Sunday, April 01, 2007

Sabadesíodo – Trabalho e Dia




I. Sete Sétimas Naturais

Esquecimento controlado é o que devemos exercer
sobre o passado. O mesmo quanto ao futuro,
que só duro pode ser – e há-de ser.
Sábado à tarde, no barbeiro, o espelho
tosquiava-me excessos nascidos da cabeça: e
eu muito desejo fazer o mesmo ao meu mesmo
tempo, à minha vida mesma.

Toda a estima me é preciosa.
Em viagem, a estrada é que vem.
Nublam-se os olhos bastas vezes de lágrimas
lembradas. Não agora, que sétimas
componho para circo e pão de minha
vida de antedomingo.
Que quando chove também pingo.

Uma alegria escura – desde que me lembro
de lembrar-me. Quando tudo era coevo
do mesmo corpo que eu habitava,
no próprio tempo habitava
um rapaz do meu nome para
outro futuro, não este.
Mas é este, este.

Defesas-centrais contra a memória,
os olhos pontapeiam, ríspidos, rápidos.
Marilyn Monroe no Niagara,
o velho Popov palhaçando medalhas
de campeão de colheres caindo em malgas
soviéticas.
Mais o corso das estéticas.

Falamos, vivendo, duas línguas
– que é feito, minha Mãe, da tradução?
Distingui-las, sim, eu distingo-as:
como já disse numa gravação.
Os comedores de farinha obedecem ao sábado
das pastelarias. As tardes ’inda são frias,
dias e trabalhos, trabalhos e dias.

E noites. Trabalhos e noites. Luares arrendados
em crochés de secas mãos avoengas,
um vento de tules dançando sem corpo
nas salas de abandonados sanatórios
sonhados pelo terror do menino
incapaz de esquecer em frente, por
mais sétimas.

Mansões bruxuleiam azeites católicos.
Santinhos arrefecidos de encruzilhada
vêem cruzar-se lobos e bandoleiros.
Pés roxos anelam unhas ígneas.
Perde-se a menina mandada a recado
– no bosque ou em Lisboa.
Um rio corre além, trás de seu mesmo esquecimento.



II. Cinco Quintas Memoriais

As mulheres guardavam sabonetes e tranças de mortas
nos roupeiros de pinho envernizado a castanho.
Os sabonetes eram de estrelas-de-cinema.
As tranças eram das mães das mulheres – ou
de alguma filha.

Os rapazes de 14 anos, não tardava, faziam 60.
Subia no frio o algodão tóxico das fábricas.
Estudavam contabilidade à noite com bics
de escrita fina e lápis nº 2 da Viarco.
Tossiam sexualmente filhos muito cedo.

Rubis de plástico adornavam bocas de viola.
Cantava-se um pouco contra a própria vida.
Pintores de paredes garganteavam cerveja
por luxo mandador do dono da obra.
As tranças cheiravam a sabonetes falecidos.

Sobre cómodas e psychés lumbravam retratos
que não lembravam a vida mas o passamento.
Tudo era tão católico, mesmo sem Deus.
O Benfica vigorava, no estio o Verão
ardia de frio, vou ser campeão.

Tenho estas lembranças. E mais, por teatro,
confesso ter nascido só em 64.
Mas a coisa ’inda era: tão triste e tão pura,
que o ontem parece ser coisa futura.
Um homem sozinho, sozinho se atura.



III. Três Tercetos, Não Mais

A boca é uma romã horizontal.
Acontece a grainha morder o fatal.
Fatal não é o involuntário.

Fatal é a escolha que não escolhe.
O mar que te seque, a chuva te não molhe.
A transparência anil do abecedário.

Um homem enxuto, da carne e do osso,
sobe o coração a maçã de pescoço.
A angústia feliz tem escrito muitos versos.

Foto: © Sandra Bernardo, 27 de Março de 2007
Texto: Caramulo, tarde de 31 de Março de 2007

3 comments:

Anonymous said...

Ola, queria dar-lhe os parabens pelo talento. Encontrei o blog quando andava a divagar pela internet, e incrivelmente reconheci o autor! As experiências de vida que absorvi durante aquele estagio em Coimbra foi marcante para mim. Obrigado! Espero sinceramente que esteja tudo a correr bem... e Bom trabalho!... Filipa (a estagiaria do instituto piaget, viseu)

Daniel Abrunheiro said...

Bem-vinda, Filipa.

Paula Raposo said...

Gostei de te ler!