Wednesday, April 11, 2007

Mais Nada - histª 64 do Anoitecer ao Tom Dela




1
O pior que me poderia acontecer, penso eu hoje sem de facto pensar muito nisso, nem foi o que me aconteceu. Quero dizer: não há um único facto que lamente ou de que me arrependa a ponto de o meu equilíbrio mental e de a minha vida física entrarem em rota de colisão. Não. No fundo, a verdade é que me não aconteceu nada. E eu estou vivo. Eu sou vivo.

2
Recordo sem dor quase tudo o que recordo. Até já sou capaz de, a propósito disto ou daquilo, contribuir com a minha própria experiência disfarçada de princípio moral, vinheta de enciclopédia ou anedota-do-português-do-francês-&-do-inglês. Quando se fala de gajas, por exemplo. De gajas ou de empregos – dá o mesmo. Digo eu.

3
Digo eu aquela manhã fria cuja luz parecia a pele das facas, a manhã do dia em que me deram, finalmente, trabalho, foi há dois ou há vinte anos, dá o mesmo. Era para começar logo no dia seguinte, na manhã a seguir. Respondi que sim ao salário mínimo e desandei para o bar das bombas – e no bar das bombas estava aquela a que hoje chamo ainda Joana, mas era Lúcia.

4
Ela tinha, a Joana, um carro cor-de-laranja e baixo como uma salamandra. E falava alto ao balcão repleto de camionistas e de chulos da bola. É claro que tinha atraído as atenções gónadas todas. Pedi uma bifana e um copo de traçado – e fiquei a ouvi-la. Devo ter ouvido com mais olhos do que os outros, porque passado pouco tempo ela já só falava para mim. Penso eu.

5
A maior parte dos gajos era uma maior parte de fato-macaco cinzento com as nódoas de massa consistente e de óleo que fazem parte. Uns com barbas, outros com trinta e tal anos, e todos sem sítio para onde ir. Dava para ouvir a tipa que ali tinha parado, sempre era quase diferente das outras tipas e das outras paragens. Lá fora, as petrolíferas americanas diziam poucas letras mas diziam-nas com muita cor – ao contrário dela, precisamente, que falava a pretibranco mas muito.

6
Vai-não-vai, passou a hora-da-bucha para os mecânicos, ficámos ela e eu e a empregada de balcão. Pedi um café duplo e perguntei-lhe se queria alguma coisa. Queria. Que não podia conduzir em condições por causa do gesso que lhe fazia do pau do braço direito uma espécie de giz para crianças gigantes. E que precisava de alguém que lhe conduzisse a salamandra até à meia-noite. Só não disse que meia-noite de que dia. Eu disse que sim.

7
Era para ir resgatar a filha dela. O tipo que tinha a miúda dela nem era pai da garota. Tinham vivido dois anos juntos, os dois primeiros da vida da filha, logo a seguir ao nascimento da Mónica. Mónica era a filha. O pai-mesmo estava preso e acho que ainda está. Eu não. Estou só vivo.

8
Fizemos cento e oitenta quilómetros a cento e vinte. O tipo e a miúda viviam atrás de outro café de outras bombas. Não estava ninguém na casa, que era um cubo de tijoleiras com janelas de papelão de frigoríficos. Fomos para o café e esperámos. Às seis da tarde, seis e meia, ela pirou-se. Eu fiquei no café das bombas. O tipo vinha beber aqui enquanto ela levava a menina para o carro. Eu saía do café e levava o carro com elas lá dentro.

9
Não houve tempo para nada. O tipo não veio nada beber. Parece que tratava bem da miúda. À volta do emprego e da escola, iam os dois para casa e ficavam lá até que chegasse a mulher que ele tinha arranjado depois da Joana. E ficavam lá os três e eram uma família. Só que a mulher trabalhava no café das bombas e reconheceu a Joana de fotografias e viu logo que era a Lúcia.

10
Parece que o tipo foi avisado a tempo pela mulher, que me deixou sozinho ao balcão e foi a correr para a casa traseira. Quando a Lúcia, por causa dos nervos, começou a bater com o braço de gesso na porta, o tipo já tinha arrecadado a Mónica no quarto da miúda com a mulher, que tinha entrado pelas traseiras. Depois ele matou a Lúcia com um ferro e foi preso na mesma cadeia onde está, acho eu, o pai-mesmo da miúda. A única coisa que aconteceu por causa de mim foi eu, tendo dado boleia à Joana, ter dado boleia à Lúcia. Mas mais nada.



Texto:
Caramulo, tarde de 28 de Fevereiro de 2007
Foto:
Viseu, 4 de Abril de 2007

2 comments:

Paula Raposo said...

Excelente!!!

Amélia said...

Hum... como dizer? Gostei muito. "gostei muito" parece dizer pouco. Mas não. Diz muito.