Monday, March 26, 2007

Um e Dois





1. Do Entardecer da Ambulatória Laranjeira

Estas árvores cravadas na pedra
como nós em nós, na pedra.
Em torno, negócios, homens e mulheres:
tudo fechado.
O ar infestado de narizes.
Botijas de gás e sandes magras.
O século a vibrar como um ferro.
A vida a vibrar como um ferro.
Vitelina pátina, nas casas, a luz:
hoje.
Uma volta pela cidade, pela anestesia.
A mente: a mastigação mineral.

A vida não te escolheu: tu sim, a ela.
Um rio é uma decisão tua.
Ambulatória laranjeira, entardeces.
Desfolhas horas: desflora-las,
de facto.
Em casa apodrece a terra dos vasos,
a paciência, a ex-espera.
O homem por que trocas o rapaz,
a ferramenta que foi apenas mão
– e grácil era ela, e o rapaz.

O cio, o consumo, o carro, o coração:
hit parade quotidiano, avenidacimabaixo.
O inverno ossificado na primavera,
prateada a têmpora da recepcionista.
O homem do cartão, seu carrinho de lata.

O morango do pénis embainhado na terra ácida,
fendida, da mulher solta por quatro horas.
Chamar amor a isso, entre outras coisas.

Não acabaram o décimossegundo,
fazem a caixa hipermercante,
sonham baixinho como rãs
e coçam-se, furtivas, os sutiãs.

O mal da esperança é ser tão moral.

Às vezes, acontece que me telefonam,
vozes cancerigeradas já pelo susto,
análises só terça-feira que vem
– ou não vem.

Eu entretanto.

A árvore funda na pedra,
meu Pai em minha Mãe:
níquel e falópio,
a vida mais seu largo
espectro de acção fungicida.

A percentagem de pescadores afogados por cardume.
Os nossos pés emagrecidos como exiladas mãos.
O sorriso tabágico daquele senhor tão sozinho,
que até lhe dá para sorrir.

E a fundação da música, essa exaltação vital e
matadora, como ainda ontem à tarde,
por uma hora, na minha sala,
sozinho e tabágico.

Atrás da pensão encerrada, os cedros abertos
pelo vento. Quinquilharia de prata
calça de vidro o chão do céu,
esta noite, outra vez.

Além de pedra e árvore,
o vale simultâneo.
Seus cafèzitos rurais,
seus tractores calejados,
suas plantações aboborinas,
sua palha estrumada de
pensativas manadas,
seus mijos de velha,
seus sacudidos leites de motadolescentes,
sua portugalidade inconsequente,
seu calendário terminal.

Quando os versos não interrompem a vida,
acontece por vezes o choupo contra o céu,
tocam as aves suas cassetes voadoras,
a graça toca a duas mãos os ombros de uma pessoa.
Acontece, sim.
Enruga-se de brisa a pele do lago,
uma mansidão aligeira das mulheres
as pestanas
– e quase tudo é possível:
até que voltes.

Não.
Tira-te disso.

Que te baste o casal amigo
que acode à braseira do pátio
com enchidos a rechinar:
sê bem-vindo.

Faz, pois, os versos,
mas não todo te dês tanto a agonias:
longas são as noites e breves os dias.





2. A Bordo do Beagle, sem Deus

Dentro pulsam a perdição e as palavras.
Pátios fogacham, súbitos, clarões tintos
de ouro: e cães, acorrentados sem
culpa formada, dentro pulsam.

É a infância mais seus derredores.
Figueiras tossem pó de prata,
fulguram de acorrentados cães
em baixo, na infância.

Cheguei tarde de mais à mesma idade
desses homens que eram então velhos,
pais que eram, filhos que já não eram,
eu era, mas de mais tarde cheguei.

Agora é isto. Eu agora sei: desliza
do corpo a lágrima óssea, a unha
arqueologiza a mão toda, a mão darwínica
indicando o outrora como agora isto.

Palavras de salvação, também são
Salvas nos dias comezinhos.
Comércio de miudezas e vinhos,
homens sozinhos e graças a Deus.



Foto: Vouzela, noite 24 de Março de 2007
Textos: Caramulo, tarde de 26 de Março de 2007

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