Tuesday, August 01, 2006

Para Acabar de Vez com tal Julho

1. Biblioteca

Não chegarei a tempo de tocar, vivo,
a tua mão viva.
Não refarei qualquer amor.
Todo o palhaço é ridículo com a repetição
da anedota.
Da lira que a tua mão é,
não me voltará o coração a ser
caixa de ressonância.
Tenho tido uma vida longa.
Sentirei, breve, a morte.
Dizem que é dos livros.



2. Por

Olha, passam no ar meninas.
Olha, quem atirou estas laranjas?
Sumossanguíneas, voadoras: meninas
tangerinas, cabelitos, franjas.

Criancitas, ossos tenros.
A gente agora é pai delas.
Um dia, talvez, teremos genros.
Se estamos vivos, é por elas.



3. Dicção

Carne verde veste ossos brancos,
assim os homens.
Tules azuis esvoaçam raparigas,
assim elas.
Fios de água correm o Verão.
As mães doentes telefonam,
incomodam o quotidiano.
A conjuntura internacional abre brechas
à bomba.
Sinais-rádio picotam o ar.
Quero caracóis. Não,
não estou cansado. Dizias?



4. L’Homme du Temps

Vivo com um homem.
Vivo com um homem na minha cabeça.
Estou a vê-lo chegar de comboio,
marejada de rio a tardinha,
prometendo chover.
Cumpriu.
Vivo com um homem que chove.



5. Marav’olha

A minha vida é muito mais maravilhosa
do que paguei por ela.
Permite-me, até, a circulação pelo país.
Outras vezes, fecha-me na música, ela.
Sim, tive estios filarmónicos.
Um homem dava maçãs e vinho branco,
eu era um de nós, e nós
aceitávamos infusas e pomos.
A minha vida não era ainda isto.
Eu pardalava em absoluta ignorância
do preço do grão. E de o grão ter preço.
Depois disseram-me assim
– Olhe que você
– e eu não olhei.



6. Tento na Língua

A actriz diz ao actor
– Eu amo você.
Diz o actor:
– Você é estrebaria.



7. Visite o Caramulo

A Sofia assistiu, no sábado, às visitas.
Vêm de longe, de outro que não este mundo.
São os familiares. Os sãos. Os que gerem.
Vêm duas vezes por ano. Vêm
pelo calor, vêm
pela neve.
Manhãzinha muito cedo, os utentes tomam
banho nos lares.
As auxiliares, pressurosas, até licor de rosas
esfregam nas peles dos
condenados a isto.
Geriatria, psiquiatria – um a uma, uma
a um, os seres invisíveis vêm ver
a luz do sábado, pensam
que é domingo.
Não é.



8. Poema por Antecipação

Quando te fores embora e deixares
o corpo por sinal de entrega,
farás ‘inda bem se pensares
que aquilo que mata também sossega.

Envelhecem tanto, as raparigas. Tant’e no entanto
como são gráceis, rijas, inabaláveis.
São uma espécie de (des)esperanto.
Nascem e são logo inadiáveis.

Umas são mães sem pensar nisso. Outras
pensam que pensam e nunca o são.
Luzem, rebolam as ancas de potras,
mijam e sangram de pé para o chão.

Quando tu te fores embora, como direi?
Como hei-d’eu ceder à últim’idade?
Faço as perguntas porque não sei.
Mas’inda cá estás, responde à vontade.



9. Soneto Inverso

Tenho assistido: as pessoas tentam, em vão,
separar a vida da profissão.
Isto rimou sem querer.

Sim, claro que sim: somos o que fazemos.
E no que desfazemos nos começa a morte.
Não é azar, não é por sorte.

Gosto de mulheres. Já tive algumas
que me disseram – Sê homem
– mas, delas todas, nenhuma
ficou para velha quand’eu era jovem.

Tenho este trabalho. É ele o que sou.
Eu sou sonetista: catorze por um.
Eu sou o que faço. Desfaço? Não vou
agora dizer – Sou jovem ! (Ah hum!)



10. Cama de Casal

Alguém ou ninguém ou mais ou menos isso
respira a teu lado: e tu só na mesma.
Quando o teu braço de cambraia experimenta
o frio de seda na cama adormecida, e
só tu, ainda, restas acordado.
A guerra é experimentarmos um sangue não nosso.
Assim decerto, e também, o amor.
Nem os lojistas de móveis sabem
que nos propõem eles quando
nos propõem camas de casal.



11. Mossa Idade, Mossa Idade

Amarelo-gata-de-galinha retira-me
do dermoptimismo a mocidade.
Quem quiser ferir-me, fira-me.
Dig’assim – Iss’é da idade.

Mas, que porra!, aind’é cedo…
Nasci só em 64!
2000 & tal não me faz medo,
que eu pinto o Diabo e o 7 a 4!

Us’óc’los, sim. E prótese dentária.
Mas a gland’intumesce à simples ideia
da fêmea montada, vulgar alimária
que rache a fenda, mesmo seja feia.

Mas, p’ra ser sincero, aqui reconheço
que o meu eu não é com’ele já foi.
Manta nos joelhos, à brisa estremeço.
Só digo “Bom-dia!”. Nunca digo “Oi!”…



12. Match Box

Ainda brinco com miniaturas. Juntam-se-me sozinhas, aos pés da cama. Pululam, elásticas, aos pés do dia. São terríveis. Inexoram. Umas conduzem carritos de ferro que não posso pisar, e daí que me partam as unhas em total impunidade. Outras amargam o leite, fendem de verdazul o pão, corrompem a carne e oxidam o frigorífico. Outras são especialistas de arquitectura: fazem, refazem e desfazem casas onde ninguém pode voltar a morar. Outras juntam-se todas e totalizam a minha gata, que me olha, topázia fria, dizendo:
– Eu sou-as.
Outras vezes estou apenas sozinho. E não brinco.




Caramulo, tarde de 31 de Julho de 2006