Thursday, December 28, 2006

Canção de Coimbra – IV

Os pássaros mais portugueses do mundo
habitam os céus de Coimbra, não outros.
Disto queria falar-te – e assim farei.
Trata-se de, praticamente, tudo quanto sei.
5 Os telhados são comoventes como lábios
vermelhos de amadas raparigas,
fugazmente amadas e vermelhas.
As casas tapumam humidades e
bolores matrimoniais, atenta a decência.
10 Perversas gatas persas perseguem
os meus pássaros da minha cidade.
Trata-se de um ódio antigo, livresco,
inegociável, plumífero, plumitivo,
primitivo, privativo, asa-bigode.
15 Vejo que tudo voa. Como rápidas nuvens,
como rápidas nuvens de acelerado filme.
Como avariada imagem de televisão,
assim a água do rio: pontuada
de almas-tempos, de peixitos
20 inofensivos e castanhos como pardais.
Digo mais.
Digo a devoração.
Velhas mijam-se pernas a baixo,
ouro ureico que mana de onde,
25 dantes, clara de ovo, desejo e
leite cabeceador.
Velhos municipalizados espumam roxuras,
comentam a angústia do Belenenses,
são atropelados no
30 Largo da Inquisição
por um carro vascular,
cerebral.
Tudo é o mais português Portugal,
na cidade minha.
35 Dentro da caixinha,
a bailarina dança de plástico
a balada do piano de lâminas.
Ao lado, rodando mudo, o noivo
dela oferece-lhe a jóia de seu
40 coração de baquelite,
Olha, tem cuidado com a baquelite.
O senhor Peres consertava relógios:
contra si mesmo trabalhava,
posto que o matou o Tempo
45 sem conserto.
Com uma dignidade inacessível ao
mais catedrático dos doutores,
o senhor Damião d’A Brasileira
trazia o tabuleiro de madeira
50 para rectângulo de bife e mordomia.
Nunca mais se fez dia.
Digo.
Laranjas e frio.
Aquela manhã em que nevou em Coimbra.
55 Februária alegria, 11, 1983.
Branco: tudo branco, sobretudo o
negro pessoal das oliveiras,
o lábio vermelho das raparigas-
-casas.
60 Nevo lembrando.
Espera ainda um pouco.
Deixa que se reúnam os operários
em torno de um manjar de peixe
do rio.
65 Os mesmos – é verdade – que encebolavam
Pardais.
Isso, ao contrário da Guerra Junqueiro,
posso perdoar.
Tinham poucas saídas.
70 Toda a gente.
Ninguém tinha saída, mas era.
A vida não era arcangélica.
A vida não era para repetir.
A vida não era para dizer.
75 E a morte era para ouvir.
Fazíamos papagaios de papel-de-seda,
ao longitudinal rachávamos as canas,
farinha-cola unia o voo português
de nossos brinquedos depois tristes.
80 Da boca das mães mamávamos
a baba nutriente,
naquele tempo ter
quarenta anos era ser tão velho
como a Bíblia.
85 Ainda podes,
naquele tempo,
não ir para a cidade.
Ainda podes
viver aqui,
90 morrer aqui.
O meu peito fala no frio:
a poesia despe.
A minha boca é gráfica.
O meu sexo funciona.
95 O meu estômago sabe a cal,
sob o sol, na ardência de giz
de uma noite mais,
ao frio.
Li sobre a Noruega,
100 empunhei o humilde tremoço,
salões de chá não me são estranhos.
Pés são livros de carne para
ler em braille:
cuida devagar da tua mulher,
105 esse pássaro fendido
pela prestação do sangue,
esse peixe enlatado
pela religião.
Mapas de sangue luminoso
110 como artérias siderais
vistas de baixo pelos pássaros:
os lembrados humanos.
Seus dias, seus anos.
Compulsiva convulsão:
115 a poesia engendra enredos,
não deixa cair, suporta
a cidade.
Por falar nela:
seu cabisbaixo Choupal,
120 território de ciganos
e jogginggays.
Rapazes envelhecidos pinchando
borracha contra um muro de
canas-da-índia.
125 Três homens batendo passadas graves,
raparigas folheando pastéis de massa tenra,
cães mínimos respirando o mesmo ar.
António Sérgio dois anos antes
da neve – nem tanto,
130 ano e coisa.
Floresci sozinho e em casa.
Europa-América e Pedrulha:
todo o mundo.
No ano de António Sérgio (ed. Sá Moraes, capas
135 castanhas como pardais) e do pardal assassinado,
subi ao Clúbio.
Era para dançar e para saber.
O sexo latejava como vinagre na boca.
O melhor (o único) par de calças de ganga:
140 marca Lord John.
Não: marca Spencer & Jones, ou
como é que era.
A entrega – foi aí.
O coração era usado como uma granada de vidro.
145 Luzes, bilhete e corpos ficavam
cheios de sangue, de ninfa-linfa,
de Duran Duran.
E de Kool & The Gang,
não sei se
150 já vos falei nisso.
Zundapavam os rapazes-operários,
tinham desistido dos estudos.
Coxeavam de gema de ovo
as férteis raparigas do meu tempo,
155 tinham desistido dos estudos.
Eu meti-me com
Corrado Alvaro e Leonardo Sciascia:
devo ter perdido o baile,
Mãe: “On n’est pas sérieux quand on a 17 ans…”
160 Devo ter perdido alguma coisa.
Devo ter-me perdido de alguma coisa.
Calma.
Alma.
E substância. Há mais música.
165 E a música soa, sua, deles, minha.
Noite e dia – um ao outro fazia.
Continuaram assim.
Massas de carne e osso volumaram
entregas de leite ósseo, tutano de alma,
170 não, teca-teca, agora,
calma.
Não percas nada.
Não à bala na cabeça.
Não à cabeça na bala.
175 Vale mais suportar
– um comportamento, que
ele há ainda delícias.
Mas as primícias.
Mas a massa tenra.
180 Mas devagar.
Meu Pai ficou sem escola
na República inicial.
Cagava de jacto, e de facto, ameixas verdes.
Corria.
185 E vivia.
Faz toda a diferença, dizer.
Faz toda a diferença, dizer
que vivia.
Não o faz hoje.
190 É um de muitos.
Perdeu ser único.
Meus pais são todos os mortos.
Todos os pombos coxos.
Todos os pombos tortos.
195 Todos os santos roxos e absortos.
Devagar (calma!), recompõe-se
a única qualidade da vida,
cuja é tão filha quão puta –
a memória.
200 E seus lápis de cor.
Molha de lápis tuas noites
como uma pluvial lua.
Respeita teus pássaros.
E, olha,
205 aceita o gato, a persa
perversa perseguidora fêmea matadora.
Nasce, depois, outra varã.
Nunca mais foi dia,
nem manhã.
210 Foi ela.
Poderosa, talca, oleaginosa,
coruscante, viva, maravilhosa:
como desenhos a carvão em
perna de gesso.
215 “A primeira coisa que desenhei,
filho, foi um incêndio.”
Como?
“Um incêndio. Na
minha perna de gesso.”
220 Foda-se.
Foda-se!
Era ele,
gerador de descentes (descendentes)
de
225 alexandres herculanos,
árabes passadas de ouvidor
de músicas sem claves (mas mão esquerda, fá;
mas mão direita, sol)
de piano.
230 Peço perdão de me lembrar tanto.
Sei que respeito, amando afinal,
minha cidade,
seus adelinoveigaspais.
E digo mais.
235 Digo Portugal.
Digo Coimbra.
Suas putas tristes como a
puteza
e como a
tristeza.
240 Sou finalmente, digo eu,
(tantos versos não chegam),
que sou homem
de memória de homem.
245 Filhas?
Sim, bem feitas.
Os olhos no tecto.
Os pássaros portugueses, no tecto,
completamente nacionais.
250 Queres tu que te diga mais?


Nota: a citação do verso 159 é de Rimbaud, tal como ouvi em Léo Ferré




Caramulo, tarde de 23 de Dezembro de 2006

5 comments:

Fanette said...

Dificuldade temporária no post? Eu peço "bis".

mao morto said...

Daniel, posso fazer uma referência - com link - ao Canil no M. Pernilla?

daniel abrunheiro said...

claro que sim. eu já tenho a pernilla nos favoritos. diz à malta.

JP Gonçalves said...

Havemos de conseguir

Paulo G. Trilho Prudencio said...

Que diga mais? Oh Daniel, assim de repente, olha, um belo ano: ou melhor, dias e mais dias com um sorriso nos lábios. Apenas isso.