Thursday, August 24, 2006

O Sol na Parede e mais Poemas

1. O Sol na Parede
(para o meu irmão Fernando, vero irmão)

Telefonaram-me de Inglaterra esta manhã
para que eu soubesse quão bonitas e inglesas
são as casas daquela rua onde fica o
telefone.
O meu coração não é colonial, embora
exerça um império mais dele que meu.
Quis-se-me deitar ao mar o coração, ir
ver as casas, ir
ver a rua, ir
ver a Inglaterra.
Escrevo este poema como quem agradece
o telefonema.
Estou bem sentado perante uma
parede brancamarela em que o sol
dá.
A parede e o sol são portugueses.
Eu também.
Estou aqui à espera do Outono.
Do sazonal e do ontológico.
Um traz sempre, marsupial, na bolsa
o outro.
Tenho trabalhado muito, não
decerto tão bem quão
devera; ou
pudera.
Na Inglaterra, as pessoas bebem chá.
Nós aqui enlouquecemos muito
ajuizadamente.
Nós aqui enlouquecemos muito
ajaezadamente.
Somos excelentes pessoas, excepto
as que não somos.
Também traçamos ruas, mas
ninguém telefona a ninguém
por causa disso.
Não me esqueci, ontem, de que ele
partia.
Chegado, não se esqueceu, ele,
de mim.
Um telefonema assim, mesmo inglês,
gratifica uma pessoa, quanto mais
uma pessoa que até escreve,
digamos, poemas.
Sobe de baixo a sombra, tomando
sol,
preparatória dos dois
outonos.
Isto não é mau: isto é
isto.
O meu coração
(o sazonal, o ontológico)
tem artes xávegas.
Se o quiser na Inglaterra
(ainda ontem era na Noruega),
na Inglaterra
(na Noruega)
o tenho.
O problema é a sombra que
trepa, trepana,
suicida, insana.
Mas qual!?
Amanhã,
faça chuva,
faça sol,
tenho parede a direito,
que o tijolo não é mole.




2. Ar de Cor

Toda a gente há-de ser,
julgo eu, a bem dizer,
o seu 'cadito porquita
no acto d'amor fazer.

Ele há-d'aver lembranças
de filmes de ar de cor.
Só, p'ra n'aver semelhanças,
dizem qu'é fazer amor.




3. Outro Soneto Inverso

Eu cheguei atrasado a ti a minha vida quase toda.
Tenho tempo ainda para um café no bar da estação.
A bagagem toda que trago é a que falta da que tive.

Para viver, é certo, uma pessoa tem de deslembrar-se,
mesmo que tal lhe sofra desmembrar-se.
Os mortos, sabes, nem sempre vão à vida deles.

Um casal eu vi junt'a'm balcão.
Os olhos molhados, a mão na mão.
Quis ser assim, só que faltava
a mim ser quisto por quem tardava.

De modo q'aqui m'eis, senhora, ou não,
fez-se o tempo frio, e mais é Verão.
Um bolo d'arroz!? Pois sim, como não?
É só ir ali ao bar da estação.




4. Os Imortais
- em Moimenta da Beira como em Santo António dos Cavaleiros
- um soneto impossível

Fazem arroz-doce e julgam-se a salvo.
Cozem o porco, rapam a erva.
Trazem a féria menos dois tostões de vinho.
É ruiva a manteiga, o pão é alvo.

Os filhos esticam. A alma também.
Só o corpo mirra: e âmbar e incenso.
Deixa o Pai de ser mago. Quer outro
homem (nunca pensámos!), a Mãe.

Quem viver p'ra sempre quer
(seja homem ou mulher),
não sabe, doce, dormir.

Que em chegando o senhor barqueiro,
embarquemos, é porreiro!
(Deixá-lo vir, deixá-lo ir!)




5. Um Sem-Abrigo em Jardim de Lx.

Eu vi em Lx. um homem a escrever num banco de jardim.
Tinha muitos sacos à volta dos pés - como
cães de plástico.
Ele escrevia, escrevia, escrevia.
Eu estive ali muito tempo.
Eu escrevo, escrevo, escrevo.
Como é que se diz "ão" em plástico?





Nota: o 4º verso da 1ª estrofe do poema 4. Os Imortais (...) é tirado, menos ipsis mais verbis, do poeta Correia Garção (não sabem quem é, vão ver, que isto agora c'a internet é tud'u'nstantinho).



Caramulo, tarde de 24 de Agosto de 2006

5 comments:

Fanette said...

Irrepreensível do princípio ao fim do texto.

daniel abrunheiro said...

merci, mademoiselle.

Paulo Prudêncio said...

Elevado, elevado, muito elevado.

Paula Raposo said...

Excelente! Agradeço á minha amiga Sandra, que um dia me disse que eu tinha que te ler! Ora ainda bem que ela o disse e que eu obedeci...

daniel abrunheiro said...

A nossa amiga Sandra tem sido a minha melhor e mais dedicada "agente", Paula.