Thursday, July 19, 2007

EU VENHO DE ONDE ARDIA e outros poemas de fim de caderno

Figueira da Foz, anos 40 do século passado
(uma das fotografias suspensas em exposição no Mercado da cidade)



Acabou-se um caderno mais. Tirando duas coisas de Abril passado, este caderno compendiou muita da escritalhada de Junho e Julho. Já arranjei um novo, este vai para a estante. Antes da estante, porém, retiro-lhe o que para aqui não tinha ainda passado. Então, com a vossa paciência, aqui vai.

Tábua

Caramulo, tarde de 17 de Julho de 2007
I. A PEQUENEZ DOS SONHOS E OUTRAS FICHAS TRIPLAS
II. CÁ ESTÃO UM E UMA
III. FIGUEIRA DA FOZ A SÉPIA PERANTE AS NOVAS TECNOLOGIAS
IV. EMBORA, ENFIM, POSSA SER QUE NÃO
V. AMANHÃ É OUTRORA


Caramulo, tarde de 18 de Julho de 2007
I. DA DITA PALAVRA
II. EU VENHO DE ONDE ARDIA
III. QUANDO À NOITE E A ARREDORES DA NOITE
IV. AINDA HÁ QUEM LEIA DISTO
V. EU ANDO AQUI SEM RIMAR
VI. FALA O ANIMAL DO VEGETAL
VII. O PRÓPRIO INFIEL

Caramulo, manhã de 2 de Julho de 2007
DE FLORES, LIVROS E PORCINA RIMA

Caramulo, noite de 3 de Julho de 2007
QUE PENSA POUCO A PALAVRA

Caramulo, tarde de 27 de Junho de 2007
CANÇÃO ESTRADEIRA

Caramulo, tarde de 2 de Junho de 2007
NÃO E TAMBÉM NÃO

Caramulo, tarde de 19 de Junho de 2007
ESCORÇO DE UMA PEÇA DE TEATRO RADIOFÓNICO SEM VOZ NEM ANTENA NEM AUDITÓRIO NEM NADA QUE SE LHE DIGA


Caramulo, tarde de 17 de Julho de 2007

I. A PEQUENEZ DOS SONHOS E OUTRAS FICHAS TRIPLAS

1

Pouco da vida vale algo à escrita
e no entanto toda p’ra ela transita.

Escrever a árvore não é trepá-la.

2

Esta mulher está dentro da sua beleza
como o pássaro na gaiola,
como a ave no ar.

3

Algas e medusas ondulam
nos sonhos acordados.
Tornam-se gente quando nos falam.

4

As crianças imitam os adultos.
Os adultos repetem as crianças.
Os hospitais não têm mãos a medir.

5

É a pequenez dos sonhos
que ofende a vida,
não o contrário.

II. CÁ ESTÃO UM E UMA

Inscrevem as linhas da nossa vida
os cadernos os anjos que entre nós,
desoladamente, ambulam.
Mal os representa nossa imaginação:
galináceos torpes semelham em
as telas iconográficas.
Nem por isso nos inscrevem eles
Menos: nossas encadernadas vidas,
linha a linha, tomam deles
os cadernos.

Se alguma vez te amei,
está lá.
Se alguma vez me quiseram,
lá há-de estar.

As pequenas frases dolorosas,
as mínimas humilhações,
uma manhã no mar,
uma tarde na barragem,
muito tiveram de escrever
os anjos,
nem número haverá para
tantos melancólicos cadernos.

A Mãe na cozinha mirando
os gatos no pátio.
O Pai imerso em profundos
bosques incertos e sem gatos.

Isto é um caderno.
Isto é uma das linhas.

Se alguma vez te
etc.

III. FIGUEIRA DA FOZ A SÉPIA PERANTE AS NOVAS TECNOLOGIAS

Da praia-sépia desertou há muito o mar,
é hoje, o leito, de uma desolação lunar.
Reviro-me na cama tal um frango lírico
grelhando e rodando sobre carvão de versos.

Os dias estabelecem-se fantasmas de paralelos dias,
só as noites são únicas, pois que uma só, todas.
É uma maravilha a natação, na água de fantasmas.
Noite e dias se casam – e celebram bodas.

Eu direi a profunda solidão dos móveis da casa,
que sozinhos rangem sílabas ferruginosas.
No pátio dos gatos fulguram as rosas
pela Mãe miradas, no ocaso sem acaso da casa.

Tantas coisas fervilham (como as margens do Nilo).
Envelhecidos rapazes do meu tempo avoengo
sei deles que passam, arteriais, pelas ruas
ainda – e bem. Não já os pais deles, sei.

Durmo, a praia-sépia na cabeça interior.
Rangem os batéis comidos de sal, como móveis
domésticos. Na casa de que desertou a Mãe,
dorme o filho, filho mais e mais de ninguém.

Tudo é natural, da água morna à dura fraga.
Peixes rebrilham na fria montra de jóias.
Senhoras calafetadas de botox violetam
químicas de França em vilas portuguesas.

Mesmo a Figueira da Foz atira a toalha,
mais fácil é Espanha de europesetas.
A areia da praia a quem a trabalha,
amargo turismo vive de hermesetas.

À noite na cama, pela hora de fecho
da geral sociedade e da televisão,
eu praticamente não sinto nem mexo
em tudo o que seja ’ma recordação.

Eu antes não quero reviver o foi-antes.
Prefiro, oh sim, choupanar noruegas.
Ao lado, a mulher (melhor das amantes)
vocifera – Qu’rido, mas tu não sossegas?

De modo que digo a profunda solidão dos imóveis,
que deles a cal não cega nem brilha.
Olha, ainda bem que há telemóveis.
Desligo o poema, telefono à filha.

IV. EMBORA, ENFIM, POSSA SER QUE NÃO

Por pobreza impura e simples aceitamos a morte
como mero fim de datação. Mas não.
Na morte, inicial sempre, o esquecimento
joga, não mais que isso, uma carta mais de
seu infinito baralho. Finito é quem esquece
e quem morre,
não o baralho nem o esquecimento.

V. AMANHÃ É OUTRORA

Salas e salões de champanhe e pickles
ocidentaram outrora sonhos infanto-juvenis.
Ostras eram servidas e comidas em Paris,
ressumava o Bois de Bologne de punks e freaks.

Senhoras não sonhadas sonhavam glandes,
fartas ofertas de luzicu modernidade.
Metrobrilhava toda uma Paris-Cidade,
sofriam emigrando souffrances grandes.

Tudo faz rir, menos o Pai.
Menos a Mãe, se a falta conta.
Da minha porta, sei eu, não sai
nada que não Parada de Gonta.

TV por cabo e internet. Avó moleira, diabo a 7.
Que tanto plano, ’ssim misturado,
cedo ou tarde, dá tango e fado.

Amanhã é outrora continuado.

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Caramulo, tarde de 18 de Julho de 2007

I. DA DITA PALAVRA

1

Cheira a campo, uma palavra dita
de modo silvestre.
Isto acontece.
Deus embebeda os diabos menores,
resultando que se nos misturam
as coordenadas e as cornadas.
Tudo é uma brincadeira, sobretudo
morrer.
Toda a gente tão séria, sisuda e hirsuta,
décadas a fio,
e depois morre-se
de riso.
Isto acontece.
Sei muito do rir, pouco
do morrer.
Sobram-me ambos os gestos,
ainda assim.

Como sei que cheiram a campo,
certas palavras.
E que, ao campo indo,
de palavras aos cestos se
regressa,
como de morangos
ou de
palavras.

2

São boas de versos,
as histórias
que correm mal.
Se tens ombros e caneta,
deixa que o peso nos ombros
desça à caneta.
Podes escrever –
peso no coração
–,
mas é mau verso,
pior do que a
história.

3

Carta, aliás, sem
aviso de recepção,
cada verso.

4

Costumo assistir ao desfile parado dos renques
de plantas que quietas bordam a pedra
da passagem humana pela calçada a subir.

É uma coisa que costumo fazer muito:
assistir.

5

Convocas o teu filho, ele não vem.
No quarto, apagas a vela e,
então,
evocas o teu filho.
Ele não vem.

6

É um dever teu, até na poesia:
sempre que vires um filho-da-puta,
chama-o pelo nome.

7

Se for filha,
Idem.

8

Sim: pois que
ele há santos filhos-da-puta
e
filhos-da-puta armados em
S. Paulo.

9

O céu é uma profundidade.

10

Tenho um irmão que está sozinho. E
não, não é o que morreu.
É, precisamente, o
que lhe sobreviveu.

11

Férias?
Cada vez que estou numa estrofe,
estou numa estância.

12

A terra é uma altura.

13

Em te apetecendo
vem daí
contar cascas de ostras
e sábados passados
entre amargas paredes
e amargas amêndoas
de baptizados não encomendados
também o organista
só sabia acordes de fados
e não é fácil
suportar o nosso futuro anterior
com o passado presente
por isso
em te apetecendo
vem daí
vem só daí
onde limbas nimbas pimbas e moras
toda a memória é a desoras
temos mais meias-noites
que inteiras manhãs
gosto de
no mercado
cheirar os peixes e as maçãs
por isso olha
vem daí
junta-te à gente
somos poucos
sou eu sozinho
somos ninguém.

Se não vieres
eu percebo
nós não vamos
dizer nada.

Só que não te apeteceu.

14

É de facto infinita, a vocação.
Digo vocação: digo:
o trabalho da voz.
Sempre algo a dizer.
Algo sempre a vozear.
Dito assim, enfim,
há sempre clientes.
Disse clientes: digo:
ouvintes:
e lentes.
A voz, sim: a que vás,
o fruto colhendo do
trabalho da garganta,
sua bela sinapse numa
álea de cervejarias e de
utilitárias divorciadas,
onde, e a quem,
premir a ranhura
da moeda,
a troco de um cigarro ou
de alguma frase.
Digo alguma frase: digo:
algum verso.

15

O hominídeo
arrasta o jornal desportivo
cada sábado rupestre,
para a gruta.
Mamutes bramam
contratações.

A Natureza não tem época,
porém.
Não tem, não tem.

16

Ainda digo
uma palavra dita.


II. EU VENHO DE ONDE ARDIA

Nada sei (tudo imagino) quanto ao regresso a casa
dos soldados que de matar houveram
para não ser mortos, 1939-1945.
As outras guerras não me interessam, só esta.

Os pés em pedra. Os olhos estilhaçados como vidros.
Talvez a minha mulher se tenha deitado.
Eu não sei. Eu venho de onde ardia.
Eu não vim: sempre lá estarei, na Europa.

Jerricans são latas de alemães, em que
há queimar-se a multitudinária mosca
norte-africana. Jerry & can – repete.
O correio era lido como chocolate têxtil.

Nada sei de voltar, nem de voltar
a ver uma mulher viva que não peça
dinheiro, cigarros, chocolate, roupa.
Em St. Oréans de Gammeville como em Bristol.

Lembro-me da cal viva, do pavor das aranhas.
Lembro-me das casas vivas, uma só mulher.
Era ela a aranha que à janela, gázea, tecia
a morte do dia, a Lua que fere.

Os assassinatos da guerra diferem da rua civil.
Morrem sem crédito os mortos da guerra.
Vieram ali para isso, para ser mortos.
Tiros limpos, na irritação das eras-épocas.

Como os napoleomens, talvez marchando na
Rússia hostil. Pontes de pedra e cavalos de pau,
tudo ao serviço de um corso anão
com bigode invisível de hitler gástrico.

Eu venho, sim, de onde ardia, mesmo que
o século III tenha querido ser maniqueu.
Eu não. Ai eu, não! Eu provenho de genética
alheia memória – escrevem-me, ou por mim, os mortos.

Funda tu de novo tua casa egípcia e ama,
se fores capaz, a gaja branca que Alexandria via
passar entre ombros e escombros, à durrel’uz,
és tu capaz, anis, a sós e a três?

Não: a quatro: tantos são os tijolos
de uma casa tetralógica, descontando
o quinteto d’avinhão, tarde lembrado,
não ao tempo da II Guerra somado.

Deixa. Lês? Deixa. Deixa-me comigo, dia
8 de Maio de 1945. Efusivas musas escriturárias
conarão frescuras fresco-livres-libertárias
em valsas picadíllycas de honesta liberação.

São como são. Já passou? Ai isso não.
II Guerra Mundial, mesmo que sem Portugal,
foi por causa de um cabrão multiplicado ao milhão,
soma ainda hoje normal.

Tenho livros disso; muitas ilustrações também.
Vejo os revérberos lustrais dos adolescentes.
Maquinavam voltar vivos a pai e a mãe.
Eram, da lama, terra e água e pó e gentes.

Eu venho de onde chovia. Certos sábados,
(seis décadas depois, ele há sossego),
Revisito a guerra sossegada sossegada-
mente, pois que me não lembro

só por não, carago!, haver ’inda nascido.
Napoleão não me é querido.
O fogo chove, a chuva arde:
memória é ser nunca ter sido.

III. QUANDO À NOITE E A ARREDORES DA NOITE

Quando à noite te sentas rente ao fogo
e pões a tocar um disco de gente
que só cá está por ter vindo à música
tu sabes (de que maneira não sabes)
que o fogo e a música dispensam a
homens e a mulheres e a ti.

E tu fazes como se nada disso fosse.
Nada disso fosse contigo esta noite.
É sempre esta noite mesmo de manhã.
Começa tão de madrugada a ser noite
que tu pões música de gente que ainda
arranjou maneira de cá estar de noite.

Habitas o couro amarelo de castanhos ossos de madeira
– o sofá próspero e perpétuo de tua poupança.
Exerces, cu nele, a memória dos caminhos
que não lembras – por dos filhos serem,
memória e caminhos.
E o mesmo sofá (mesmo couro, mesma madeira)
quando te fores à mesma vida, digo, outra.

IV. AINDA HÁ QUEM LEIA DISTO

Molha o teu casaco com a involuntária água
de alheias chuvas. Tudo tem projecto.
Não dependas de municípios para
Ser mosca, raposa, lebre ou insecticida.

Se cabelo te nasce do peito, compensa isso
com educação e respeito pelos semáforos.
O mais possível, esqueces.
O mais possível, não lembres.
Limita-te a recordar.
Limita o recordar-te.

Tens um coração que bate horas.
Soluçam dias, cada uma de tais horas.
Venosam envenenadas noites, tais meias
horas.
Tu tem cuidado com lances de rio,
com cigarros e – sobretudo –
seus relógios falsos.

Não nesse rio molhes teu coração,
mas com a involuntária inocência
de tua,
tão alheia afinal de ti,
alma.

Ou então lê livros e não escrevas.

V. EU ANDO AQUI SEM RIMAR

Eu ando aqui ajudando todo o anacleto baptista
a ler versos não luteranos nem maniqueus.
Isto de versos é mais de vida que resista
que de morte em vida de voz e nós e d’eus.

A sério que é.

Trata-se de uma atenção às pastelarias,
a sua germinumanidade cerealífera.
Nem toda a poesia, aliás, é mortífera,
como, aliás, manhãs de julho, mas das frias.

Tenho tido muitas palavras. Visitam-me,
a não marcadas horas me visitam.
Não vou dizer agora que me irritam,
agora não, mas vezes há que sim, irritam-me.

Quero dizer: não me deixam ser, não me
largam. E vezes há que sim, quero
me larguem, me deixem ir – e não voltar.
Ou, no mínimo, deixar um verso sem rimar.

VI. FALA O ANIMAL DO VEGETAL

Sou agora o papel vegetal picotado.
Pó de carvão prensa por mim a ligação.
Queira ou não, isto é fado.
Falo de passagem, geração a geração.

Eu tive um pai. Fiz duas vezes uma filha.
A gente repete-se muito por amor, ou assim.
Papel vegetal, pó de carvão.
Pelo picotado, fiz as filhas.

Agora pago. Sou de almanaque.
Diz a estatística que um achaque
perdoa em número ao algarismo
que nunca soube, perant’ ataque,
defender o próprio egorganismo.

Saudades duas: ai isso sim,
que eu escrevo o muito nada de mim.

VII. O PRÓPRIO INFIEL

Insensato é que não ames, como aliás sabes
te amam os mortos, mas só os teus.
Breve aflição ponderada: eles amam-te
sem corpo – de quantos
casamentos – ou irmandades – não
poderás versejar o mesmo?

Gazelas frias, no talho documentário,
servem de reses à ignara educação.
Não queiras tu Cristo ou Calvário,
que as finanças são e não dão.

Diz-me alegrias pequenitas.
Conta-me de gatos apeados.
Ou então comboios por territas
com hortos sem Cristos habitados.

Diz-me, não, diz-me que minha,
tua, nossa mãe preside
a nossos mesmos incestos:

esse de amarmos o próprio
infiel coração.

Ou não.

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Caramulo, manhã de 2 de Julho de 2007

DE FLORES, LIVROS E PORCINA RIMA

Maravilham-me já as flores e os livros
que não vi ainda.
Cultivo um muito razoável campo de antecipações.
Didascália e leucócito são flores dicróicas
Escurecidas pela minha invencível ignorância.
Alteridentidade e intrusão são livros
como tais flores.
O Soares que conta, é
o Bernardo, não o Mário.
Quando a minha mulher me obriga a
hipermercar alguma manhã de sábado,
armo-me sempre (até jamais) em
ledor de Lipovetsky e requeijandos.
Derivo-me com facílima facilidade para
observar os filhos-da-puta com o mesmo
reconhecimento com que por eles sou
observado.
Está bem assim.
O nosso País tem muito filho-da-puta e
muito cultivador de antecipações.
Pior, só a caspa nos colhões.

Conquilham-me já os crustáceos e os bivalves
que não comi ainda.
Altivo, um presunto razoável perneia coxa roxa.
Mas lá que gosto de ver filhos-da-puta,
gosto.
Até gramática e cesura sem censura
lhes ensino.
E se o gajo é porco,
rima suíno.

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Caramulo, noite de 3 de Julho de 2007

QUE PENSA POUCO A PALAVRA

Que pensa pouco a palavra
todo o mudo pensa e sabe
cabe à mesma palavra
saber se cabe ou não cabe.

Frase não muda o chover
chover não muda o falar
recolhe cedo, ’dormecer
cedo tent’ t’ acordar.

Havia velas bugias
vocapassados ’minentes
havia tardes tão frias
vossas nossas diferentes.

Palavra pouco que passa
não ri nem chora a desgraça.

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Caramulo, tarde de 27 de Junho de 2007

CANÇÃO ESTRADEIRA

Oh não fala não fala
Oh não diz não diz
Cala cara cala
Olhos e nariz

Que a boca fala
Diz nada da mala
Que a traz infeliz

Mora mora mora
Mora longe daqui
Quem não habita mora
Acolá e ali

Aqui não mora
Gente que não chora
Quem ri ri
Acolá e ali

Troca de putas
Ao teu mesmo espelho
Orelhas escutas
Dobras o joelho

Não digas não digas
Pés encordoados
Violas barrigas
Dedos sepultados

Quem foi quem foi
Arcanjo do mar
Cornos vaca boi
Comer afogar

E dos natais
Surpresos p’la cinta
São menos não mais
Que ninguém nos minta

Não minta a broa
Nem o ouropel
Não viva em Lisboa
Nem viva em Pinhel

Não viva não viva
Quem não quer viver
Não cante não fale
Quem não sabe ler

De tudo o que ouves
Aproveita nada
Corta esquerda direita
Vai por outra estrada

Oh não fala não fala.

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Caramulo, tarde de 2 de Junho de 2007

NÃO E TAMBÉM NÃO

Não planeei qualquer vida anterior, não planeio qualquer vida seguinte. Respiro. A minha condição não é isenta de egoísmos. De alguns altruísmos, também não.

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Caramulo, tarde de 19 de Junho de 2007

ESCORÇO DE UMA PEÇA DE TEATRO RADIOFÓNICO SEM VOZ NEM ANTENA NEM AUDITÓRIO NEM NADA QUE SE LHE DIGA

Fala-me numa verdade que seja negra e branca
como uma árvore sonhada.
Não queiras a tristeza cega do meu sexo.
Podes e deves rejeitar a cegueira triste do meu amor.
Fala-me para que eu possa voltar a falar.
Ontem à noite choveu na vida.
A vida era um pátio escancarado,
apto a todas as violações.
Eu não falei ontem à noite.
Uma mulher passou a tarde junto ao rio.
Ela atirava frutos e pedras às águas.
Depois entrou no rio.
Quando as águas lhe tomaram o peito,
a mulher começou a gritar o nome da filha,
a que não volta.
A fruta pode enlouquecer.
Fala-me loucamente.

Agora vê comigo este azul.
Frio azul azulejo de céu.
Tenho o coração diagonal, como se
lhe dessem as águas o peito.
Fala pássaros.
Diz peixes.
Atira-me pedras.
Tira-me frutos.
Cães pianolam as teclas das calçadas.
Temos de ouvi-los falar.

Camionetas vermelhas sangram viagens.
São como a vida sem sentido.
Crianças pulsam furta-imagens.
São elas o melhor de ter vivido.

Não vou a bailes há tempo tanto
quanto a idade da tua boca fechada.
Tropeço em rosas, vê lá tu.
Coço as mãos com a língua.

No outro dia fui ver a família do minimercado.
Andavam todos a desmantelar prateleiras.
Pintaram de fresco as paredes.
Reorganizaram as palavras maravilhosas:
frutas, conservas, azeite, queijo, licor,
sabão e sapatos.
Regressei maravilhado de tanta gramática.
Maravilho-me de tão pouco
quão de viver.

Dizes-te:

Por que te conto estas coisas?

Digo-me:

São apenas rios de tinta.

Toma na boca.

Leva no coração.

Acumula mercearias e espíritos.

Vê como as mulheres enlouquecem os rios.
Vê como nós somos para elas rios.
Temos pedras à beira da boca, dentro da boca.
Tornamo-nos chuva em pátios de que
desertamos a vida.

Eu já fui feliz em outros julhos.
Nem sempre fui este pátio.
A primeira vez que vi o mar, ainda não
tinha nascido:
essas coisas ficam.
Depois começa a chover.
Sonham-se a elas mesmas as árvores.
Essas ficam atrás de nós.

Mas tu ainda bailas

– tu dizes.

Vês-me passar na rua

– eu digo.

Sim.
Nós ainda bailamos.

O carteiro ronda-nos até
em dias sem cartas:
toda a vida.

Ele também vai ao minimercado
mas não vê as palavras.
Vê só os produtos.
Vê os produtos sós.
Ele não lê as cartas.

Ele não quer que a mulher
vá ao rio.

O que é que isto vai dar?
A mulher do leite não tem leite,
perdeu a filha.

Quando a noite toca a praia
com barcos de prata,
sabes,
a barriga toca o gelo.

Os pássaros do entardecer
levam-nos o coração nas patas.
Eles gritam no anil.

A minha filha não volta

– dizes.

A tua filha nunca veio

– digo.

Não compreendo
por que razão
se preencheu
o vazio do Mundo
com Deus
nem
por que motivo
se preencheu
o vazio de Deus
com o Mundo.

O Mundo tem carteiros e Deus também.

Tu dizes:

Conta-me mais daquela mulher.

Eu digo:

É bonita, veste preto, está a dar
o peito às águas
.

Tu dizes:

Isso é uma loucura.

Eu digo:

É louca, é bonita, veste preto, está a dar
o peito ao rio.


A tua boca não é fechada.

Eu digo:

A tua boca não é fechada. Mas olha que o sol não nos toca. Nós não somos pássaros. Nós não somos árvores. Nós somos viajantes breves. Escrevemos cartas à família do minimercado, o carteiro não as leva, têm de ser os produtos a
ser de si mesmos as palavras
.

Ri-te um pouco
enquanto a ternura
te arranca o papel das costas
como a pele-de-parede.

Sinos ao longe (como o fim do dia).
Sinos verdadeiros (não de gravação).

Rumor de patedo católico sobre brita.
Pedrículas-de-palavras-de-cascalho.
Amêndoas, bênçãos, alegrias, borracha.
O típico domingo.
Carteiro sozinho no casamento da
outra filha.

1 comment:

Paula Raposo said...

Mais um caderno indefinível! Belo demais por ter sido escrito aqui. Aqui, neste mundo, digo eu, que nada sei. Um beijo.