Wednesday, May 16, 2007

Chumbo, Música e Pão – uma passagem






A mais comezinha realidade pode ser a realidade mais assustadora.
Finjo quase sempre que não, que não é verdadeiro o primeiro verso.
Hoje está sol, não há susto, pela minha janela entra a música dos voadores.
Mas no outro dia, sabes, no outro dia era isto: isto, assim.
Meti-me dentro de casa. Depois, tive de sair, meti-me dentro de outras casas.
O céu carregava a sua caçadeira descomunal.
Todo aquele chumbo no nosso sangue.
As moscas e os pássaros e os cães e as crianças daquele dia: todos cegos.
Eu derivei na hora, pensei no mar, pensei na minha Mãe, pensei nos mortos
do costume.
Fiz assim: peguei no telefone e contei anedotas a amigos.
Tenho muitos amigos e muitas anedotas.
À noite, fiz-me rir. Fiz sopa, tinha comprado pão fresco, a coisa passou.



Texto: Caramulo, manhã de 16 de Maio de 2007
Fotografia: Caramulo, 26 de Abril de 2007

4 comments:

Sophis said...

é sempre a mesma merda. Espero que a sopa se tenha comido. (o dia era mau, ontem).

Daniel Abrunheiro said...

a sopa comeu-se e o dia viveu-se.

Daniel Abrunheiro said...
This comment has been removed by the author.
PC said...

Há dias assim... O chumbo no sangue, a cegueira em tudo (e em todos) que vimos. Até em nós.Derivamos, sim... Pensamos nos mortos do costume, também. Sempre, todos os dias, durante horas, minutos ou breves segundos. Sem os esquecer. No entanto, também precisamos de viver. Temos vida, sol, música, amigos, anedotas, sopa, pão fresco... Vivamos. Um dia estaremos com eles.