Wednesday, August 23, 2006

Licor, Sabão e Sapatos

O meu Pai contou-me histórias e lances que me ficaram. Ouvindo-o, eu vivia a inequívoca suspensão dos leitores, que viria a repetir depois nos livros de papel por que me vi forçado a trocá-lo.
Das narrativas que me passou, não conservo senão a atmosfera escura dos homens (quase sempre ou operários ou homens de génio), a tristeza palpável das florestas com seus caminhos de criança, o carácter inapelável da chuva e um vago terror pela morte que não pude ainda confirmar pessoalmente. Quanto aos lances e às histórias propriamente ditas, quase nada posso aproveitar para nutrição do meu ofício. Ficaram-me a escuridão, a tristeza e o gosto por estas duas irmãs da imaginação. Quase nada?
O meu Pai está morto. Já não conta. Nestes doze anos sem ele, venho babujando os meus mesmos homens e as florestas improváveis que se erigem ao descer do sono, na cama que ele já não aborda para verificar a respiração do infante. Aceitei e cresci, velejando a lápis pela memória prospectiva e pela absoluta insensatez da poesia. É verdade que navego confusamente. Acontece-me escrever um homem, pensando-o meu, e ser ele, afinal, dele. É uma sombra de sombra. Isso faz-me sorrir. Sim, faz-me sorrir como um maluco sozinho de café. Não tenho problemas com isso. A cabeça de um homem é uma rosa de vidro duro. Cortando a cara, está a boca, território do dentista e da palavra. Escrevo estas coisas contra a claridade e, não raro, contra a alegria.
Porque a alegria seria poder não escrever. Não criar mais homens do que os já existentes, não mais rosas de duro vidro. Eu agora conto histórias e lances, sem filho embora. Da cama, vejo e ouço o ramo de árvore raspando o vidro: o ramo na minha cabeça. Todas as noites me são uma, daí que a minha felicidade seja um sistema feroz e totalitário. Pode o rolo dos meses ser tão compressor quanto lhe é natural: é uma noite só, só. Isto está correcto, assim.
De quando em quando, é de dia. Então, barbeio-me, visto um fato decente e saio para a rua a cheirar a sabão. É o mesmo domingo de sempre, claro. Farmácias fechadas, igrejas abertas, o rio pulsando a veia aberta de cobalto, o fumo da manhã, as pombas como cães rasteiros esburgando ossos de milho, mais a placidez acrítica do bêbado matinal ao fundo do beco. Saibam então que, então, me toma a feliz ferocidade de lhe ter sobrevivido. É provável que esta manhã ocorra de noite (o ramo no vidro). Não tem mal. Toda a gente é tão matinal quanto pode.
Os homens do meu Pai eram todos noctâmbulos. Também assim os lances deles. As estradas eram de terra, quando nelas chovia jorravam horizontais regueiros de café-com-leite, o pão era amargo, os filhos eram feitos num estremeção; e estava sempre a chover café-com-leite. Pouca diferença para comigo. Conheço isso, volto a ser feliz por causa disso. É o meu trabalho.
Hei-de levar-vos pela mão a este homem (não há engano, este é meu) de bom relógio de pulso, fraco colete de lã e orelhas entupidas de torrões de cera. Está ali, contemporâneo da minha mão direita. Usa um bigode tão denso e expressivo como um terceiro olho na mesma cara. Mãos cartilaginosas de comedor de canja, calças de fazenda preta; cotovelos de afiadeira, costas insignificantes, cinto de cabedal espúrio. Tem cinquenta e seis anos: e nasceu agora. Hei-de vê-lo a beijar um cálice de licor.

– Dona Judite, um cálice de licor.

Já está. Bebe à esquerda como um decifrador de palavras cruzadas. Sapatos de feira dormem-lhe aos pés como gatos de napa. Os joanetes embolam os gatos. Não tenho o meu Pai, tenho este homem.
Receio que me não acreditem, mas isto é a felicidade, mesmo que os traços sugiram a mesma tristeza e o mesmo domingo e a mesma floresta e o mesmo lápis. Alegria e felicidade nunca foram a mesma coisa: nunca foram a mesma pomba.
Fiz já algum amor, alguma comida, alguns livros e alguma sombra. Perto do meu coração físico, demora-se às estrelas o espectro da Pensão Central, abandonada e olheirenta. Entrei já, clandestino, nessa casa final. Terrinas de sopa branquejam ainda nas bancadas apodrecidas; penicos albergam ratos mortos de sede; um quadro vesgo recorda que há cabanas na neve, mas não para ti; sobrancelhas de arbustos vivos rompem pelas frinchas dos madeiramentos; e os mortos pensionistas reclamam chá de dentro das décadas estagnadas. Mas, dizia, fiz já algum amor (algum chá, também); e alguma comida, peixes salgados que deitei a assar sobre carvões rubros caramelizando a areia da praia; e alguns livros, onde se tornou inequívoca a impossibilidade de fugir; e alguma sombra, esse trapo que a luz deita a si mesma para não ferir os olhos.

– Dona Judite, um cálice de licor.

Os homens escurecidos do meu Pai correm os valados de Alcobaça, atormentados pelo ar frutívoro e pela música da água do mar da Nazaré, espermática na noite preta, reboadora, catedrálica, desumana. Eu não corro. Eu estou. Eu agora estou vivo. Isto é importante – porque me faltam muitas páginas.
Domingo de manhã, cruzei (cruzarei) a Praça das Cebolas, acossado pela repetição e mirado do limbo pelos cães dos toxicodependentes. Cheirei (vou cheirar) o vinagre das sardinhas fritas na viela por uma mulher de varizes cuneiformes, picardia aromática repercutindo por ondas na minha pátina de sabão. Ao fundo, a igreja de S. Bartolomeu, nesgada de sol e anemia. Além dela, a margem direita do rio, ao longo da qual tiracolam os pederastas suas tesões estéreis.
Só devo ter cuidado com o domingo por causa de o meu Pai reviver. Não se trata de uma intercessão de S. Bartolomeu, mas minha. Concorro a esse milagre sem querer, nem crer. Ele acontece, apenas. Algumas vielas foram iluminadas por ele, antes da rifa vascular-cerebral do fim. Ele cheirava a sabão, tinha raspado o queixo e surgia envolto num fato quase tão decente quão pobre. Sentia o vinagre das sardinhas, silvava melopeias às pombas, não havia drogados ainda, só cães, os mesmos. Ele não tinha estremecido ainda para fazer-me. Vem no meu sentido inverso: em verso. Já viu o rio, agora regressa, rumando aos Sapateiros, depois da camisaria. Não trocamos palavra. Isso é que já não pode ser.
A praça enche-se de homens, lances. A praça escurece. Há uma vozearia gráfica, como nos sonhos e na banda desenhada. O domingo excita estes homens carbónicos. A tristeza do meu Pai é tão evidente como uma toalha posta a enxugar à chuva. Descuidada, a memória alimenta-se de si mesma como o vento, que aliás sobressalta os cães e a placa de madeira do camiseiro. Percebo que isto é de estar a chover sem eu ter dado conta. Dentro da cabeça, a cronologia é meteorológica. Estou descalço: ele leva os meus sapatos. Se estou descalço, deito-me (o ramo no vidro). O domingo esvai-se.

– Dona Judite, um cálice de licor.

É de noite. Além da Pensão Central, a montanha desce-se a si mesma como uma história, ou uma vida, ou uma montanha. Estou vivo na antemão de tudo o que vem ainda. Há uma teimosia, nisto de as coisas seguirem vindo, que só pode ser galáctica. Luzitas eléctricas caspam, por todo o vale, o cabelo da noite: pequeninas vidas sem livros nem redenção, dentro das casitas, dos galinheirozitos, dos camiõezitos, da noite.




Caramulo, noite de 21 de Agosto de 2006

6 comments:

m. galego said...

daniel,
obrigado por partilhares este texto. sabes que sou da nazaré e por isso...bebo um cálice e lembro-me de ti. abraço forte

Paula Raposo said...

Quando a recordação vai até ao fundo, os dias seguem mesmo iguais.

Anonymous said...

é tão denso, tão denso que quase percebo como profundo
nestas intricadas armadilhas do texto e das palavras, que pretende?
a vertigem da posteridade que escorre entre os dedos da sua mortalidade!
Olhe que não, restam os afectos, a memória do que cá ficam, e pouco menos.

Fanette said...

A memória vai e volta, sempre, para quem verdadeiramente não esquece o que tem no coração.

daniel abrunheiro said...

grande abraço, Mário!
e senhoras, igual.

Paulo G. Trilho Prudencio said...

Ufa...
Abraço.