Wednesday, August 23, 2006

Fado da Monarquia com Prólogo a Avisar do Pontapé na Placa

Prólogo a Avisar do Pontapé na Placa

Não tenho levado uma vida de que possa dizer-se: “Ena , mas caganda vida!”
Verdade verdadinha. Mas é a minha vida. Isto sempre me pareceu evidente. Não era evidente, porém. Algumas (muito poucas, felizmente) pessoas acharam que o evidente era a minha vida ser parecida com a deles. Igual até, se possível. E eu disse assim: “O caraças!” Não, disse assim: “O carago!”. Não, não, não: para falar verdade, disse(-lhes) assim: “O caralho!”.
Com mais planas palavras, tenho sido vilipendiado por duas ou três almas que, vencedoras de um campeonato moral só delas, acharam, em má hora (para elas), que poderiam dizer-me isto e aquilo.
Não podiam. Não podem. Levaram na corneta. Por palavras. Por enquanto, por palavras, já que uma dessas pessoas está ainda sujeita a engolir a placa a pontapé.
Imaginemos, por exemplo, que um gajo se droga na veia. Ou pior: que é empregado bancário. Ou que a mãe desse gajo frequentou, entre o Verão de 1987 e, digamos, o Inverno de 1994, a parte de trás do pinhal em frente à fábrica de celulose. Pensemos todos: que caraças/carago/caralho temos nós a ver com isso?
Não temos. Podemos ser católicos e ter muita pena. Podemos ser do budismo e cruzar as pernas (mas só depois de cruzados os braços e fechada a boca). Podemos ser do Sporting. Não podemos é chegar ao pé do drogado, do bancário ou da senhora do banquinho de campismo e dizer-lhe(s): “Olhe que você assim está mal, assim por não ser como eu…”
Aos meus leitores, digo só isto: vou continuar a escrever. De modo que estes textos são para vocês. Eu sei, ninguém dirá: “Cagandas textos!” Direis apenas, talvez, que são palavras de um gajo que vive como quer. Exactamente como quer: isto é, desejando saber querer. Isso, amigos e amigas, ninguém me tira, que eu não deixo. Vai de fadinho para continuar, então. Amanhã há mais. Mais para vós e contra os inspectores cinzentos da vida dos outros.


Fado da Monarquia

(Falado:)

A nossa vida é
mais simples do que um segredo
entontece perde o pé
perde o pé e ganha medo

(Cantado:)

Lampiões casas baixinhas
ruas de mijo de gato
muitas chuvas tão mansinhas
tão nuas como um sapato

Os popós a gasogénio
as senhoras digestivas
volfrâmio e tungsténio
os cancros com recidivas


(Falado:)

A nossa memória é
mais magra do que um cão
deixado à chuva até
que lhe ladre o Verão

(Cantado:)

Tu virás um dia eu sei
como quem não quer coisinha
garantir que eu sou rei
garantir que és rainha

Tu não tardes demasia
que é breve tanto viver
sei de cor eu dia a dia
quanto custa anoitecer.





Prólogo: Caramulo, tarde de 23 de Agosto de 2006
Fado: Caramulo, anoitecer de 18 de Junho e tarde de 23 de Agosto de 2006



4 comments:

Paulo G. Trilho Prudencio said...

"que são palavras de um gajo que vive como quer" - o que sempre suspeitei.
Não é fácil, mas vale, ai se vale.
Que escrevas que eu cá estou para te ler.
Abraço.

Paula Raposo said...

Ora bem! Nem mais. A cobiça alheia é um mal que anda muito por aí, mas o pior mesmo, é quando é disfarçada sob uma camada de verniz que estala logo!! Gostava mesmo de saber porque raio tanta gente gosta de se meter na vida dos outros! E, já agora : Caralho, mesmo para eles/as todos!!

Paula Raposo said...

Só para acrescentar : também cá estou para te ler!

daniel abrunheiro said...

Isso tudo, Paulo e Paula.