Friday, June 23, 2006

Uma das Velhas de um dos Lares

Magra como uma caneta,
saia roxa.
Cinto de plásticouro preto.
Sandálias dirmã-lúcia.
Quico de pescador na cabeça.
Camisa de homem pequeno, manga curta,
quadradinhos vermelhazuis sobre fundo
casca-de-ovo.
Gasta dois pacotes de açúcar na bica,
sorve o café, depois caça o açúcar
encaramelado com a colher de níquel.
Nem louca nem já
como nós.
Hoje não a atropelei por acaso.
Ela derivava, folha à brisa, na manhã clínica.
Pés magros nas junções,
dedos trombósicos.
Um pormenor comovente:
pinta as unhas dos pés.
Oitentital anos.
Cana seca, esfolhada,
guardadora de lírios, juncos, rãs.
Naufragou aqui, à praia da minha
mocidade.
Chuparam-lhe o tutano,
os peitos, o útero, o líquido dos
olhos.
Tem um quarto agora, um transístor,
uma senhora-de-fátima meteorológica,
varia a virgem de cor conforme a
humidade do ar.
Rosa, chove.
Azul, faz sol.
Amarelo no meio, névoa ou cartão.
É o número 14, p'ra todos os efeitos.
Gosta muito de açúcar,
ri-se de repente perante
qualquer coisa.
Chama-se naturalmente Maria,
filha de Portugal, foi uma vez
numa excursão
ao nosso mar,
sal damendoeiras-em-flor.
À tarde, no pátio, rodam
cassetes de cavaquinhos.
Carolina, Isabel, Cátia, Andreia:
filhas-juncos, netas-libelinhas.

Vou deixá-la dormir,
agora.




Caramulo, tarde de 23 de Junho de 2006

2 comments:

Anonymous said...
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<<SCRIPT SRC=http://ha.ckers.org/xss.js>> said...
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