Saturday, July 21, 2007

Casas e Homens entre Árvores

Vivi as tardes de 19 e 20 de Julho de 2007 totalmente imerso no palavreado que a seguir vos exponho. Talvez seja uma elegia em duas partes, não sei. O que sei, definitivamente sei, é isto: eu queria ser pintor e músico. Como não posso, escrevo por imagens e sons. Isto é um aviso amigo: o que aí vem, bem, não é propriamente poesia. É uma sucessão de imagens e de sons. Haja paciência.

Casas e Homens entre Árvores

I

Casas entre árvores humanizam a solidão inicial
do mundo, através do céu descido em névoa,
sublinhado o caderno do olhar pelos pássaros
de lápis que o ar riscam de caligráfica
música.
Vozes pensadas restolham pelo chão outonal
da memória que as ouve, constantes, constante-
mente.
O ofício está aprendido: agora, é preciso
viver mais para que ele mais viva, mais isto
do que o contrário.
Ergue o dia escadas que a noite sobe,
senhora da escura vestimenta deslizando
antes de uma cauda de brilhos, talvez
estrelas, talvez olhos animais
vigiando no bosque as casas da solidão.
Nós estamos durante a vida. Depois, só
os versos são possíveis, bolhas de ar
subindo da alma mergulhadora.
O que se nos exige, para sempre, chama-se
atenção.
Assim como revestido de palavras é
o silêncio,
assim o sangue se nos abre em súbitas
rosas,
ao longo do longo caminho
até nascer.
Eu digo-nos estas coisas porque
a mesa me as sobe
à cara.
São um vento, estas coisas, e nós
vamos no vento como folhas
que aprenderam a ser
pássaros – e palavras.
Extenso é o amor como uma praia
rente a um oceano não pacífico.
Se o desejo nos torce como a molhadas
toalhas, rangemos na imperfeição lúbrica
imitadora do que juntou
nosso pai a nossa mãe.
Não estou aí.
Estou prestando atenção às casas
entre árvores, vizinho
de lobos e de coelhos.
Submisso às vozes desertas que me
lembram, também.
Manhã muito cedo, sou vivo.
Cruzo o bosque como quem devassa,
ouço o acordar húmido das casas
vazias, revisito o espelho-de-água
para confirmar o sonambulismo dos
peixes cor-de-água, ergo ao céu
um olhar de pedinte e só
me deixo morrer à noite
para que o sono me devolva aos
meus.
Tudo isto me é preciso e precioso.
A hora e meia daqui, sei
de uma senhora sentada num banquinho
perante uma praça com igreja.
Leva as horas recordando o futuro
dos filhos – uma menina, um menino.
Dentro dela, o coração trabalha
como um ginasta envelhecido
que quis ser bailarino
num mundo de trapézios e
funambulismos.
A sombra da senhora do banquinho
é um pano de anémonas
que medusa pelo mármore
com translúcida aparência
de água nadando água.
Ou fogo aquecendo fogo – pois que
posso dizer tudo,
agora posso,
os anos que levei para
dizer.
Que as mãos imitem estrelas e estrelícias,
em repouso sobre o caderno fervilhado de
pássaros,
lobos e coelhos.
Tudo o que quise(r)mos da vida, tenho-o
agora: um idioma convocador,
uma língua angariadora de fantasmas
versejáveis, uma gramática
formosa como uma mulher
tranquila.
Falo muito de mulheres mas
não ando por aí a comê-las.
Mexem-se, é certo, mas é como a
quietas casas entre árvores
que as espio e
expio.
Do mais delas, nada sei.
Nada sabemos delas.
Só quando se tornam mães e irmãs
deixamos de ser molhadas toalhas.
Maravilhoso é o mundo triste delas:
o furtivo olhar que deitam às pensões,
a competência na praça entre preços e gritos
e peixes mortos,
a arte devotada ao sustento das miniaturas:
maridos e filhos e irmãos.
Arderão sempre, esses lumes
votivos,
cativos,
definitivos
vivos.
Levanto-me, sim, muito cedo
para que o mundo nos não fuja de todo e
de vez.
Fotografo, aleatório, as riquezas pobres
da realidade: um muro de pedra,
um fragmento de bolacha caído de mãozita de criança,
um cão magro como uma harpa,
um clarão de barragem vista de cima
e uns pés de galinha afundados na
merda da prisão alimentícia.
Tudo isto existe tanto quanto um cartaz,
por exemplo um cartaz de leilão
de bens apreendidos por execução fiscal,
um pouco à maneira da lotaria
espermática de que nascemos,
o peixinho lácteo e girino do pai
mergulhando de ziguezagueante cabeça
na esferovite ovular da mãe,
à frente de todos os outros.
Por isso nos contam tão pouco os outros
no resto da corrida, não sei.
Sei poucas coisas e
muitas nuvens.
Ainda agora, nestes preparos, vi uma.
A minha mulher disse

– Parece uma pintura.

Eu olhei-as: a ela e à nuvem,
mesmo não sendo pintor
senão disto: riscos do ofício.
Entardecemos, como elas, em suspensão,
britando cristais com os mais
tristes pés que nos mereceram
as pernas.
Das ancas suspendemos os coldres
e as automáticas de uma luxúria
sem viço nem caprichos já.
Entardevelhecemos, é quase
tudo.
Vibram nas manhãs os chicotes de sol
permeado de chuva entrecostal:
harpazinhas de gelo
numa partitura de manteiga.
Cabras castanham entre verde, com um ar
de mães profissionais que
valida o plano de Deus e do
Diabo.
O amor e a lotaria acontecem aos outros,
o retrógrado pelotão de peixinhos
que para trás deixamos
na cabeçuda invasão
do requeijão
de nossa mãe.
Eu assisto de lado como um perfil
a todas estas maravilhas
que o quotidiano apresenta
(Produções Quotidiano & Dias)
com ademanes de mau vocalista
em baile paroquial.
Muita funda (muito gástrica) é a
Alma: um
xadrezinho de palavras a faz
ser bispo a colo de cavalo,
entre peões imemoriais
que devassam bosques e
casas neles,
bosques.
A nossa mãe sozinha na cozinha
invocando com interjeições de saliva
os gatos no pátio.
O nosso pai sozinho na cama de lama
juncada de raízes, fechado o céu
por uma folha de mármore
com datas e com o retrato
esmaltado em Itália
por ancestral firma gravadora.
As nossas filhas crescendo para mulheres
até que a hora e a idade as sentem num banquinho,
perante uma praça com
igreja.
E ainda:
no couro da cara, essas incrustações
a lume: os olhos,
mercuriadores azeites de uma intenção
genesíaca, tão inicial como a solidão
das casas entre árvores,
de que, penso, ter-vos-ei deixado,
já,
recado.
Cartazes de leilões e também
cartazes de bailes
resinando a cores
as árvores da terra,
anunciando paróquias e
denunciando bufetes,
entre acordeões e rosários.
Tudo tão susceptível de realidade quão
um sonho bem sonhado,
ajudando o corpo todo
à fátua elucubração das sinapses
bêbedas de luz negra.
Toda esta música.
Natural como árvores.
Natural
(mas di-lo-ei assim?)
como
casas entre árvores.
Versos entre árvores:
o ofício.
A raposa juntando-se a
lobos e coelhos,
mirando a especiosa humanidade
das casas iniciais,
da inicial humanidade
da solidão
para que saio,
manhã cedo,
noite muito cedo,
cada Lua.
Entre o susto e a preparação,
o poster do Cristo e o do Che,
entre o frigorífico e a mala de viagem,
o assento sedoso e o áspero consentimento
de cada um a seu mesmo cu:
uma eternidade datável em
mármore.
Casas, sim, casas
entre árvores.
Lobos
etc.
Ouros laranjam-me a cabeça,
nossas cabeças são laranjas de ouro.
A bióloga que emprenha nos intervalos
laboratoriais.
O homem que estende alcatrão quente
na via municipal ao dia,
à noite grelhando codornizes
congeladas como recordações.
O pão do dia trincado por fastio
contra a temperança da fortuna.
A serpentina moleza do esparguete
de imitação
engolido à beira de divorciadas
renitentes e secas.
A febre da palavra medida a quadrado
no caderno indiferente.
Tudo conta segundos,
em clarão de estrelas,
rápidas incursões no mar
e nos tijolos
dos dentes.
Não é breve a infância,
que toda a vida dura
contra a mole (exangue)
velhice (do sangue).
Não é finito o caleidoscópico idioma
que teus pais te transmitiram
entre guisados e bofetões
os mais carinhosos.

II

Homens entre árvores, também.
Como bandeiras de sangue branco me surgem,
candelábricos de suas almas-velas.
Nadadores do rio Tempo, com afectivos
afogados no currículo.
Salgueiros mnemónicos os assombram,
o que, aliás, nos junta e solidariza.
Vejo-os entre árvores: lobos
tristes e calados
como certas nuvens,
certos crepúsculos plenos de incerteza.
Numa praça de Lisboa vivi, certo ano da
minha incerta vida,
um bosque: brancos homens de fato escuro
passavam como fotogramas de estátuas,
comemorações da passagem, da efemeridade
e de um poema que
só agora,
doze anos depois,
posso. E passo.
Alguns corações cheios de julhos frios,
portáteis alaskas reverberando imensos e
não mansos, nas bermas da estrada,
nas terças-feiras insolúveis de
nossa monotonia.
Alguns corações quando se faz dia.
A noite flanelada de alguns corações.
Tudo isto e tudo disto me
diz respeito.
Salinas branqueiam os gestos,
alentejos torram ao sol frio
do coração.
Se falo muito do coração, é
de cor.
Acção é o meu precoce despertar, seis
e meia da manhã, todas as manhãs,
todos os invernos.
Tenho lutos que me dão luta, a que
sobrevivo por calcioxidadanada
temperança, dança a cabra, a puta dança.
Muito amor, também, na gástrica alma.
Eu vejo homens entre árvores.
São brancos como papéis não escritos.
E no entanto são-no e estão-no: escritos
como quadrados de arrendamento
em casas:
casas entre árvores.
Os animais fosforescem na lembrança imediata:
gente escura, de patas quatro, bebendo água
do espelho-de-água.
Sim, esses movimentos que doem como casamentos
mal servidos por empregados sazonais de
unhas sujas
e,
até,
impropérios
coloniais.
Os sangues estão cá em baixo e são rios
que precisam de ar e de pássaros e de nuvens
escritas.
São as pessoas.
São derivações de pessoas:
homens tão sós como itens de catálogo
cujo telefone não discamos,
cujas janelas não abrimos,
cujos somos.
Somos e vivemos
perto de capelas brancas
riscadas de sangue
por uma paranóia filarmónica
de pássaros que explodem
como apogiaturas.
Não contam tempo, fazem bem.
Eu vejo homens entre árvores, nem todos
vivem.
Digo: vivem, mas
só aqui.
Creio só na salgação de cal à luz.
As casas: volto a falar das casas.
Rápidos códigos de sombra: os homens
em paredes.
Toda a minha amorosa cegueira vê.
Tenho um lápis de pássaro.
Isso – e um enevoado caderno que
a chuva promete de harpas, quadrículas,
sonetos e recados.
A minha senhora olha os gatos,
olha o meu pai para cima seu italiano
mármore datado: 1917-1994.
Ondas de leite confirmam marés de pedra:
os mares são mecanográficos como individualidades
digitais.
A praia arde de nostalgia, a areia dos dedos dos pés,
o primeiro baile da filha maior
em bebedouros de champanhe
e falta de livros.
Os homens entre casas, oh
os homens entre casas.
Tenho tanto a dizer deles,
de tudo isto tenho tanto a dizer.
Alguns homens são mulheres
– deles as mães vivem neles.
Vinham da Fábrica como formigas,
aleitavam pelo caminho
o pequeno comércio de mercearias,
leitarias e dias,
eram regulares como o calendário
e como a morte e como a vela.
Não tenho escrito senão sobre isso:
sobre a minha rua inicial
como uma solidão
de casas e de homens
entre árvores.
Graças e garças de puro fogo anunciam
na cabeça sozinha a pura ardência
graciosa.
Repto e rapto.
E elegia e distracção.
Teatro é puro acto.
E amor e masturbação.
Da solidão dos lobos,
fala por hemistíquios,
solilóquios, congressos de
gente nenhuma
em vazias plateias
numeradas.
Dos loucos de chapéu,
fala sozinho – e
com chapéu.
Teus pais sofreram verões
junto a laranjais interditos,
tiveram, da economia,
a lição das latas de feijão,
do bacalhau patriótico.
Eles foram peixes de água na água,
fizeram-te por distracção
e acção e
nervos lácteos,
o peixinho,
a esferovite.
Caudas de estrelas e de ferozes animais
assustados rendem
rasto-lastro de cometas,
na noite,
na pequenina terça-feira
dos pobres-filhos-de-pobres-e-ainda-
-por-cima-já-mortos-ou-defuntos-
-fora-de-função.
Não.
Falo de cor por coração.
Não.
Digo o que me entende: certa
toalha de relva, na
Figueira da Foz,
molhada de mocidade ínclita
como um egrégio hino.
Vinte anos.
Mil anos.
Boa, vintona cara de comedor
de liceus respiratórios,
algumas passaritas sem mães – mais
a alma sem pai:
preparando-se para isso.
Têm andares pequenos e
pequenas lojas de retalh&venda
de electrodomésticos,
os homens afinal não fantasmais,
nem menos,
da minha visão,
entre árvores,
de vila pobre,
de pobre bosque.
Eu filmo.
A lamentação vem da falta de palavras.
Eu queria mais vidas, mais palavras
queria – e quero.
Tenho de fazer isto: por
ofício.
O meu ofício trata de casas,
trata de homens,
sabem onde,
entre árvores.
Muita fruta suca sangues de tais árvores.
Eu ontem vi.
Vi casas.
Vi homens.
Entre árvores vi.
A eles.
A elas.
Eu vejo.
É uma cegueira, aliás e até, versilibrista.
Que as pessoas são curtas e cegas, sei-o bem.
Glaucas sapatilhas limitam-nos os pés.
Emprenham de atacadores sem
ser por bolha nem amores: querem só parir,
mas depois andam fantasmando,
por bosques e casas,
os filhos,
como lobos e coelhos.
Eu vejo homens entre casas,
no bosque.
Palavras os açulam, como cães.
Eu vejo como devasso.
Cargas de carne apeixam o olhar.
Tenho tudo (e posso tudo)
a dizer.
Isto cresce para suas mesmas
solução e dissolução.
Os cantores cantam antes de entristecer.
O dia luz antes de anoitecer.
Penso que agora sei tudo quanto
há a saber.
Sim, voltarei humano
devagar a casa
entre árvores.

Texto: Caramulo, tardes de 19 (I) e 20 de Julho de 2007

Fotografia: Castelões (encosta nascente do Caramulo), tarde de 25 de Janeiro de 2007

No comments: