Monday, August 21, 2006

Caminha de Ferro

(O leitor/espectador é confrontado com a visão de uma gare de caminho-de-ferro; varrida do vento, água nas extremas da plataforma; passa gente, pouca, nas costas deste Homem de Gabardine Cinzenta, que diz/recita:)




Não tem importância a mãe.
Importante é a viagem de comboio
na noite de chuva.
O pai onde não anda?
Rola o trem disciplinado
ensinado o camareiro
que aponta lugares numerados
o vagão-bufete
o mijatório.
Digo:
a água eléctrica
tão fria sempre
da torneira vermelha
das estações terminais.
Ai caraças!
Por que não chamam nunca
iniciais
às estações?
Comboioutono, ferroverão, carrilinverno,
vera prima mágoa minha.
Eu durmo estendido
os ossos de arame
de frio encardido
haja quem miame.
Gosto de farturas.
Tão oleaginosas.
Nuvens são alturas
de água-de-rosas.



(O Homem de Gabardine Cinzenta cessa a recitação; adopta um ar confessional:)



Por outro lado, isto é mesmo assim. Uma pessoa faz-se ao caminho, tempera o desaçúcar e o salitre, diz que não a uma mortalha marraxeque-careca, ou diz que sim, ou vai para a caminha. E, aí, então, morre para nascer, se tal vos não ofender.

Caramulo, noite de 18 de Agosto de 2006

3 comments:

Paula Raposo said...

Às vezes sinto-me com inteligência a menos, se tivesse que interpretar por escrito o que li, demoraria muito tempo. Mas chegaria lá...

daniel abrunheiro said...

Confesso, sem problema, que também me sentiria perplexo no caso (felizmente apenas eventual) de ter de explicar estas coisas. Explicar no sentido de ser este ou aquele o sentido. Quando escrevi, tinha um rumo. Quando reli, já tinha muitos outros. Assim aconteça com cada leitor, é o mais que posso esperar.

Paulo G. Trilho Prudencio said...

Apreciei muito as confissões de ambos e... sorri com muito gosto. Bem hajam por serem assim...