Friday, March 16, 2007

Organização Social e Económica de Portugal – outros aspectos (mas em verso)

I. Comércio

Sem lágrimas me comovo
perante as especiosas miudezas
do comércio.
Os chocolates e as gomas, tudo
muito bem arrumado em caixas
concebidas pelos engenheiros
do consumo.
A pele terrosa do pão exposto
nas cestas.
Dentífricos e lâminas de barbear
vizinhando lápis vermelhos
na montra baixa,
de vidro.
Às vezes, saio de casa só,
só para ver estas coisas
maravilhosas.
Parecem-me ainda brinquedos
– e são brinquedos sempre.
Os pastéis são jóias.
Os sapatos ímpares
anunciam o carácter perneta
do mundo.
Paro sempre perante
uma sapataria.
E nunca perco um mercado
de peixe.
São os poemas do mar:
falam-me da vida e da morte,
da velocidade e da agonia,
do espanto e do segredo,
do tesouro e da aventura,
os peixes.
Se um merceeiro pendura
à porta
a carne salgada e fumada,
eu paro sem poder não
parar,
como quando
escrevo.
As conservas enlatadas
são milagres da compartimentação
e do génio.
Se eu pudesse arrumar os
meus versos
como as mulheres
das conserveiras arrumam as
anchovas e as cavalinhas,
a minha vida
reorganizar-se-ia
como
uma rosa
organiza
cada manhã.
Podemos amar sem desespero
estas coisas.
A garrafa vestida de prata
onde o ponche dorme suas
mil-e-uma-noites.
O coral escarchado da
garrafa de anis.
Uma ampola de menta
verdejando como certos
peitos de pássaros, incertos
olhos de mulheres.
Uma peça inteira de
fiambre
acontece toda ao mesmo tempo
como um quilo de luz.
Na boca do bacalhau
aquele
bâton de sal
que só apetece
beijar.
A fortuna amealhada,
grão a grão,
numa saca-serapilheira
de café.
Os televisores novos e
muitos,
como o futuro.
O bazar, onde
os índios e os ursos
não serão
exterminados.
O homem do tabuleiro,
com elásticos e chitas
para as senhoras,
chás e sabões
para os idosos,
cromos e berlindes
para mim.
O homem da bolacha americana,
baunilhando a asma
do mar
e
marejando-me,
finalmente,
os olhos.



II. Cidade

Salões de cabeleireiro
e do Reino de Deus
fogacham néon,
expostas as cabeças decepadas.

Paredes negras
descem do céu baixo,
trepados por inversos
ratos e cartazes de bailes.

Também o nosso olhar
é um prospecto,
mas sem data
nem hora.

Plátanos áleam,
no parque,
alamedas
de almas.

Um maneta assa
frangos vivos
num pátio
azulejado.

O comboio suburbano
chega carregado
de peixeiras
e albatrozes.

De azul aleijado
é
a alba
atroz.

Não vou
encontrar-te na
nossa cidade,
eu sei.

Uma pomada negra
à base de prata
fazia esta farmácia.
Chamava à flor das unhas o pus.

Não reverás
as ancas de viola
desta senhorita
nadelgaçada.

Não é já a dor.
Nem o dia.
Nem a noite.
Nem a anestesia.

É um ambulatório lembrar.
Uma sanguínea condição.
Um consultório p’r’arrendar.
Uma ígnea lembração.

Vai indo à frente.
A alma na boca,
seguir-te-ei
pela nossa cidade.

Tão à frente,
não.



III. Indústria

Faziam bolachas e cerveja e filhos
antes de,
de tudo,
terem sido despedidos.
São os capitães e as duquesas
da minha febril
infância
fabril.
Eram torneiros,
pintores,
serralheiros,
senhores.
Eram costureiras,
carregadoras,
bolacheiras,
senhoras.
Pasto ainda
(pastarei sempre)
esta erva
humana.
De nada me adiantou
ter-me afastado
duzentos metros,
vinte anos.
Compravam
feijão ao litro,
detergentes
que eram
pó azul
como, ao litro,
a chuva de Junho.
Conversavam nos pátios,
quando o dia
cedia
à Lua
a falua.
Subúrbios e murmúrios.
Telúricos e barbitúricos.
Pensativas reses
aos pés de um monte.
Um açougue de sonhos.
Comedores de pombos e pardais
e batatas.
Jardins de panasco requeimado.
Colectores de agrião da vala,
do espargo de Deus,
do caracol pluvial,
da silvestre amora.
Os meus operários criam
que os músicos filarmónicos
eram hologramas de altar.
Que as saias folclóricas
eram cortinados das conas.
Aos domingos,
um transístor
sportingava
a companhia da união fabril.
A chita ondulava as raparigas.
À segunda-feira,
chovia sempre.
O chumbo dobradiçava
as horas,
à segunda-feira.
Os operários
e
as operárias
desciam a rua,
subiam às fábricas,
não sabiam
que chegariam
à porra
de um poema.



IV. Fé

Não creio em Deus
e sou retribuído
pelos homens.
Creio na poesia,
que não
em poetas.
Já esperei,
mas deixei-
-me disso.



V. Serviço

Não me peças nada
porque nunca dei nada
senão flores.
Trabalhei,
como todos os homens,
em camionagem
e limpeza de
costas.
Mais não tenho.
Vou-me chegando
ao lar,
a assar
sardinhas
de pau.



VI. Escola

Thomas Bernhard, escritor cáustico-austríaco (193-1989). Fumigou o piolho católico e o percevejo nazi. E o percevejo católico e o piolho nazi.
Teixeira de Pascoaes (1877-1952 e alguns livros).
Mais João de Deus, Adelino Veiga, Tony Weare e Maria Alberta Meneres.



VII. Gente

Alguns homens são por vezes homens nenhuns.
À mesma vida roubam dignidade.
Tais não cidadaniam a cidade.
Por tal, não são jamais homens alguns.

Mais que outras, ele há certas crianças
que no jardim se perdem de lembranças.
Se breve o nascimento, como é possível
que morrer se torne verosímil?

Mulheres, às tantas, não existem
senão em filme, fotografia.
À mesma invocação resistem.
Foram-se à noite. Faltam de dia.

Quero ser velho, um só mais um.
Mas não, de todo, ser só ninguém.
Diga quem veja: olha um algum
filho de pai e pai d’alguém.



VIII. Praia

Todos vivemos na praia.
Existimos só, fora dela.
Olha um rabo-de-saia
e uma camisa amarela.

Séc’lo tal, Descobrimentos.
Pimenta e cafres, Nosso Senhor
e coisital e cofres e pimentos.
E Nª Senhora e Nº Senhor.

Portugal não é praia.
É maré negra.



IX. Engenharia

Os nossos jovens são hoje informatizados
como convém às leis-stations
que ninguém consola.
O resto é tinto e instinto.
E pontapé na bola.



X. Futuro

Caixeiras de hipermercados com anemia
e filhos adiposos, cardosos ou garcia.
Ciganos cassetando música cigana
que o sol aquece e o vento abana.
De cardioplastias, tias e cardeais,
teremos ao cento, milheiro ou mais.
Só putas brasileiras, catorze na Covilhã.
E mais outras tantas no Maracanã.
Que putas de cá, nós nunca tivemos
– pois nascemos delas e mães as dissemos.
Não creio ficar mais que o bastante,
devo na farmácia e no restaurante.
D. Afonso Henriques, Globalização?
Marrar c’um caralho, país dum cabrão.



XI. Mãe

E no entanto, Mãe, só entretanto
me é possível ser companheiro
do Grande Susto de Viver.
Sombras frias humedecem o jardim
que sobe sua mesma cor.
Os cães são cor-de-palha,
ardem sozinhos.
Também as pernas que abriste,
abriste-as à combustão espontânea
de um português aterrorizado
de ter nascido,
aqui como além.
E no entanto, Mãe.




Caramulo, noite de 15 de Março de 2007

4 comments:

Anonymous said...

ok

caldento said...

Assento:
primeiro, não há nada melhor do que tu;
segundo, que coisa inacreditável que tenhas vindo parar ao mesmo planeta que eu;
terceiro: calô.

Afectos said...

verdade. mas nem todos os dias verdade. até dias verdades. até dias diferentes para quem quer.em verdade.

Manuel da Mata said...

Hoje li com atenção e gostei.