Tuesday, August 29, 2006

Na Boîte com Marx (acontecimentos do anoitecer de 28-08-06)

1. Palavras Simples

Despertas o amor e o rancor
porque estás vivo.
Porque estás vivo
semeias a confusão
mondas a diferença
colhes a paga.
É tão simples
dito assim.



2. Boîte
(homenagem a Soeiro Pereira Gomes e a Georges Simenon)

É uma boîte pequena. O estrado dos músicos fica à esquerda de quem entra. Entra-se descendo três degraus. Também são três, os músicos. E também é do lado esquerdo, o balcão. Meia dúzia de mesas redondas. Meia dúzia de putas. Há um calorífero em baixo e quartos em cima. Também são três, os quartos. Em noites boas (“clássicas”, chama-lhes o patrão), elas turnam. Tratamo-las por “meninas”, o que sempre é uma vingança contra a evidência de nunca, mas nunca, o terem sido.



3. Força

O dia acaba.
Eu não.



4. Marx Vingado

Marx vingou:
as pessoas são iguais
em toda a parte.



5. Escrito antes da Estação

Daqui a pouco chega a estação das chuvas.
Às cinco e meia vai ser noite.
Encarreirarás na fila autopoucomóvel de regresso.
Problemas no acesso à ponte.
Acidente.
Demoras na saída.
Esquerda-pára-direita-brisa.
Pensarás em comer um hambúrguer,
cinema hoje não.
Nem houve feridos: lata com lata.
O polícia fluorescente na chuva.
Estacionas no parque do Cagadónaldes,
toca o telemóvel.
É a tua mãe, uma voz do primeiro
quartel do século XX.
Se estás bem, se tudo
está bem contigo.
Dizes que sim.
Se tens visto o teu menino.
Dizes que vais ver domingo.
Ela protesta saudades
tuas,
do menino.
Dizes assim:
tudo bem.
Bem mãe bem mãe bem mãe bem mãe.
Tudo tudo tudo tudo.
Tu tu tu tu.
Olha o que chove.



6. 63 Marcas Recomendadas

Deveríamos todos
talvez
ser electrodomésticos.
Chegando a casa
nos encontrasse
o nosso alguém
acesos e funcionando.



7. Trocadilly

Diz que o senhor Paul McCartney se tornou vegetariano quando, comendo costeletas de cordeiro, viu pela janela cordeiros vivos pastando, iguais aos que tinha a Mariazinha. Pois, talvez. Diz que, por causa disso, já nem lamb(e).



8. Alminha

Há por aqui um gajo que fez uma vivenda com alminha.
Em frente à vivenda, um cubículo alimenta de néon uma senhora-de-fátima ainda grandita. De noite, topa-se mais. O que o gajo quer dizer, digo eu, é mais ou menos isto: “Sou português, mas consegui uma alminha.”



9. Mão Esquerda

Olho a minha mão esquerda.
Bonita, analfabeta estrela.
Agradeço-a à direita,
que das duas é
a única que sabe escrever.



Caramulo, anoitecer de 28 de Agosto de 2006

7 comments:

Paulo G. Trilho Prudencio said...

Belo.

"4. Marx Vingado

Marx vingou:
as pessoas são iguais
em toda a parte."

Fez-me sorrir.

Ana Claúdia said...

Por aqui me passeio muitas vezes, nunca deixando rasto.
Aqui encontro sempre textos muitos sofridos, mas divinalmente bem escritos.
Deixo-te um desafio: porque não publicares uns textos sobre os locais por onde passaste ao longo da vida e falando de momentos alegres? dos amigos, das coisas bonitas que te acontecerem, dos locais. Da Figueira que tanto amo ou de Leiria que me viu nascer.
:-)
Tu sabes fazê-lo bem melhor que eu.

Um beijo

Fanette said...

Se me permite Ana Claúdia (pois não me conhece) estou de acordo consigo e deixo aqui o mesmo desafio.

daniel abrunheiro said...

É uma ideia, Ana Cláudia, é uma ideia.

Jerry Lewis said...

Kamarada,
Banho por este meio comunicar que vai ser objecto de um processo instaurado pelo Comité da célula de intelectuais de Arronches por haver cometido o desvio de afirmar que o Groucho Marx era igual ao Harpo Marx. Isso é contrarrevolucionário. Em suma, e pra ser breve: baistefoder!

Paula Raposo said...

Sempre magnífico! O que leio.

Ana Claúdia said...

Eu assumo a ideia como uma promessa. Vou voltar todos os dias para ver esses bons momentos. Posso?