Thursday, March 15, 2007

Dois Sonetólicos e Mais Esta




Sonetólicos
I
Como nem tudo pode ser sexo,
permite-me um pouco de amor.
Aceita de mim nem que seja
uma base de cerveja, por favor.
Vezes há que venho só por vir
na busca surda de falatório.
A Lua monta o promontório,
além o mar e o porvir.
Nem sempre ele é toalhetes
ou investidas da rija carnação.
Também a alma tem verdetes,
que é da humidificação.
O mais são culpas e desculpas,
próprias da catolicização.
II
Becos e vielas regredimos
em repressão de horas mortas.
Polícias mortos agredimos:
mas com que facas é que cortas?
Fados caniches nós canichamos,
leopardamos gatos magrinhos.
Eu fixo coisas que olvidamos,
como santinhas e santinhos.
Não têm conta as noites brancas,
claras manhãs não contam, não.
Que uma coisa é perdição
e outra são as mulas mancas.
Levando o Papabsolvição
ao burro para cobrição.
Mais Esta
Todo o dia existi.
Fui descoberto pela aurora.
A luz tocava árvores como a carrilhões.
Andei pela selva e vi gente.
Toquei a terra com memória marinha.
Perante um filme erótico, troquei a cara do fulano pela de um tipo que conheço. Fiz o mesmo à outra parte. Depois, lavei-me dessa turvação.
Frequentei a memória de dois homens: um foi português, o outro era austríaco. Estreei um caderno enquanto sou.
Recordei casamentos e funerais. Quase duvidei do futuro de certas recordações.
Telefonei, recebi telefonemas.
Vi uma mulher limpando uma casa. Recebi da lavandaria o meu outro casaco.
Primeiro de manhã, à noite depois, na calçada em frente à sapataria, vi como a luz tornava espelhos as pedras cegas.
Vi um rosto maravilhoso, fotografado.
À noite, estava de novo salvo pela língua. Sim, a língua das vozes que querem tornar-se vozes escritas. Esta é uma delas.
Todo o dia resisti.
Não mais.
Foto e textos: Caramulo, noite de 14 de Março de 2007

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