Wednesday, August 16, 2006

Valsa Inexistente e outros Sapateados

1. Valsa Inexistente (mas em 3/4 real)

Delicada senhorinha
dança uma valsa por mim
não existes coitadinha
danç'a valsa mesm'assim

(subida de voz para terceira do acorde, naturalmente menor)

Glória aos tristes profanos
glóri'a quem nos troca o passo
embaraço desenganos
tantos anos valsas faço

(e agora em jeito de dolência coimbrã, mas não abusando)

Eu vi nascer uma roda de meninos
entristecer
dobram por mim esses sinos (bis)

(a seguir, idem, mas mais descritivo; ternário sempre, atenção!)

Aonde foi a mocinha
que frutos deu co'a idade?
perdeu ganhou coitadinha
é presa ou em liberdade?

(com falso júbilo; não há que enganar)

Hei-de lembrar
ai com quem nunca dormi
hei-d' acordar
se me lembrar é de ti

(e zinga para instrumental de resumo e saída; se houver fagote, não prejudica, antes pelo contrário; na dúvida, sax barítono; na falta de cacau, nenhum)

Vai valsa sai
do meu peito que eu não sei
valsar valsai
valsar eu nunca sei valsei.

(E pronto. Bufete.)





2. Sim, Carolina
(ou Relatório de Agente de Polícia sem Grandes Estudos mas com Sobrinho à Mão)




Ele disse que os outros se meteram por ali mas eu não pude apurar se se tratava dela ou de sítio, o ali. Efectivamente, há maneiras de falar, vai do dizer, só sei que fui o primeiro a chegar à ocorrência, não tenho sorte nenhuma. E se isto não está pior de ortografia, sintagma ou paradigma, é porque levei o carago do formulário do carago do relatório para casa da minha irmã, onde o meu sobrinho está na faculdade de português e não chumbou e não é nenhuma merda como o tio, enfim, mas também não estou a ver o qu'é qu'á-de ser dele, dar aulas. De qualquer maneira, esperei ali um bocado e depois de vir o arvorado Garcia agarrámo-zios.




3. Derrapagens Ainda não Mortais


Eu dantes podia ir aos morangos
não fui mas tinha tempo
agora tenho tempo na mesma
mas não vou porque
mudaram pa' Espanha os morangos.

Puseram uma cabina telefónica
à frente da pensão pós ucranianos
telefonarem pó brasil lá deles.
Eu estou à janelita e vejo:
parecem surdos-mudos, não
percebo nada de línguas.

Eu acordei mas tinha o sonho
agarrado nas unhas e disse-l'assim
- Ó sonho, vai pó carago, pá,
vai pó carago, ó sonho!





4. Ou Então Não


Se a rapariga da livraria
do outro lado da rua
do Big Sleep tiver desistido
do Marlowe,
eu estou aqui.

Quero lá saber de 1860,
quero lá saber do Ben-Hur.
Primeira edição, sou eu.






5. Escrevo porque espero que chova


O título deste poema já disse o que tinha a dizer.









Caramulo, tarde de 9 de Agosto de 2006

1 comment:

Paula Raposo said...

Não sei nada de música para valsar nesse som! Mas mesmo só lido, está genial! Gostei do 'agarrámo-zios'.....Tudo excelente.