Wednesday, August 09, 2006

Razão

Ter razão em companhia interessa pouco.
Muda-se, na verdade, alguma coisa:
o preservativo moral, o circo lésbico,
a rua de não-fumadores e o
hamburguer vegetariano.
Ter razão sozinho chama-se loucura.
Há médicos e farmacêuticos para isso:
contra isso.
Não estou aqui a elogiar a loucura.
Pago os meus impostos.
Percebo que as primeiras páginas
dos jornais remetem
para caixas interiores:
assim também procedem o sol e a chuva,
índices de
melancolia
ou
euforia,
cá dentro.
Não tem mal.
Aprendi que a eternidade provém da
repetição cíclica.
A Primavera é a próxima primavera
anterior.
Outono, Verão, Inverno:
outono, verão, inverno.
Leite do homem, ovo da mulher.
Comichão da gata, moscas da leoa.
Isto não é difícil: gata em casa e em casa
a televisão (única maneira de ter leoas em casa),
onde a leoa repete a gata,
as moscas.
Socializa com uma nota de banco.
Aparece com um carro novo.
Com duas larachas in,
não estarás out nem serás
posto knock-out.
Saber um bocado de americano
integra-te na razão colectiva.
Farás bem, barbarizando.
Imagina que o Outono regressa,
naturalmente amanhã,
já.
Piscam na vila as montras do comércio,
o conforto electrodoméstico garante
a inexistência de bombistas-suicidas.
O Cristo da prateleira joga ao trapézio,
ginasta de ilustração para ilustração
de almas artríticas.
Duas mulheres combinam entre si
o transporte (a remoção) de um corpo
chamado pai
por uma
e homem
por outra.
É preciso alimentá-lo, lavar-lhe as
cagadas, trazê-lo ao sol
(euforia)
ou
arredar-lhe a cadeira
das rodas da chuva
(melancolia).
O homem só sorri
e diz
bons-dias, boas-tardes e
boa-noite.
O homem singulariza a noite.
Percebe, o velho.
Manhãs e tardes são plurais
razões colectivas.
A noite é sozinha em
sua razão.
Sua, não. Dele.
Dele, não. Minha.




Caramulo, tardia manhã de 9 de Agosto de 2006

3 comments:

riacho said...

Tem a razão para lhe fazer companhia na noite.

Uma delícia ler-te :-) como sempre.

Paula Raposo said...

Não, não é loucura. Título adequado. Gostei.

Fanette said...

Tens razão. As pessoas são únicas e as qualidades também.