Wednesday, May 09, 2007

Vértebra da Serpente - história 75 do Anoitecer ao Tom Dela

1
Longe, a esta hora, os comboios urbanos desovam na gare de transbordo a serpente escura que, por assim dizer, cegamente embarca nos comboios suburbanos de ligação, que depois hão-de partir pelos campos aguados a fracturar a serpente cega no rasto de apeadeiros a que a noite chegou antes deles.

2
O rapaz, por esta hora, está dentro da acção do livro de capas negras e brilhantes, dentro da desconfiança do comissário, o qual acaba de descobrir que os setecentos mil francos marcados com tinta fluorescente invisível, roubados à mão armada, apenas dois dias antes, do posto dos Correios e recuperados por dois dos seus detectives, estão no lugar de outros setecentos mil francos, que, não marcados, estavam no cofre do comissariado à espera de serem depositados no fundo de pensões das viúvas da Força.

3
O rapaz está dentro da acção dentro do comboio dentro da noite. Fecha o livro no momento em que a máquina ingressa no túnel de pedra. Além, atraído pelo coração centrípeto da locomotiva, vem chegando já o apeadeiro. O rapaz fecha o livro fecha o saco fecha a viagem. Ele é um dos elos da corrente: uma das vértebras da serpente.

4
Durante a tarde, entre comboios, uma trovoada purificou tudo. A chuva sequente ergueu o perfume a terra, desempoeirou as plantas e debandou os pedintes da avenida. Também chovia no momento em que o comissário erguia o auscultador para comunicar à mulher que o não esperasse para jantar. O rapaz cingiu o casaco para melhor suportar a dupla chuvada.

5
Por trás dos Correios, um atalho de terra e casca de pinheiro leva à vivenda de emigrados de que o rapaz ocupa um quarto na cave. É esse posto que o rapaz vê no livro, tornando concêntricos a vila e Paris – e ele e o comissário.

6
Dez meses e meio do ano, o rapaz e o gato tripulam a solidão da vivenda. Partilham as refeições e o lume na cozinha exterior, cujas janelas acesas despertam na cerração do pátio uma litografia de cabana. Entre eles e o firmamento, entre a cozinha e a Lua, os cabos de alta tensão fatiam o vento e fritam as estrelas.

7
A esta hora, perto, o rapaz esquarteja uma galinha em porções simétricas. O gato ronda as pernas do operador, salta para a banca de mármore, rouqueja de prévia satisfação. O rapaz dá-lhe o peito: como a mãe ao infante.

8
Amanhã como ontem, à distância de uma noite sempre única, vai e vem o rapaz. É cortador num talho da cidade. Os pais voltam de Paris, um mês no Verão, uma quinzena pelo Natal. Trazem-lhe livros do comissário e explicam-lhe as ruas da Cidade-Luz. O rapaz funde os mundos, passa o resto do ano a refundi-los.

9
Nunca vão, o comissário e o rapaz, a ver o mar. A mulher do comissário suspira pela praia – em vão. O rapaz e o comissário são monges do dever. Paris, entre comboios, nunca dorme. É como se, na raiz do Mal, esteja a Insónia. O gato do rapaz não suspira por praia alguma. Só pela noite, que lhe devolve comida, colo e lume.

10
Se o rapaz não desembarcasse no apeadeiro depois do túnel, o comboio levá-lo-ia ao mar, que de noite é maior ainda e ainda mais definitivo. Mas o comissário não haveria de ver com bons olhos uma traição à rotina. A serpente não dispensa nenhuma das vértebras que a tornam eficiente e lhe dão um sentido – o mesmo sentido e a mesma eficiência dos comboios e dos comissários.


Caramulo, tarde de 19 de Abril de 2007

1 comment:

Paula Raposo said...

Fundindo e refundindo os mundos nas serpentes venenosas! Nem mais.