Thursday, August 31, 2006

Literaturras - Parte I

1. Sófocles

Quem quiser saber de coisas abstractas de utilização quotidiana a mais concreta, não tem de ir mais longe do que Sófocles. Glória, traição, amor-ódio, vingança, destino, cálculo, inocência, cinismo, humilhação, recompensa, dúvida – e a Vida e a Morte – está lá tudo. E tudo isto num discurso poético do mais alto quilate.
A MinervaCoimbra editou, em Dezembro de 2003 (d.C.) um volume das Tragédias do grande grego. A organização, a tradução e os comentários pertencem ao grupo formado pelos Doutores Maria Helena da Rocha Pereira, José Ribeiro Ferreira e Maria do Céu Fialho. Trata-se de um belo tijolo de 640 páginas perfeita e maravilhosamente legíveis. A edição inclui, ainda, um corpo de luxo de estampas (a cores). As Tragédias são: Ájax, Electra, Rei Édipo, Antígona, As Traquínias, Filoctetes e Édipo em Colono.
Mas para quem confunde incremento com excremento, há sempre o coiso Dan Brown e o coiso brazuca Paulo Coelho. Ou algum sucedâneo de imitação portuga-pivô-TV quejando.



2. Cumbersa cuma Gaja que Quer Gostar de Ler

– Não sei que leia.
– Não leias.
– Mas diz que.
– Num diz nada.
– Talvez o Miguel Sousa Tavares, aquilo do Enocuhádor?
– Parece bem.
– Gostas?
– Não. Parece bem é andar coele ao colo.
– Co Sousa Tavares?
– Coícuador.
– Às vezes, não te percebo.
– E quando percebes, já cá não tou.
– Queque tu tens contra os best-sellers?
– “Bestas céleres”, chamava-lhes o O’Neill.
– Quem?
– Esquece.
– Diz co Tabares vendeu 300 mil libros.
– Sim: 298 mil por aparecer na TVI e mais dois mil por ser filho da Sophia.
– Quem?
– Esquece.
– O Paulo Coelho é irmão do Eduardo Prado Coelho?
– Não, mas merecia. A capoeira é mais ou menos a mesma, pourtant.
– Quando disseste aquilo do Sófocles, praqueque falaste no Paulo Coelho?
– Apeteceu-me. É do pus.
– Eu gosto daquelas coisas místicas.
– Atão faz-te sócia do Benfica.
– Não, a sério.
– Paulo Coelho? O que apareceu no osso do braço do santo que está desenhado ao avesso na quinta linha da edição brazuca do Código da Bicha?
– Está?
– Jesus. Não tá mas debia-destar. E queimarem o libro coele lá dentro.
– Já li numa revista o Paulo Coelho.
– Era a Maya. Fizeste confusão.
– Realmente, era um bocado pó parecido.
– Trata-se do milagre da literatur’alma.
– Trata?
– Esquece.
– E António Damásio, aquilo do Erro do Descartável?
– Ó minha, num vás por aí que nunca mais és capaz de falar. Ou, pensando melhor, vai.
– Quem sabe muito tamãe de lit’ratura é aquele gordo do Público que já falámos.
– Ah.
– Sabes, aquele qué filho.
– Eu sei, conheço a senhora.
– O pai, tou a falar do pai. Esse é que tinha muito prestígio como professor. Como é que tebe um filho assim?
– Olha a Sophia de Mello Breyner Andresen e já bês.
– Porqueque o Eduardo Prado Coelho só escreve crónicas do corpo, de exposições de fotografia e de França?
– Tamãe escreve sobre a alma, exposições de pintura e de Paris.
– Uma pessoa tem de estudar muito para ficar como ele.
– Sobretudo em pastelarias.
– Mazádaber algum que tu gostes.
– Ya.
– Quem?
– Esquece.
– Lobantunes e Saramago?
– Já dei.
– Possidónio Cachapa?
– Quem?
– Esquece. E o Peixoto e a Pedrosa?
– Com a peixota muito se goza.
– E o Mega Ferreira e a Clara Pinto Copy Paste Correia?
– Gosto mais de fanecas.
– Assim fico sem saber.
– Ideal da morte, vida ideal: desconhecer é embarcar.
– Cumé essa praeu apontar?
– Inbentei agora.
– O Pedro Paixão e o Gonçalo Tavares, com M. no meio, tamãe escrevem muntos libros assim de seguida.
– Muito pouco nada.
– A Fátima Lopes da siqui agora tamãescrebe.
– Num país que não vê dum olho e não lê do outro, quem tem uma fátimalopes é rei.
– Tu debes-de-ser mais Baptista-Bastos.
– Bob? Quem é o Bob?
– Essa num percebi.
– Eça é o maior.
– Não. A do Bob.
– Ah. É anedota.
– Conta, cão fedorento.
– Tá bem. Era uma gaja casada que era como Portugal: gostava muito de levar no cu. Vai um dia, o amante diss’le quela era munto aparecida ca Brigitte Bardot. Vai daí, escreveu-lhe co bâton BB no cu, um B por cada nalga.
– E atão?
– Atão, o marido da gaja chega a casa e dá coela a dormir de barriga pabaixo. Lê e diz…
– … Baptista-Bastos?
– Esquece.
– Tenho de mirembora.
– Queres mesmo ler uma coisa boa?
– Quero, a sério e Alvim.
– Atão o tema da mulher constante no seu sentimento, mesmo que só sinta ódio e desejo de vingança, atrai-te?
– Sim, parece giro. Já vi um filme parecido cuíço.
– E o do homem que, ao cabo de uma árdua vida de luta, se vê injustiçado na hora do reconhecimento?
– Tamãe. Nu malembra é do título do filme.
– E aceitarias que o destino é uma distorção do livre-arbítrio?
– Cumé essa?
– Que é responsabilidade de cada um dizer não com a força toda aos céus, aos deuses e à Segurança Social.
– Sim, acho que debe-de-ser.
– Atão lê Sófocles, pazinha, lê Sófocles. Não sejas boba.
– Boba? Quem é a boba?



3. F&F

Faulkner e Fitzgerald são norte-americanos, mas podemos falar com eles. Enquanto o desespero e o ultraje mantiverem margem para negociação, ternos serão o som e a fúria da noite.





Caramulo, tarde de 30 de Agosto de 2006




3 comments:

Paula Raposo said...

O diálogo está de chorar a rir!! Não me repito mais hoje...está bem? Até porque estou num intervalo e não devia estar aqui.

Fanette said...

Entre o sorrir, o desconcerto, o sorrir, o exclamar "oh meu ... o dito cujo, aquele que é surdo e está no sky!", vou esperar pela próxima sequela “LiteraTurra – parte II” para futura deliberação.

Paulo G. Trilho Prudencio said...

Subscrevo... está com muito humor e mantém o registo.