Monday, August 07, 2006

Ilustração da Classe Operária

Prólogo

A montanha e o mar continuam a fazer-me, do corpo, tabuleiro para jogo, ciência e chacina de suas pedras elementais. Eu ajudo à festa. É porque exerço uma demora caçadora. Direi mais bem - pescadora. Sou incapaz de supor o que faríeis em meu lugar (e em meus lugares): cada montanha usa um só caminhante; e o mar não comporta mais do que um náufrago, à vez.Salva-me a razão o facto de escrever sempre em puro êxtase pedagógico. Esta tarde de sexta-feira, 4 de Agosto de 2006, a minha vítima foi a classe operária.As circunstâncias eram partilháveis: a luz aparecia total como um vidro; a parede da montanha não poderia nunca ser subida por outro barco que o do versilibrismo; na casa de pasto, operários erguiam à luz as estranhas flores dos seus braços: as mãos; e vi um gato tão pardo como uma cortina de chuva.Ninguém me acreditaria se aqui depusesse a principal das minhas ferramentas – a felicidade. Todavia, tal é. Ainda hoje. Agora, é certo, o dia acaba-se, adormece contra as pessoas, fá-las clicar os botões eléctricos. Na montanha, o pior da festa é ouvir-se o mar improvável, na noite, quando são pretas todas as casas do tabuleiro. Que não são 64, mas 24: como as horas do dia e o quanto de versos de cada, digamos, poema.

Os versos 14-15 do poema 6. Sonho do Taxista são tradução quase literal dos célebres versos do poeta francês Jacques Prévert: Deux escargots s'en vont à l'enterrement d'une feuille morte.





1. Paisagem e Povoamento

Em torno a massa verde do mundo,
alguma língua castanha.
As águas são nutrientes.
A cabeça do girassol, coroada de ouro e óleo,
mira com atenção o mapa alto.
Suínos e humanos chafurdam em estrumeiras.
Cal, cálcio, calcinamento – o momento é todo
branco.
Dos Correios, a carrinha vermelha sai, carregada
de um homem e de palavras e números.
Uma mulher transparente ondula de vidro
no calor: registo-a.
Terra de casas pacientes e mortas.
Quando há baile, sob as árvores, ainda aparecem
seres: olhos fosforescentes: esmeraldas audíveis.
Há uma loja. Na montra, sobre placa perfurada,
ratoeiras de pau demonstram ardil e arame.
Bois são ensinados a bordar lavradios.
Cabras roçam as tetas nos pedregulhos.
Mais acima delas, um batalhão de estrangeiros
plantou ventoinhas eólicas.
Mais acima delas, a tela azul suspeita
do mar improvável
que daqui anseio.



2. Quando no Mar

Como se tivesse chegado atrasado a acabada
festa: assim chego ao mar.
Digo: assim chego à memória.
Mãos e areia: materiais para ampulheta.
À sombra do toldo, a areia era de um frio
sexual: o primeiro.
O meu primeiro corpo anchovava-se
de todo.
A praia era completa, então.
Tribos sem defuntos acampavam ao sol.
O mar tinha cheiros de pessoa conhecida.
É verdade que por vezes raptava alguém,
matando-o, devolvendo-o depois noutra praia,
noutro poema.
Os banheiros eram muito pobres, tinham só
a pele escamada, bebiam vinho e fumavam.
Manhã muito cedo, a vida era uma palavra única.
À esquerda, à direita, sul e norte coincidiam
na massa verde: só que eram peixes
quem bordava, não ainda bois.
Provisórios eram os socalcos,
girava o sol como uma cabeça de flor:
óleo e ouro.
Língua encarnada.



3. Os Peixes

No mostrador de vidro, aguardam operários
comedores de fim de tarde (hoje)
os peixes que mulher fritou em esconsa
cozinha.
São nutrientes como águas.
Embolados de saliva, descerão aos poços
gástricos dos operários comedores.
A minha vida foi tocada
pelo vento.
Demoro-me nas ruas cálidas.
Há uma idade-méxico, esta
é a minha.
Pó branco, luz de cal.
Em cima, os moinhos eólicos dos
senhores estrang’engenheiros.
A todo o momento, é possível
que cowboys surjam mortos
de sede. O táxi da vila, sob
tílias, embolsa o taxista adormecido
ao volante.
Estarei sempre onde estive.
Sempre é o nome de aonde fui.
Escrevo para alimentar os peixes
Gástricos. E para ilustrar a classe operária.



4. Palavras e Números

O homem dos Correios gosta de peixe frito.
Encalmado, tonto de azinhagas e envelopes
com análises clínicas mortais dentro,
sai da carrinha encarnada-língua
e vem morder um peixe.
Venho por esta dizer que estou bem.
Sou de tua excelência atencioso.
Que o pagamento se não esgota, o prazo
dele sim.
Aflautado passarito amarelo, em gaiola
de primeiro andar, sobre montra de
loja de ratoeiras, trila apogiaturas
de rotina.
Trila palavritas amarelas, numerinhos vermelhos.
Não cómodas prestações, mas,
ainda assim, falar com o homem
dos móveis, pedir-lhe uma linha
de tábua sobre que arrecadar
os livros, as palavras, os números,
a quieta passagem.
A mulher na casa do girassol,
viúva de si mesma, platina calcinada,
abre a carta, não sabe ler,
diz-me que lha leia eu.



5. A Carta

Saí como sabes ao mar e não voltei
sou de tua excelência atencioso
eu queria já não quero nem já sei
tenho frio e ando silencioso.

Como está o girassol?
Anda o porco na estrumeira?
Tenho no pé’squerdo um fole
sinto na cabeça uma zoeira.

De espuma vou bordando o mar
de casa cal parece a espuma
navego e nunca hei-de chegar
a certa parte a parte alguma.

Eu talvez volte eu talvez não
deixe de estar onde não parti
agulhas breves no coração
coloração de rosa no chichi.

Sobem do mar a prumo os peixes
tocam das redes o baile mortal
oleosos de prata lembram-me feixes
lunares grafismos do papel natal.

Eu pago sem fim meu praz’amarelo
eu canto dos ratos o coração d’arame
não se cansa o mundo de triste e belo
não queiras meu nome ‘ind’assim chama-me.



6. Sonho do Taxista

Aos cantos da boca espumo um pouco.
Tílias dormentes m’embalsamam a viatura.
Adormeço como um infante vestido
de azul-marinheiro.
Mais do que a conta não sofro.
Não sei de mulheres nem homens:
xadrez infinito, teimoso jogo.
Tive ali o mar, sonhava com ele: não
o tinha.
Depois disseram-me que comesse por
conta. Essa conta sofri.
A França fui; e vi:
suínos e homens na estrumeira do idioma,
onde dois caracóis iam ao enterro
de uma folha morta.
Nunca estive aonde nunca voltei.
Sou tão fiel.
Seca-se-me a mãe ao sol,
Como um prumo de peixe de óle’ouro.
Estiola a espuma, cal se faz.
Morrem-se-me as casas.
Cowboys mexicanos vêm à babugem frita.
As tílias parecem bois, a luz
borda a noite inconsútil.



7. Tigre e Homem

O gato cruza impune a estrada,
entra no parque: registo-o.
Uma só natureza geradora, mas
tantos mundos.
Cresce na sombra: tigre.
Mais única que a minha, agora
e para sempre, a vida dele.
Uma senhora fala assim:
“Doem-me tanto os pés, tanto,
mas tenho de andar, caso contrário,
põem-me numa cadeira-de-rodas”.
Nem uma nuvem, o dia todo.
Abandonaram um carro numa rua
onde ninguém mora.
Como aqui não há areia, não há
tempo.
O dia nasce outra vez como
um siamês preso a um elástico.
Maduros de sangue, os animais regressam.
Maravilhosos bonecos, eles são.
Houve um tempo para mim.
Eu agora sou ilustrador.
As pessoas nascem, trabalham e dão
que fazer ao homem dos Correios.





Caramulo, dia 4 de Agosto de 2006





4 comments:

Paula Raposo said...

Achei tudo isto muito triste. Mas é a minha modesta opinião. Um abraço para ti. Não ligues aos anónimos, que eu faço o mesmo!!

daniel abrunheiro said...

Isto é triste, realmente. Mas não mata. Anónimos, não. Gosto de gente: com nome, presença. Só gosto de gente como gosto de bichos: a minha gata, a galeria de cães que me ampararam as usuras do amor, os amigos.

Manuel da Mata said...

Olá Daniel,
É só para dizer que estou vivo e que te continuo a ler com atenção.

Um abraço,
Manuel Barata

daniel abrunheiro said...

Olá, Manel: sempre bem-vindo.