Monday, May 21, 2007

Às Tantas, da Janela da Pensão É Possível




Às Tantas, da Janela da Pensão É Possível
(Quase Prosas, com um Nevoeiro e algumas Rimas)





1. Sou tão Feliz em 1910

Está hoje um nevoeiro muito bonito.
Desceu-nos o céu: andamos nele,
a terra subiu, tocamo-la com as mãos.
Pássaros e ovelhas trocam impressões no limbo.
O caminho entre a minha casa e a pastelaria,
hoje, é outro filme.
Enquanto houver luz, estará aberta a capela.
Fecham-na à noite, logo
quando era mais precisa.

O mundo é a montanha.
A vila é o submundo.
Mas hoje podemos não ser vilãos,
hoje podemos ser mundiais.

À minha esquerda que sobe, a sebe
luz de nuvem condensada. Parece
alegre, a longa planta. Afago-a,
chego à pastelaria com água.

Sou um agraciado. Contenta-me
uma bolacha, satisfaz-me um café,
mais não preciso que de ver,
nem tanto assim de viver.

Uma mulher invisível e inominável
produziu à sua porta um clarão de rosas
e sardinheiras.
Resistem, calicromas, à condensação, fulgurosas
e faceiras.

Sou tão feliz. Não espero o Sol, não
espero nada que possa vir.

Levo-vos comigo través o nevoeiro.
Os vivos e os mortos, os cães e os gatos,
o Almanach Bertrand de 1910 e um
desenho que uma das meninas
me fez para talismã
sempre que a Lua nascer
de manhã.

Hoje, nem Sol nem Lua.
Apenas um homem (todos os homens)
na submersa rua.



2. Casa Arrumada

Tenho uma casa arrumada.
A um canto, os sábios gregos pontificam calados
como a caixa de clipes que sobre eles esqueci.
O candeeiro espera que se apague a janela.
Alcatifo passos surdinos quando
vou mijar ou beber água à cozinha
ou à varanda verificar
o império da noite.
Macedónias e babilónias sossegadas
dormem as horas-séculos
em boas encadernações.
Quando o oriente esclarece a janela,
apago o candeeiro.

Tem sido sempre assim.
No outro dia, homens remendavam a canalização,
faltou a água na torneira.
Vale que choveu tanto,
que me lavei debaixo da caleira.

Tenho uma casa arrumada
porque sei isto assim:

morrer é tornar tudo passado,
viver é tudo passar.

Já não há, portanto, problemas.
Daqui, não há questões já. Só poemas.
Divirto-me com o formigoperariado
das letras: hermeneutas, averroístas,
panteístas, sextânticos,
atlânticos, sextafeirantes,
jogadores da lotaria,
feuerbachianos, trotskymexicanos,
e olimpistas.
Gosto deles todos.
Prefiro nadar nu na barragem, porém.

Se vou à mercearia, sábados de manhã, é
para cheirar o perfume dos frangos
que o homem assa por encomenda, é
para cheirar o Verão
nas cerejas e nos pimentos.
Tanto isso me basta quanto
respirar.
Juro que sim.

Para mais, combato a tristeza
com camisas de manga curta
e sapatos suaves.

Às paredes do meu quarto
colo cartazes de bailes religiosos
e de missas-rock,
de aniversários de elevações a vila,
de cartomantes que cegam maus-olhados,
de promoções informáticas,
de cópulas automáticas,
de combates de caracóis,
do Che Guevara e da Linda Lovelace.
Tudo arrumado.



3. Encomenda ao pintor Fernando Campos

Árvores vermelhas, um rasto de papéis verdes.
Nenhum rio amarelo: só a ideia de sua
ausência.
Instrumentos de ciência e restos de comida,
uma mão masculina de criança
(mas como sexualizar essa mão
que nunca matou, ainda não?),
um gato e um peixe vivos.

Mais aquela manhã em que a Mãe
me levou a ver o mar e me trouxe
de volta juntamente com um
saco de feijão verde.

Verde?
Um rasto de papéis verdes, árvores vermelhas
etc..



4. Mãos Cheias

As cheias da minha infância
não eram da minha infância, eram
do muito que chovia
e do rio que subia.

Boiavam laranjas vivas
e galináceos mortos
e molhos de canas
e bocaditos de casas.

O Campo marejava
como bocejados olhos.
D’Aquém à Banda d’Além
rumorava o alumínio da toalha d’água,
crespada ela pelo vento tão frio como
as mãos da minha infância,
essas sim minhas,
as mãos
da minha infância.



5. Rápido, Duro, Azul

O berço do homem que me fez
era de colchãozinho de dura palha
entre tabuinhas azuis.
Conheço que, quinto, teve de infanciar
depressa, pois que não tardou o sexto.
Meu avô era viril e minha avó também.



6. A que Cheirava, Domingo

Um restolho de cheiros contraíamos pela brisa,
acabava-se a tarde no surdo estrondo colorido
a ocidente.
Cheirava a comida feita devagar,
como se fosse domingo sempre,
para sempre.

Não foi.



7. Do Anti-Imperialismo

Lá fora, o fresco cristaliza os animais
e as pessoas pobres.
Não a nós, que nos
demoramos na cabana aquecida
pelo lume fátuo da televisão,
famílias e famílias
devorando bolos e toucinho
com rubras cafeteiras saindo sempre,
e ditos bem dispostos
e uma avó que adormece a lapsos.

Lá fora, é o império da noite.
E nós somos só isto,
não imperadores.



8. Ceia não Sabendo

Depois de consertar os sapatos vermelhos da menina,
o sapateiro estrela um ovo e coze uma salsicha.
Ele sabe que chegou a noite. Não sabe, é como.



9. Regime 1789

Paris manda-lhes que sejam magras – e
elas são, as raparigas que, em nossas
pastelarias nacionais, bebem leite
chilro com bolachinhas integrais.



10. Domine, Vocativo de Sacristão

Esquece a casa que te não lembrou.



11. Cinco Quartas e uma Quinta

Nada d’antropomorfismos,
nada de pessoalizações,
mas dá-m’ às vezes p’ra barbarismos,
paganismos, religiões.

Digo: parece-m’ a pedra feliz
e cantora a água mansa
e o sol ter sobrepeliz
e o vento ser uma dança.

A galinha (até ela)
lembra-me dama casada:
todo o galo se põe nela
desde que se saiba nada.

E o padre rubicundo,
quilos de gordo no cu,
vermelheja iracundo
e tosse sangue de peru.

Panca’ minha, bem no sei.
É da língua portuguesa.
Trop’os versos atirei,
são p’ra rir contr’ a tristeza.

(Perlas-dentes, rubi-lábios
e outras geologias,
guardo eu de alfarrábios
compulsados só por sábios
que sabem de poesias.)



12. Os Outros também Eram

Era na Tocha, 1982.
A idade, de tão suficiente quanto uma pedra,
vigorava.
O mar já então fazia o de agora, como sempre:
na noite falava palavras brancas,
de dia era prensado ao chão
pelo sol e pelas avionetas publicitárias.
Todos os sábados a televisão nocturna
emitia um brando filme de terror.
Eu bebia uma laranjada e suspendia-me
do filme como um funâmbulo da alma.
Eu era feliz.
Era em 1982, na Tocha.



13. O Rei da Comédia

O rei da comédia não tinha rainha em casa.
Tinha só piada.
No bar nocturno, de fato amarelo e gravata encarnada, dizia coisas assim:

– Vou ser muito breve, como com a minha mulher.
– Telefonei ao meu amigo e disse-lhe que a minha ambição era a mulher dele dedicar-se ao atletismo. E ele assim: “Ao atletismo? Então porquê?” E eu: “P’ra ela correr contigo.”
– Sim, porque eu sou tão amigo desse meu amigo que até estive presente na concepção dos filhos dele.
– E o alcoólico? Bem, todo o alcoólico é mais cristão do que Cristo. Sim é, porque nunca diz: “Pá, afasta de mim esse cálice.”
– Estou à vontade p’ra dizer estas coisas porque quando me casei c’a minha biciclete ela ia de ramo de laranjeira e eu de ramo de loureiro.

E depois o rei da comédia fazia pistolas com os indicadores, saía caminhando de costas, trocava de roupa no escuro (fato azul, gravata cinza, mesmos únicos sapatos) e ia a pé até outro bar onde a noite fosse poder estar calado.



14. Sétima para outra Coisa

Não é verdade que a viração fria das janelas
te faça ainda tossir:
um homem não chora e um morto não tosse.
Se queres voltar, diz-me outra coisa.
Não te insurjas de grená no clarão
de rosas e sardinheiras da minha vizinha
invisível e inominável como tu.



15. Pergunta nº 15

Que é feito dessa alegria pulsadora
que alegremente pulsava, fazendo?



16. Contabilidade – I

Esse amor de antes de mim não era.



17. Contabilidade – II

Esse amor de antes de mim não era
para ser trocado, por ti, por mim.



18. Muito

Vale-me que posso muito.
Volto, sempre que posso,
ao muito que não pude.



19. E Cedo Erguer

Deitei-me já a alba clareava.
Dormi fundo sono sem cor.
Livre então, a alma escrava
fez-se ilha, fez-se açor.

Vil volátil matéria feia
do corpo adormecido
acordou às onze e meia
bem disposta do dormido.

Espreguicei-me no chuveiro,
a sabão corri junturas:
intradedos, ‘xilas, virilhas.
Pós, reforcei o tinteiro
p’ra tintar estascrituras:
sono d’açor dorme ilhas.



20. Achamento

Acho que o futuro não é recuperável.



21. Vaca Justaposta e Idiomática contra o Quotidiano

Comparam sempre a poesia
à prioridade do dia-a-dia.
Parece que nem havia
como aquecer a vaca-fria.



22. Verde, Negro, às Tantas

Às tantas, da janela da pensão é possível
assistir a um acidente ligeiro ou
a uma pós-cena de facadas com senhoras
meretrizes gritando pela mãe e pelos sobrinhos
e a polícias correndo com o boné à banda.
Era era, é possível.
Isso não é duro.
Duro, é ser bom canalizador e ser do Minho
e não ter contrato e andar quatro anos e meio
a recibo verde em Lisboa,
dentro da pensão,
longe da mulher & bambinos.
A dureza é uma cor possível porque pode muito,
às tantas da manhã,
à janela da pensão.



23. Eixo Coimbra-Lisboa

Não sei bem o que seja.
Bebe-se a norte mais cerveja,
sempre há mais população.
Casalito novo alveja,
Log’ à saída da igreja
prosperar em condição.

Trabalhar a horta não,
qu’ iss’ é pouco doutoral.
Sem cabeça-de-casal,
euro-decapitação.

Tu faz seguros
que eu limpezas.
Nós somos duros,
somos rijezas.

(Agora a sério:)

Pega-se no carro, vai-se pela via ICqualquercoisa,
chega-se ao sítio onde a Mãe apodrece em vida,
corta-se à direita, onde já pintam
dipermercado o que foi fábrica,
onde já urbanizam sem urbanidade
um monte que já nem tinha idade,
embica-se em frente onde luz mais
e tenda-se aí os arraiais.

Olhemos, então, nossos compatriotas:
felizes, miguéistorgas, gouchas, idiotas,
poliglotas em banda larga, éméssiéne,
girl é gaja; e gajo é man.

Mas, porque são capazes e
extremaxtremamentaudazes,
digo-vos eu, numa boa,
que nem tudo o que se sabe
a meu parecer cabe
no eixo Coimbra-Lisboa.



24. Estatística Natural

As formigas dormem mais do que os tubarões.



25. Alameda e Final

Ultimamente, tenho recordado para a frente,
como se tal fizesse diferir o Dia da Lua.
Não faz, mas uma pessoa deve tentar sempre.
Era, pelo menos, o que fazia um casal transmontano
estabelecido em Lisboa no Bairro dos Actores,
à Alameda, em Lisboa, capital do Reyno.
Ele era apagado. Ela não acendia.
Mas lá tentar, tentavam.
Trinta anos daquilo.
A comida era boa e barata.
A sopa nutria o mesmo pão que a acompanhava.
Iscas de fígado, meio bitoque
– tudo isso combatia, na noite fria,
jazz, salsa e rock.
Anoitecia muito, quando conheci tais coisas
(1995-1997).
Uma seita dinheirosa jesuscristava em brasileiro
num ex-cinema arrendado, com grande sucesso
entre barbeiros e viúvas.
Tudo me passava de/ao lado, mas
outros homens conheciam a bíblia restrita
de outras mulheres: e os versículos eram
a centavos de taxímetro,
como se se pagasse a cantores
de segunda escolha.
Ou como se, estando tão de vez vivo,
fosse para viver economicamente
a lucro de mais tarde,
agora,
escrever tudo.
Tudo, sim: da António José de Almeida
descendo ao Superior Técnico, uma fila de comerciais-2-lugares
janelando putas pensionistas
alinhadas em indiana lateral
como evangelistas brasileiros,
eixo Brasil-Portugal.
Eu lembro mas não sei.
O Titanic tinha piada até ao filme.
Os outros homens britânicos
foram freis, luíses e sousas.
Ninguém é a password,
actual, alameda e finalmente.


Quarteirão de poemas: Caramulo, tard&noite de 20 de Maio de 2007
Fotografia: Caramulo, tarde de 20 de Maio de 2007

4 comments:

Anonymous said...

fico banzado

Paula Raposo said...

Adorei a fotografia. As palavras difíceis para a minha capacidade.

Daniel Abrunheiro said...

a fotografia é o melhor da festa, de facto, Paula.

pc said...

Muito bom. Fantástico!!!