Wednesday, April 18, 2007

Comoventes Desumanidades - história 74 do Anoitecer ao Tom Dela



1
Esta manhã, o ar era de cera pura. Uma granada de oiro ampliava a luz. Recordei a tarde de anteontem, quando me deitei, ao sol, no banco junto à fonte. O pulmão da fonte cantava espessura transparente. Vi, de baixo, as nuvens desenhando-se umas às outras, muito lânguidas, cheias de uma comovente desumanidade.

2
Esta manhã, estive sozinho perante o parque. Não entrei no parque. Fiquei deste lado da estrada, emprenhando-me de textos rumorosos que depois são animaizinhos larvares, pretos, no papel. Peixes vermelhos num tanque sem dono – estes, por assim dizer, versos.

3
Tinha o coração na garganta. Tinha as pedras subindo do chão – como um nevoeiro de quilogramas. Os pássaros apitavam. Eu tinha uma cauda: de nomes, de noites. Vi a mulher amarela ao balcão da ponte: eu e ela, de olhos fechados. O outro homem, atrás de nós, de olhos abertos.

4
A carroça dos legumes parada em frente ao sanatório. O homem da carroça, de botas castanhas por fora das calças, apeando sacos de cenouras, caixas de couves, batatas, nabos, rabanetes. O encarregado pesando a comida numa balança estragada.

5
Mas havia o oiro – a granada. As horas passavam-se como páginas. Na estação dos Correios, três idosos recebiam a pensão de reforma. Sorriam a amargura dos pedintes. Lá em baixo, na água negra, os peixes vermelhos.

6
Toda a manhã não vi uma criança. Os pássaros desciam pelas pedras que pontuavam o ar. Vinham catar pão à terra, vinham catar larvas e palavras, vinham cantar.

7
À tarde, sentei-me no muro atrás da casa. Passavam na estrada raparigas de boca muito vermelha: como se sangrassem uma papoila pelos dentes, como se falassem de um tanque negro. Era tudo tão terrível quanto a terra ao sol.

8
Este é o tempo em que me vou sentando. Um rasto de homens (e de noites; e de nomes) escurece as folhas escritas pelas árvores. Alguns animais passam, monarquizados pelo silêncio competente dos animais – quando eles parecem pessoas que só pensam e não dizem.

9
Nunca assisti, mas garantem-me que, noutros verões, crianças se descalçavam para afogar os pés muito brancos na água vermelha de peixes negros, em baixo, no tanque. As sombras avolumavam-se nas costas das crianças.

10
Devo ter chegado tarde – devo partir cedo. Não é aqui, ainda, a última fogueira. As manhãs ardem, é certo. É certo que as noites queimam. Os pássaros recolhem os casacos, nem duas palavras dizem à despedida. Se as direi eu? Fecho os olhos – e o dia.

Foto: Pombal, 15 de Abril de 2007
Texto: Caramulo, tarde de 17 de Abril de 2007

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