Tuesday, December 19, 2006

Incisões Plurívocas – um Decálogo Onomástico

1 – Margarida, Tarde na Noite

Chegaste tarde a ti mesma, e agora.
Desnecessita a cidade de tua única magia
– a dactilografia.
Tens o chapéu em o lugar da cabeça,
o único saia-casaco já ténue,
mais vezes vem o inverno que o futuro.
Margarida, Margarida – amarga ferida.
À noite, sais do quartinho para uma chávena.
Viras costas à montra, a rua assobia de
homens casados.
Consultas o açúcar estilhaçado com a colherinha
digital.
Antes que a unha se parta, rói-la.



2 – Mário, Dormindo

Um herbário de sonos – consequência
de dormires como uma árvore cortada.



3 – Demétrio Comprando Cigarros

Podes tão depressa ser letão quão escocês.
Suíças ruivas nascem-te do nada e trepam-te
à cabeça batida pela violência do exílio
económico.
Não percebes o idioma da nossa chuva.
Percebo-te eu, quando me pedes
que te venda uma
paqueta de cigarretas.
Pedreiro és, mas dormes
num quartinho de dactilógrafa
que de menino foi.
Lá longe, deixaste
igual a isto.
De modo que Nietzsche diminuído
e revisto.



4 – Luísa Vendo se Chove

Não chove.



5 – Prazeres, Envelhecida, na Saleta


Repes e porcelana que o Tempo torna papel.
Mijos antigos de inumeráveis idos gatos.
Fotografias que atingiram,
graças a Deus,
o anonimato das molduras.
Algum ouro arrecadado em panelas.
Sopa e fraldas das senhoras da Assistência.
A televisão no volume máximo,
sem som.



6 – Daniel, Só com uma Mão

Aprendeste meia dúzia de coisas.
Sobra-te portanto uma sempre,
sempre que os dedos de uma só mão
abres.



7– Anónimo, Vulgar

Obituas a anulação da distância
entre gesto e objecto.
A mão que a si mesma leva
ao frasco de tinta,
por exemplo,
não leva já:
já está lá.
Quem te revisite a oficina,
lembro e digo,
há-de exumar os gatos fossilizados
na parede sáfara, a sombra
do forno apagado,
os inúmeros sapatos,
como a vida,
sem par.
Não só isto.
Pintas para lá da janela: onde
a oliveira, senhoril senhoria de pássaros, é
gestobjecto dela mesma.
Pintor, pintor: mais do que o
traço de lápis me
interessa a
almofada da mão.
Um óbito é uma oliveira:
frufra-o a passarada
pintada.
Descia um céu de biblioteca,
já cá nos morava antes
de descer.
Subias os olhos ao chão, habitando-o
já, eu sei.
Sei meia dúzia de coisas.



8 – Jaime MorresFilho (fado corrido menor ou tim-terlim-tiritintintim)

Os travões não funcionam.
Vale que é tudo a subir.
A puta que vos parir,
ó almas que tant’ enconam.

Frase prima. E variações.
Saia um filtro mentolado.
Chup’ até cair de lado.
Ganga justa nos colhões.

Fidebéque e fideputa,
d’almirante o foi tamãe.
Santiago do Cacém,
post’ 1X ouvér e’ scuta.

Ó maçã engarrafada,
Cidra t’ eu hei-d’ espumar:
na noite desconsoada
eu não vim para ficar.

Já tenho a Pamel’ ao lume
e a banheira preparada:
História de Franç’ ilustrada
mailo Marat do costume.

(fecha com mi de 7ª e lá menor, as cordas todas, de cima para baixo, peremptoriamente)



9 – Serafim e as Boas Almas

Nutres, com indesmentível amor às cores,
os pássaros presos. Tu mesmo foste
engaiolado de pequenino na orfandade,
talvez também por isso.
Pedes-me um livro emprestado.
E eu não to empresto, escrevo-to.



10 – João André e as Capitais da Europa

És a criança sentada no banquinho.
O teu quarto será quartinho
de renda
para dactilógrafas e letões,
ou escoceses.
Mas deixa-te estar por agora,
folheia por enquanto a enciclopédia,
ainda é cedo.






Caramulo, noite de 17 e tarde de 18 de Dezembro de 2006







No comments: