Friday, March 30, 2007

Rimas Doravante Obrigatórias para os Cursos Liceais

I
De em torno a pequena boca da não-nascida
manam breves beijos por dar em flor.
Cuspos não trocados inda molham amor
a ser mantido entre nascituros, se a vida.

Vida não vem maior ou menor do não-feito.
Sacrifício é pedido entre brumas e valetas.
Estéril visão é armação de estetas,
o mais é mais ínvio quão mais direito.

Silentes responsos de sacristão algum
bronzeiam no silêncio a mesma capela.
Está bem, a vida pode até ser bela,
mas seguidos belos dias conheço nenhum

par sequer. Aqui homem, ali mulher,
mais, espectral, a comum avantesma
que quer e manda a vida mesma
contra a parede, quando quer.

De em torno a boca pequena da não-nascida,
beija em flor a morte, a morte-em-vida.



II
Se a nascida estremunha na prima solidão
e o livor da vã casa azula medos vis;
se não despertam os pais, pode a infeliz
pensar que acordar é comum condição.

Não é. Dormir é melhor contra a vida toda,
ela há-de aprender sozinha; as portas
fecham a direito mundo e ruas tortas
– quem no desdisser, quero bem que se foda.

Nascem sozinhas as nascidas, didactas
de si mesmas ao curso de tempo e rios.
Depois vêm nelas curtumes e frios
e cios e frios e rios e datas.

Comum condição: mais cimo o nariz
que a boca repele a provação,
repele a menina e a estremunhação.
É casa por casa, país por país.



III
Cogumela o leite no húmus da mulher.
Mistério nenhum: tudo explicado
pela essência em si mesma esmoler
que explica o trigo, o figo e o fado.

A coisa é assim: borbulha o vulcão
de suspeita parte a baixo a digestão.
Olha, minha filha, que o maganão
do teu pai quis fazer-te um irmão.



IV
O mais constante é preta renda sobre de mulher
branc’arnação. Modelos modelam videotelevisão
como há-de ser, como há-de não ser.
Mas não. Mulher é país, mulher é nação.

Mesmo sem rendas. Mesmo que só blusita
estampe pobreza de cromo de chita.
Nem tem, nunca tem, de ser ’ma bonita
Mulher. Não. Só tem de ser quem um homem fita.

Num baile, por exemplo. Ou um templo
de sé catedral, dia de noivado.
Tocam carrilhões acordes de fado:
a ela contemplas, contemplam, contemplo.

É essa que queres? Tens conversação?
’tão vai tu a ela. Vai, sim. Como não?



V
Babuja, pedra-giz-pomes, a nascida.
A não-nascida guarda sentimento.
Pois que isto é tudo na vida:
ou é por amor, ou é um momento.

Do mais, que não digo, diz a ’xperiência:
’tá feita, ’tá feita - ’gora, paciência.



VI
Um papel torrado é o vidro da janela
da minha casa, cada manhã, cada nova manhã.
Pássaros-cantores jubilam-me de bolhas d’ar
o vidro da janela da minha casa, cada manhã
nova.

Elástico despertar me tira da morte fingida,
levanto-me e penso logo no tão cedo que
viver é sempre.

Descalço, tremulento, já desolado e lento,
acorro à janela pintada de fresco
pelo velho pintor de cedros e pardais:
torra a manhã a partir do frio.

Os casais caiam-se sozinhos ao frio.
Rendilha-se de breve caspa a geada.
Desperto lerdo, perante tanto casario,
sia-me solitária asa cortada.

É bom nascer. Depois, nem tanto:
finanças isto, trabalho aquilo.
Mas também acontece, no entretanto,
Fazer manet’amor c’a vénus-de-milo.

(Se não for verdade a história de cama,
pensa na mãezinha, que muito te ama.)




Caramulo, tarde de 27 de Março de 2007

No comments: