Thursday, August 31, 2006

Literaturras - Parte II

4. Em Busca do Ulisses Perdido

Há Estado e há instituições particulares que pretensamente acodem a quase tudo o que é desvalido desta vida. O copofonista, o seringas, o portista, o diabético, o alzái-coméquié?, o regicida, o felgueirense - tudo.
O que não há - é uma associação, pública ou privada, que ajude as pessoas que não gostam de Joyce porque o não percebem e as pessoas que não percebem Proust porque não gostam de Joyce.
Não há - mas debiadaber.



5. Pérolas

Já se sabe quem são os costumeiros destinatários da dádiva de pérolas. Ainda assim, mostro (não dou) aqui uma colecção delas. Vivi boas horas e dias lindos no usufruto delas. Depois de vo-las mostrar, faço uma ressalva de rodapé.

Jacques Prévert - Paroles
Ferreira de Castro - A Lã e a Neve
Manuel da Fonseca - Seara de Vento
Manuel Vásquez Montalbán - Galíndez
Paul Auster - The Invention of Solitude
Soeiro Pereira Gomes - Esteiros
Federico García Lorca - Pueta en Nueva York
J.B. Priestley - Time and the Conways
Virginia Woolf - Mrs Dalloway
Fiodor Doistoievsky - Crime e Castigo
Camões - Lírica
António Osório - A Ignorância da Morte
Ruy Belo - Homem de Palavra(s)
Italo Calvino - Seis Lições para o Próximo Milénio
Corrado Alvaro - Pastores de Aspromonte
Rainer Maria Rilke - Cadernos de Malte Laurids Brigge
Sófocles - Ájax
Julio Cortázar - Blow Up e Outras Histórias
Jorge de Sousa Braga - O Poeta Nu
John Le Carré - Um Espião Perfeito
Luiz Pacheco - Exercícios de Estilo
Malcolm Lowry - Debaixo do Vulcão
Dylan Thomas - Sob o Bosque de Leite
Cesário Verde - Poesias
Nicholas Freeling - O Rei de um País Chuvoso
Wenceslau de Moraes - Traços do Extremo Oriente
Bernardo Santareno - O Judeu
Henry James - The Turn of the Screw
Thomas Mann - Montanha Mágica
Raul Brandão - Os Pescadores
Tomasi di Lampedusa - O Leopardo
Graham Greene - O Nó do Problema
Lawrence Durrel - Quarteto de Alexandria
Antonio Muñoz Molina - Plenilunio
Yasunari Kawabata - A Casa das Belas Adormecidas.


Há mais de onde estas vieram.
Uma vez, porém, um anémico mental grunhiu-me que me estava a armar, eu, enumerando livros. Fraca caça me saiu a besta, sinceramente. Tivesse o barba-de-pentelho lido uma página que fosse dos livros acima perlados e outro grunhir lhe fonaria das tripas do córtex, em caso dele.
No olho é um descanso, enfim.



6. 252 Segundos

Não há meio termo, na vida como na arte.
A segunda não raro consome a primeira, mas
não há meio termo.
Não se vai ali à poesia dar uma volta.
Não se vai ali à dramaturgia fazer uma perninha.
Não se vai ali à pintura lamber uma crica.
Não se vai ali a Bach vestido à minhota.
Dignidade é para escrever com as letras todas.
Não se fica pelo gni.
Total envolvimento.
Eu digo - compromisso total.
A vida toda, toda a vida.
Há-de ocorrer-nos a morte, mais que a vida garantida.
Os "artistas oficiais" tocam punhetas porque não se casaram com a arte.
Casaram-se com o umbigo.
Casaram-se com o sofá.
Só não se casaram com a puta-que-os-pariu porque o Édipo se lhes antecipou.
Querem ver?
Uma pessoa vai na rua. No outro passeio, da banda de além, um homem velho cai ao chão, fulminado pelo relógio.
Vêm os paramédicos. Um deles pergunta à testemunha:
- O senhor viu?
Diz a pessoa:
- Vi. Uma pessoa pensa sempre no coração.
No caso de ser um artista total, a testemunha dirá:
- Vi. Foi há quatro minutos e doze segundos.



Caramulo, noite de 30 de Agosto de 2006

13 comments:

Fanette said...

A acreditar que o teu raciocínio acabe nesta parte II: admito a possibilidade de te desafiar para que haja mais a dizer no sentido de desafogares “a sério e Alvim.”

Paulo G. Trilho Prudencio said...

Proust é quase tudo. o quase é apenas humildade. Estou no 3 do Pedro Tamen - belíssima tradução.
Joyce - ulisses, confesso, só na terceira e depois de ler o retrato do artista... não me perguntes o porquê, mas fois assim... Ulisses é uma obra imensa.
Dos restantes, sim, dos restantes, a confissão de santareno e as elegias de rilke - mais a segunda - são obras.
Listar, listar, sim porque não? Há cá cada gente.

Manuel da Mata said...

Meu caro Daniel,

Ainda bem que temos parentes comuns, na literatura. Hoje, pelo menos hoje, já me sinto menos só.
Só não te acompanho no conhecimento dos anglo.
O Belo é um dos dois poetas que tenho encarneirados.
O Prévert tentei traduzi-lo, mas desisti.
Com a Lã e a Neve me aqueci e refresquei muitas vezes. Ainda oiço o Ricardo a tossir, em certas noites de Inverno.
Um abraço,
Manuel Barata

Paula Raposo said...

Li tão pouco do que enumeras. Mas vou a tempo. Bom fim de semana.

daniel abrunheiro said...

O que o Manel da Mata aqui deixou é, PRECISAMENTE, o que se pode pedir à (grande) literatura: "Com a Lã e a Neve me aqueci e refresquei muitas vezes. Ainda oiço o Ricardo a tossir, em certas noites de Inverno."
É exactamente isto. Ou o pastor a levantar-se na madrugada fria. Isto, exactamente, precisamente.

Anonymous said...

Caro Daniel, como diria T.S. Eliot, poetry does not matter. A elencagem de livros, a maioria dos quais temos como património comum faz-me lembrar a fatalidade, talvez a inútil inutilidade da cultura. Espero que dessa imensa lista de livros (como nos tops livreiros) faças boas fogueiras como Pepe carvalho, e te possas aquecer nessa terra fria que habitas. Eu, como um velho fauno voraz, estou alhures e não há literatura que me sacie: "Onde estão, onde estão, aquelas meninas que tudo te dão?"
Luís Bernardo

daniel abrunheiro said...

É bem visto, Luís. Mas é por não saber das meninas que à poesia me vou dando...

Anonymous said...

Estimado Luís Bernardo,
Suponho que ainda esteja no meio do caminho da sua vida, o que se compreende por aquilo que escreve, mas não se esqueça do que lhe vou dizer, usando uma expressão cara a um dos autores que citou:“Bernard, Bernard, cette verte jeunesse ne durera pas toujours” (Bossuet), frase esta dedicada a outro Bernardo muito mais católico do que o jovem parece ser, e ainda bem.
Tudo isto para lhe dizer que o Ex.mo sr. Daniel Abrunheiro, a quem muito prezo, lhe responde paternalmente que não é com a poesia que deve ir às nêsperas, e que ir às nêsperas com a poesia parece aviltar a dita, quando a uma poética subjaz uma ética.
Apesar de perfilhar algumas das ideias de Daniel Abrunheiro, julgo que talvez tenha sido apanhado num dia com pouco UMOR, se tenha esquecido das fontes onde vai beber e tenha feito uma interpretação literal de uma das frases do seu comentário. As ditas meninas são (carnalmente) mas sobretudo simbolicamente (neste caso) o elo de ligação da arte com a vida. É necessário que a escrita seja rara, já dizia G. Debord (aliás, num dos mais belos textos memorialistas do século passado) já que qualquer arte que não se liga à vida tem um cadáver na boca. A praxis fundamenta uma ética.
Curiosamente, o cínico Pepe Carvalho que o Luís parece gostar também fala disso. Espero que conheça este livro, do qual retiro este exemplar excerto: «desguazó el libro, arrugó las hojas y sobre aquellas palomas muertas de papel fue construyendo la arquitectura de la fogata y aplicó la cerilla que se convertió en el epicentro de una llama que empezó literaria y terminó en una punta fantasmal de humo y deseo. Mientras crecía el fuego censaba con el rabillo del ojo los libros que le quedaban. Suficientes para ir quemando uno a uno libros que había necesitado o amado cuando creía que las palabras tenían algo que ver con la realidad y con la vida…»(Manuel Vázquez Montalban, “La Rosa de Alejandría”). Viva a vida, mas não se fie nela.
Com saudações cordiais,
João César dos Santos Baptista
Figueira da Foz

Anonymous said...

Este blog está a ficar muito animado. A poesia acabou. Passemos à discussão:
Para os poetastros, aprendizes, aspirantes e quejandos:

« C’est fini le temps des poètes. Aujourd’hui je dors.»Gil J Wolman, L’anticoncept
«Esta
espécie de crime que é escrever uma frase que seja » Herberto Hélder, Photomaton&Vox
João Luís Branco

Anonymous said...

Caro Daniel,
Quando resolvi colocar um comentário neste blog, fi-lo porque havia e há qualquer coisa que me ligava a esta família, que não é literária, mas sim uma comunidade que vem ou se vem, no sentido que Agamben dá ao termo. É interessante ver que gerou uma certa celeuma, felizmente saudável, já que deriva de afinidades electivas ou, como diria o outro, banalidades de base partilhadas.
Investigando mais o blog, que já conheço há cerca de um ano mas que visitei mais nos últimos tempos, foi a escrita do autor o que mais me interessou. Aquilo que afirmei, e o sentido que deu à questão não são importantes, tanto mais que o senhor João César Baptista Santos, no seu tom professoral, descascou de forma correcta. Só a vida, a amizade, o amor, o sexo são ou podem dar sentido aos livros, filmes etc. caso contrário não passam de um pobre onanismo, elixir de uma solidão.
Permito-me discordar de grande parte dos amigos e comentadores deste blog, que comparam a sua escrita à poesia do O’Neill, (que no Pacheco Vs Cesariny é apodado de “jongleur”, se bem me lembro) e que é considerado o maior poeta do século XX português pelo suspeito Vasco Pulido Valente, de quem eu gosto muito, aliás. Julgo que não é tanto por este caminho que se deve ir (talvez um dia possa desenvolver esta ideia)
Se Daniel Abrunheiro tem parentes próximos na literatura portuguesa do século XX, estes são a tradução que Luiza Neto Jorge fez do Morte a crédito do L.F. Céline (maior escritor do século xx, maior argotista desde Villon, criador de uma língua que não é o francês de Proust ou Camus, “opiniões toda a gente as tem”), os argumentos cinematográficos do João César Monteiro a solo ou com companhia (herdeiros de Gil Vicente) e a crítica cinematográfica do mesmo, assim como a prosa desse grande artífice da língua que é o Vítor Silva Tavares. Parente distante, separado por um oceano: Guimarães Rosa “pão ou pães é questão de opiniães”. Julgo que está em muito boa companhia.
Cumprimentos
Luís Bernardo

Anonymous said...

Caros Luís Bernardo e Daniel Abrunheiro
As problemáticas do fim da arte (Duchamp) ou do fim da poesia (Mallarmé) não podem obnubilar que se continua a fazer poesia e que se continua a fazer arte. O tão apregoado fim da pintura não acabou com os pintores, infelizmente.
Houve quem fizesse uma arte da vida (Debord) ou da vida uma arte (Oscar Wilde). A questão aflorada neste blog passa sobretudo sobre uma literatura que se alimenta da vida ou uma literatura que se tem a si mesma como referencial primeiro.
Até ao século XIX o romance sempre teve como referencial prioritário a própria literatura. Só com a revolução francesa e com a necessidade de criar uma nação e, por esse motivo, envolver o “povo” nas lutas pela liberdade, é que o romance começa a entrar na realidade. O que é o Quixote senão um delíquio literário escorado numa literatura idealizada, que já não correspondia à realidade (romances de cavalaria). O que é o Tristram Shandy, um dos mais importantes e belos romances que tem a literatura como objecto e auto-paródia? O que são o Jacques le Fataliste, o Tom Jones, as Memórias póstumas de Brás Cubas e o Quincas Borba, o Viagens na minha Terra, as aventuras de Tom Sawyer e o Huck Finn.
Não sonhou Walter Benjamin fazer um livro (sobre a Paris de Baudelaire) composto inteiramente de fragmentos, mas de fragmentos alheios? O que são as Mémoires de Guy Debord, senão um conjunto de citações «détournées » ? Volição apreendida em Lautréamont « o plagiato é necessário…»
Quanto aos parentes próximos ou longínquos da escrita do Daniel Abrunheiro, ficará para outra vez .Hoje não estou shandyano e não me apetecem digressões.
As duas coisas, vida e literatura entrelaçam-se e são inextricáveis.
Deixo à vossa consideração.
Saudações professorais
João César Baptista Santos

Anonymous said...

Corrigenda ao post anterior, João César dos Santos Baptista. a senectude aliada à vontade de dormir, empecem-me o cérebro e já nem o meu nome escrevo correctamente.Coisas da vida. Ou da arte.Peço-vos desculpa

Anonymous said...

Acho extraordinário que o sr. Luís Bernardo compare a escrita luminosa, barroca, inventiva e humana do Daniel Abrunheiro à de um nazi, que começou por se fazer passar por anarquista (lembrem-se do Viagem ao fim da noite) e se tornou num lacaio de Vichy e dos nazis. Pound estava errado quando afirmou que uma má crítica se revela quando se fala do autor e não da obra. Discordo e meto no mesmo saco o autor da Viagem e dos Cantos. A conivência com o extermínio colectivo de seres não se compadece com os meus padrões éticos e com os da literatura que aprecio.Para mim, a literatura do Daniel Abrunheiro tenta criar uma língua nova onde o Lobo Antunes falha, onde o Saramago arqueologicamente resgata uma lingua morta, de arquivo e burocrática. Apenas vejo um poeta já quase esquecido, ex torneiro mecânico, cinesta, professor do conservatório, o António Reis, a quem a escrita do Daniel se pode comparar.A mesma ética, a mesma originalidade, a criação de uma língua, de um mundo.
Artur Fonseca