Wednesday, May 30, 2007

Nações à beira de Junho






I

Claro que a língua é uma temperatura.
Claro que a língua é de vagar.
Falamos em câmara lenta.
Rápido, só o olhar.
O dia virá
que não
odiaremos
já.
O mesmo amor
cederá resina
ao nascente damasco:
a oblata morte.
Entretanto, é tempo de Bobby Darin, de António Botto.
O cantor e o poeta, irmanados pela baba sonora da publicação, compreendem-nos.
Compreendem-nos no sentido de conter-nos: cantamos e dizemos sempre, mais regelada que mais acaloradamente, uns, outros.
Memoro para a frente,
na tarde macia como uma flanela,
como um preservativo.
A febre reumática levou, a médio muito curto prazo, o que cantava.
Foi atropelado o gostador de rapazes.
À mesa, perante os corpos expostos, não cedo à tentação mortuária.
Leio Reportagem, de Botto, ouço Beyond the Sea, por Darin.
Eles dois mexem as patinhas vivas, insectos reacesos pela brisa vagalume.
Brando incêndio branco, fora de casa, tomou a povoação e sua montanha exemplar.
As tílias e os cedros farfalham, gozosas, a claridade.
Meu glauco coração em
as mãos escritas a sal e a vinho:
por um lápis.
Os outros corações glaucos,
que reconheço à distância,
aferventados no caldo das
terras estioladas do País:
nações à beira de Junho.
Salvei ontem, da mortífera brincandade da minha gata, um aranhiço apeado na alcatifa. A felídea, usurpada do direito de matar que lhe concede a auto-pedagogia, radiografou-me de alto a baixo. Senti (nela, dela) a impotência do tigre de miniatura. O aranhiço, protegido pela vidraça de correr da varanda, correu da varanda para o jardim, onde há serpentes.
Entrementes, ninguém telefona – e também isso é bom.
Um taxista muito velho daqui contou-me que, certa ocasião, quando os sanatórios da tuberculose davam muito, teve de levar um doente terminal no táxi dele. Tão doente vinha buscá-lo a família, que no tejadilho do táxi seguia viagem, já e também, o caixão correspondente ao freguês.
Isto é tudo verdade:
a claridade nos cedros e nas tílias,
a temperatura do coração idiomático,
o caixilho fértil das ancas da rapariga tolinha que chora rosas quando algum casado a despreza.
Ando aqui nos legos (no logos): araucária, litote, avania, nimbo, rizofagia, maniqueu, estola, objurgação. Palavras que pirilampam na noite branca que toda a página é: uma ventania de cordas desfechadas pelo arco do lápis.
Maravilha, langor, hipotálamo e internet: substância e rede; e luz e alma.
Ao balcão, de busto-rodin pingando para o jornal desportivo, o homem barbado toma um café que arrefece como um mau verso. Nisto, o dono velho parpadeia décadas, consulta um totoloto parecido com a vida por não ter dado nada, boatarda os presentes e dissipa-se no ar como uma senhora-de-fátima-roger & over.
Darin e Botto, sensualões, curtem a rara-facção do ar.
Três escalões etários pousam e pombam na mesa ao lado.
A de costas para cá (segundo escalão de progressão na carreira) reveste-se de camisola cor-de-laranja que não lhe alcança o cós, desalcance de que resulta a exposição de um cóccix piloso e dermóide. De fina ganga perneja até ao descambo de cetinsapato agudo. Cabeleira ripada a madeixas químicas.
António Tomás Botto, 1897-1959-2007.
Walden Robert Cassotto, aka Bobby Darin, 1936-1973-2007.



II

Se puderes, não tussas sangue.
Junho não demora, umas revistas mais – e está aí Junho.
Se podes não acreditar em Deus,
não credites Deus.
11 de Maio de 1994 não acontece sem generosidade:
o fogo.
11 de Abril de 1983 não acontece sem ele:
a neve.
A Grande Bicicleta – o Tempo – roda seus
casamentos ínvios,
uns contra outras,
na tua terra como em todas,
o pasteleiro contra a dactilógrafa,
a merceeira-filha contra o doutor de educação física,
o pálido assistente social (aliás homossexual) contra
o motorista do autocarro (aliás mulher).
Todo este Junho a que me aporta o coração
– e a varanda meteorológica da melhor
das casas que já ocupei.
Tinham-me avisado:
Maio desce, a noite sobe.
A noite conta dias.
Sobidesce.
Entretanto, senhoras admitem
vasos comunicantes: filhos,
quimioterapias, revistas rápidas
como o olhar.
Se olho as ruas de Lisboa
como a tábuas tombadas? – olho.
O Tejo não é, aliás e ali,
rio, mas colchão de
economias e indochineses subassalariados
por noruegueses matadores
de baleias.
Tudo isto:
constante, contemporâneo,
constantemente, contemporaneamente.
E se por milagre te acudir
a bela torre loura
cuja carnação estoira
alfazemas púbicas,
se por milagre te chegar
ela com isto

– Olha, The Waste Land e os Four Quartets

tu não dirás, a essa senhora,
qualquer coisa
que te comprometa,
que só nas entrelinhas,
que só,
só.



III

O bom homem
limita a respiração
ao ar que lhe deixam.
O homem bom
abre janelas,
manda calar
a barulheiripópe
do andar de baixo
– e depois
sopra
da ponta do cano
o fumo da pistola
e assopra sem retalho
sobre a rapariga deitada,

dá-lhe a luz de lado,
a ela,
parece Vermeer,
ele.



IV

O mais é que
terei de trazer-vos aqui.
É onde, também, decoro:
14 de Agosto de 1980
(Alberto),
1 de Maio de 1971
(Lucília, Graça, José, Carlos).
Enquanto a vida mexe
e é segura
e a flora cresce
da agra cultura.
É preciso ar.
É preciso liar.
É preciso taliar.
É preciso retaliar.
Contra todo o relatór&contas
dos bancos e das seguradoras
publicados em suplemento
nos jornais
ditos sérios
pitos sírios
assírios e sumérios
e a Mesopotâmia
quer dizer
entre-rios
Tigre e Eufrates
e por assim dizer
é
interamnense.
Aqui.



V
De outras parolices me
escusarei hoje.
Tenho (e trago) referências.
Cozo de
vagar
a carne de vaca
(com prumo de mínimo azeite).
Deixo-a,
à vaca,
sozinha
e pedaçada sobre tábua
de madeira-pão,
a que acudo com guarnição
de batata, cebola, cenoura
e grão.
Deixo ferventar a
tenra vagem
em caldacarnosa
passagem.
Rejunto a chicha.

(Entretanto, mijo.
E,
da picha,
helicopterarei
a quarentona downloadada
de eréctil saudade.
Depois,
lavo as patas
para voltar
às batatas.)

Isto passa-se.

À noite, prontinho:
bloco ao lado,
interneto o composto poema,
Junho não tarda
aí.




Texto: Caramulo, tarde de 28 de Maio de 2007
Fotografia: Caramulo, 20 de Maio de 2007

1 comment:

Afectos said...

Não importa o contexto mas lembra um cavalo à solta...