Monday, August 28, 2006

Dois Planetas e uma das Eternidades - narrativas e poesia da noite de 25-8-06

1. Dois Planetas e uma das Eternidades

Não posso deixar de sorrir por dentro à ideia de ter feito uma descoberta revolucionária: a de que a eternidade não apenas existe, como existe quase todos os dias. Hoje é caso dela, aliás.
Saí do emprego pelo fim da tarde com o objectivo de comprar comida para a minha patroa, depois de passar pela casa da filha e trazer de lá uma camisola preta para ela. Cumpri o programa, entreguei-lhe os víveres e o agasalho e voltei a sair, livre até segunda-feira. Fiz então a descoberta.
Descendo a pé a calçada rumo à Taberna do Príncipe, assestei o olhar nos cumes da montanha. Já refrescava. Àquelas pedras altas não chega a vegetação trepadora. Chegam as nuvens baixas, acamadas pelo vento agreste. A luz escurecera de chumbo. Parei um pouco para ver aquilo. Depois, rodei para nascente a cabeça: para os longes do vale, duas nuvens absorviam o sol final, torrando de ouro a distância. Aqui e ali eram, mais do que nunca, dois planetas desavindos. E eu era o verificador disso.
Em outra página (em outra vida, direi), já me tinha sido possível o vislumbre de que só a ubiquidade nos permitiria a condição eterna: ou a eternidade da condição: ou a eternidade, pura e simplesmente. E escrevera isso. Agora (ainda é agora, sim), eis-me ali, exposto à névoa e ao sol, contemporâneo até do meu anacronismo, imediato e irremediavelmente longe. Devo acrescentar isto por ser verdade: e muito feliz.
Já não receio. Pode amanhã não acontecer. Pode ser domingo apenas, depois de amanhã. Mas cá dentro (onde sorrio), compreendo a eternidade o suficiente para aceitar que ela volte. E que, voltando, seja alta de mais para que a trepe a vegetação, mas não o meu olhar.



2. Vent’erdade

O vento traz vozes e crianças
e frio
mas pode que só o frio seja verdade
e o resto um verso apenas.



3. Afinal

Susan Newell, residente em Coatbridge, subúrbio de Glasgow, Escócia, matou, na noite de 20 de Junho de 1923, um rapazinho ardina de 13 anos chamado John Johnson. Sentenciada à morte, foi executada por enforcamento. O vento traz vozes, frio e uma só criança, afinal.



4. Alguma Anatomia, mas Pouca, e Algum Circo

Vi hoje um homem de tão descomunais orelhas, que, a cinco metros, me pareciam pés. A dois metros, já só me parecia que o homem tivesse deitado as mãos à cabeça. Diz que, ao contrário do sexo e do tempo, as orelhas não param de crescer com a idade.
Sentei-me perto dele. Gosto de pessoas. As pessoas são como um circo: têm habilidades, praticam truques, vivem sem rede, vão-e-vêm na mesma janela de ossos, pintam-se com as tintas da tragicomédia, acampam em lixeiras condóminas, amam os cães como a bebés hirsutos, dançam de vinho ao som de sax, bateria & acordeão, têm filhos e sofrem por causa da televisão.
Como o homem bebia aguardente, pude observar a meu bel-prazer aquelas orelhas fascinantes. Num arremedo literário que só me fica bem, direi que me lembravam o que não existe: folhas de couve-carne de veios verrumados a broca de berbequim. De dentro delas, tufavam golfadas de cabelo. O nariz seria, não foram as orelhas, grande. Era de um matiz purpúreo e tacto rugoso, sugerindo sem equívoco a prática do álcool e o hábito do escarafuncho. Um pouco muito pouco abaixo, a boca era uma navalhada. Em contraste com a eminência e com o aparato das orelhas, aquela era uma boca mais própria de mulher frígida e consciente disso. Acabava de insignificá-la um queixo tão maciço e peludo como outra cabeça.
Eu gostei muito do homem. E disse-lhe disso. Eu a dizer-lhe isso, e a mulher da taberna assim para mim:
– Escusa de falar com ele, que o homem é surdo. Se quer alguma coisa dele, escreva.
Assim fiz.



5. Tic tic tic tic

O amor é cego.
A memória é o cão do cego.



6. Isto É mesmo Assim

Se queres ser a rapariga de um homem,
sabe que ele só quer ser o rapaz
de uma mulher.

7. Cartografia

Segue com o dedo o mapa do corpo
da mulher que foste capaz de trazer,
este sábado, para casa.
Tens até às dez da manhã de domingo para
identificar as cidades: os homens antes;
e os rios: o amor dos homens antes,
pai dela incluído.
Tocarás, assim procedendo, curvas de nível
traidoras de elevação: o acne dos sonhos,
o tabernáculo sacrificial da vagina,
a cordilheira ainda infantil das vértebras,
a flor preta do ânus, os pés vulneráveis,
a mão do anel.
Como os mapas, as mulheres são
a cores.
Tu, masculino, exercerás
o teu daltonismo digital.
Sentirás a tua vida reduzida
à escala.
Sucumbirás ao atlântico do azul
dos olhos que ela abre, cinzentos.
Recolherás então o dedo,
são as dez da manhã,
ei-la que enrola o mapa e te
deixa com um beijo mas sem
azimute.




Caramulo, noite de sexta-feira, 25 de Agosto de 2006

4 comments:

Paula Raposo said...

Sabes, Daniel?! Sublime!!

daniel abrunheiro said...

É muito gratificante receber essas palavras, Paula.

Paulo G. Trilho Prudencio said...

Caramba Daniel, nem sei que te diga: brilhante, brilhante. Tão digno... ufa.

Paulo G. Trilho Prudencio said...

Estive a reler: genial; das melhores coisas que já li; subscrevo a opinião da Paula: sublime. O 1 não destoa, mas do 2 para a frente...