pouco (mas não muito, não de mais) que vos ande eu caramulizando (muito, de mais) a paciência. Teríeis de vir aqui, à hora, para aceitar que me não seja possível senão versejar a tremenda beleza totalitária do sítio.
Fundada em 1920, a estância sanatorial do Dr. Jerónimo de Lacerda acudiu a milhares de pacientes de uma doença que levou, também, alguns dos meus: pelo menos dois José e uma Maria.
Hoje, a maioria dos dezoito sanatórios rui sobre si mesma. Para mim, tolo manso de versinhos, estão tudo menos vazios.
O parque-jardim é em frente à minha casa. Está sempre a chamar-me.

– Anda vê-los, anda ouvi-los.

E eu vou.
Se vos levo comigo tão cedo (sete da manhã de domingo), é por bem: à hora, no parque, convosco.



À Hora no Parque com Eles

Sente:
não frio é já o vento das sete da manhã.
Fino e fresco ele é e te faz ser.
Despertam gentilmente as árvores
sob seus pássaros-despertadores.
Um gato no parque-jardim:
tigre mínimo na selva possível.
Sente:
o mundo foi sempre isto:
foi sempre esta hora,
foi sempre este vento.

Arregaça os braços o vento
das sete.
É como nascer sem
ter de chorar.
Mesma única natureza
entende dedos e ramos.
Não extintas, rumoram ’inda
por aqui
as palavras dos
que aqui foram
mundiais e matutinos
– mortos de espera.

Menininhas de gaze, hemorrosetas de face,
levitam um pouco na quase-névoa da hora.
Meninos vestidos de veludo azul-noite
ponderam gravemente nem começada infância.
Sou o vivo.
Possui-me a esperança de entender a hora.
Só posso saber lê-la, eu sei:
quando a escrever, ressurgir-me-á
quebrada de versos
em folhas que o vento
mal tocará
– por não de árvores serem.

É o que acontece a quem acorda
e vive.
Versos são rumores correndo
os carreiros de um parque-jardim, não as
palavras de um acordado
que o vento consente na condição
de, rápido, se sumir
na pastelaria.
Não choro saber isso.
Sempre assim foi:
o mundo, o vento,
a hora.

Recorro então ao aceitável ardil:
também tenho eu mortos
com quem falar.
Pensá-los basta para ouvi-los
e vê-los.
Também ponderam, levitam também:
ei-los.
Suavizou-os o sabão vegetal que os
embalsama: dormem na erva fresca.
Quando se espedaça em mil vidros,
argentina-os a Lua a eles só,
deitados na noite e na fresca erva.

Não se ouve falar de Deus.
Só têm dinheiro para anjos.
Sorriem mais do que nós, ainda assim.
Ciceronam-me as ruínas de antigos
bailes: o bufete agora diagonal,
o palco apodrecido como um peixe,
os balões rugosos e mirrados
suspensos de fio nenhum,
as senhas rasgadas do
capilé das senhoras, do
anis dos cavalheiros, dos
pirolitos das crianças.

Nenhuma outra formosura me
pode ser que esta.
Já a hora trepa um pouco, já
relincham um pouco as árvores,
gerigotam um pouco mais estrídulas as aves,
instala o domingo seu circo sem
outras feras
que a memória e os versos.
Não terei outra vida
que esta, à hora, com eles, só esta.
Quando chego à pastelaria, chego como
se chega de uma festa.

Texto e fotografia:
Caramulo, manhã muito cedo de domingo,
1 de Julho de 2007

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