Tuesday, December 26, 2006

Canção de Coimbra - II

Outro dia. Mesmo lápis.
A noite perdoou-me tanta memória.
O problema é o dia novo, o velho
lápis. Sábados à tarde, ela,
5 na Guerra Junqueiro.
“Éramos tão novos, largávamos a
Imaginação.”
Mas não o desejava eu saber,
se depois viria ela
10 a ser minha mulher,
ou eu homem dela.
Sei – sei e não faço
como a noite: perdoar.
De muito te vale. Disto:
15 de nada.
Sobrevivi, os olhos no tecto.
Minha Mãe ardia de febre
no hospital.
Ásperos lhe eram os lençóis,
20 a de tule viuvez esgazeada.
As glândulas, degredadas,
degradadas, segregando
segredos, licença, pus e lágrimas.
O medo da morte alheia,
25 tão próxima que própria.
E a música sempre: tão própria sempre
como a morte (Conan Doyle,
Simenon, Agatha e Alberto Moravia).
Por minha conta, entrei em
30 Corrado Alvaro e Leonardo Sciascia.
Entrei tanto, que ainda hoje
me dá trabalho
sair.
A luz tinha um coração dominical:
35 que pulsava, fresco, na sombra
intestina das igrejas.
Saiam mais catorze cervejas:
meu Pai acordava tão cedo,
que nem noite tinha vindo ainda:
40 perdido, partido boneco.
Um rasto de crianças sobra dele.
E centenas de versos.
Quando havia ainda confeitarias,
o mercado ululava de hortaliças,
45 verdes eram tão as manhãs como as
couves.
Floria, pesponto de amarelo, o honesto
grelo.
A prata chamava-se peixe – e
50 pulsava os assassínios marítimos,
sábado de manhã,
Com minha Mãe:
D. Pedro V.
Do outro lado, a antiga Brotero,
55 depois (agora) Jaime Cortesão,
as leituras nocturnas,
o susto de não saber.
Nós crescemos e não somos mais altos.
Nós comportamo-nos: nós suportamos.
60 Torna-se pedra o que madeira foi.
Vinhas geológicas dão um vinho sensato.
Bélgica mártir na I Grande Guerra.
Varrida de vereações, a estátua a Camões
passeia pela cidade exilada, exilada.
65 Ainda não era o meu tempo
e
já não era o meu tempo.
Começaram a casar-se e a morrer.
Filhos nasciam entre funerais.
70 Tenho fotografias evidentes.
Mandei por carta o meu amor
– mas havia greve dos Correios.
Amei sempre contra mim
– e contra a minha cidade.
75 Se eu começasse agora.
Se começássemos todos agora.
Café do Infante,
Pastelaria Marques.
Quiosque da Sereia.
80 Café Atenas.
Feira do Espírito Santo.
Vale de Canas e fodas.
São Romão.
Roxo.
85 Eiras.
Pedrulha.
Adémia.
Fornos.
Tovim.
90 Celas.
Universidade e S. José.
Lenta demora rápida:
meu cérebro congeminando contra
meu coração.
95 Meu Pai contra minha Mãe.
Minha filha contra minha filha.
Meu mesmo sangue básico
contra seu mesmo saneamento.
Outra noite. Mesmo lápis.
100 A mesma ferida.
Uma solidão grená,
hepática.
Falo-te de quando,
pela de Montarroio acima,
105 ia às sapatilhas de marca.
Depois, em 1981, os oito
volumes de Ensaios
de António Sérgio.
Na Finisterra, por seiscentos paus,
110 a Prosa do Observatório
de Julio Cortázar.
Tanta generosidade, a desse
velho transparente que comigo
seguia pensando no outro, no que
115 desceria, pela última vez,
a Alexandre Herculano,
caminho da Antero de Quental,
210.
O coração do transparente
120 era móvel e belo e desolado.
Como o Pólo Sul.
Está na terra, a sul do sol,
agora.
Eu conservo-o quente,
125 abafado em neve
Agora, saio.
Bordo o paredão da Penitenciária.
Não longe, o Botânico entristece
em latim araucário.
130 Um cãozito preto,
gordo como um ovo,
corre-me aos pés,
bêbedo dos odores da flora.
Rua dos Combatentes a baixo,
135 caminho do Safari.
Depois, a dos Navegadores em
cotovelo com a de Moçambique:
leite e bolachas e sangue e carne.
Tanta ilustração, tanta futura
140 derrota.
Não amo, mas estou vivo:
nesse cotovelo, nessa barriga,
nesse dia em que a Académica
dá três ao Vizela.
145 Nuvens rápidas omoletam o sol,
funcho escarcha anis,
os beiços bordados de açúcar,
a suave embriaguez de
fim de tarde,
150 perante Santa Cruz.
Luz, anis, Cruz.
Lágrimas, licença e pus.
Era no Café da Alexandrina,
depois Carocha, hoje João Brasileiro,
155 que Adelino Veiga e os outros
tantos ancestrais de meu Pai
reuniam a voz associativoperária.
Morriam novos, uma flor de rubra espuma
na boca tísica.
160 Em 1920, o Caramulo nasceria
para enxugar o sangue
dessas bocas temporãs
anzoladas pela morte,
a transparência, a última aceitação.
165 Vivo dessas ruínas.
Ainda estou no Pratas
(sandes de cavalas e tinturas):
só depois desço a
Couraça de Lisboa
170 para receber,
merecidamente,
em plena face,
o bofetão de oiro
do sol no rio.
175 Laranjais auríferos, de lá.
A Machadinha, as Lajes e
Santa Clara.
O meu coração estilhaçado
na cidade de granadas de vidro.
180 O meu puro amor à
quietude dos anos que
não pude viver por
falta de corpo.
Pois que muito cedo
185 me começou tudo a ser
Não é mau nem bom:
mas apenas um modo de
vida.
Vocação.
190 Eu também sou
um homem na cidade.
Eu posso.
Eu também comi frango na
Rua do Sargento-Mor.
195 Couracei-me de letras
perante os senhores
Damião, Fernando, Pedro, Luís,
n’ A Brasileira.
Depois
200 comecei tornando-me
antes.
O coração tinha uma luz dominical:
pulsava, quente, nas noites,
altas como igrejas.
205 Em Julho de 1984, o
meu peito foi verde
contra a terra:
de febra fervia, forte
e entregue.
210 O homem da sapataria
contava-me novidades
tiradas todas
do Correio da Manhã,
pela tarde.
215 Socorriam-se mutuamente,
desde Adelino Veiga,
os artistas.
Entrei no sol, toquei a glória,
gostei de recompor
220 a II Grande Guerra
no mofo claustral
da Biblioteca Municipal,
frente à Polícia.
Se a isto volto,
225 é para que, revivendo, viva.
Crianças nascem, põem-se à espera: seu pensamento é
lacrado e feroz – e inexorável.
Homens morrem, depõem-se a si mesmos como a
estátua a Camões – e, como ela, demovem-se (exilados,
230 exilados) por toda a cidade.
A minha cidade.
A minha estatuária.
A minha mente quente e vária, ao frio exposta
(duas pedras de gelo,
235 uma para o cérebro, outra para o coração).
O rapaz corre ainda o seu monte privado,
colhe ainda os espargos, saúda sob os cedros, ainda,
a fria fartura das cheias do Bolão.
Cidreira e Geria, a mãe da Anabela assassinada por um
240 carro, esse beijo morno e terrífico
na bochecha da menina tão
inteligente.
Voltarei sempre, como faz, aliás,
meu Pai e o outro que desce,
245 caminho da Antero de Quental, 210,
a Alexandre Herculano.
O céu da noite,
arvorenatalizado,
musga frio,
250 afinal amo – e vivo, afinal.



Caramulo, tarde de 21 e noite de 22 de Dezembro de 2006

4 comments:

Paula Raposo said...

'Afinal'. Não vivi essas memórias. Beijos.

Jaime Castanho said...

Ganda Cão, adorei esta merda

S. said...

Ganda Cão, adorei esta merda

Jaime Castanho
www.tapornumporco.blogspot.com

Fanette said...

Triste e sobretudo alegre acabamos por amar o que vivemos. É a nossa história. O nosso mapa.