Friday, May 18, 2007

Coimbra-B, entretanto




Sonhar ou fotografar, às vezes dá o mesmo no mesmo.
E os mortais são vitais, mexem-se, atravessam a luz
como se água devassassem.
Vemos e não sabemos, só olhamos, deixamos tudo passar.
Deixamos passar tudo.

Não é a dor, qualquer ela seja.
Nada que um pano quente no inverno não cure.
Nada que uma sombra de árvore não cure, se estia.
É devassarmos as trevas até que a janela do quarto
nos resgate.
Esse fundamental ser-só que nos recobre como uma pele,
suas escamas duras como palhetas de ferro.

Dentro, os órgãos pulsam sangue cego, muito preto.
Dentro do comboio, o homem.
Dentro do homem, o rapaz.
Nas mãos de ambos, a máquina fotográfica vê sozinha
as passagens, o nível, obtura a cárie do relógio.

É repetir e tornar a dar, a perder.
Nós estamos nisto.
Costumo escrever porque não abarco.
Dentro do comboio, o pacote de bolachas do velho guloso,
o portátil do jovem netinho de alguém, a revista
com o cristianorronaldo na capa.
Muda-se de coxia para coxia,
de carruagem para carruagem
(o vago terror nas passagens articuladas que deixam
ver o chão corredor),
chegamos ao vagão-bar,
metemos conversa com o contratado,
aceitamos-lhe um café que sabe a mijo de contrabando,
pensamos na chegada,
nunca na partida.

O que deixamos, quem deixamos.
Quem vamos ter, com quem vamos ter.
Um cavalo rápido na janela, casinhotos de ferramentas,
capelas bruscas como ideias brancas,
um velho de cadeira de rodas recebendo o sol a uma porta,
charcos de chuva envelhecida, barro,
roupa crucificada em arames de pátios,
então a voz do comboio

dentro de momentos
daremos entrada na estação de Coimbra-B


e chama-nos
com toda a razão

passageiros.

Palavras:
Caramulo, tarde de 18 de Maio de 2007
Fotografia:
viagem Santa Comba Dão (Vimieiro)- Pombal,
2 de Abril de 2007

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