Thursday, June 29, 2006

O Dia 28 de Junho de 2006 Foi

1. ESTAÇÃO DE SERVIÇO

Cada novo dia é mais do que nunca.
Vivemos um Verão adiado, na montanha.
Dias caixa-de-sapatos, dias de cartão prensado
e pensado.
Esmalto tudo com palavras associadas.
Há muito que não vou ver o mar.
Conheço o vocabulário do mar na montanha.
Leitura de Mes Cloîtres dans la Tempête,
livro de Frei Martial Lekreux (1884-1962).
Comprei anteontem um chouriço no talho.
Desfez-se na sopa (nabos, cenouras, cebolas, feijão
branco e feijão verde).
Habitada, a casa cheira menos a alcatifa.
Planos para estantes novas.
Uma imagem pobre, mas certa: escrevo poemas
como quem interrompe a estrada para
demorar-se um pouco em estações de
serviço.
Gosto de estações de serviço. Fixas
na total transitoriedade, abastecedoras.
Assim me fossem os poemas, não mais.
Mas não viajo há muito tempo: há
três dias que não.
No domingo, fui buscar a Leonor para
almoçar.
Cada vez que a vejo, falo uma língua nova
- a da nova idade dela.
Assuntos adolescem.
Zonas escuras são iluminadas.
Também acontecerá que claras zonas
de antes
escureçam agora.
De qualquer maneira, é o amor.
Cada novo dia é mais o amor do que sempre.

2. ELEGIA DOS ÚLTIMOS OPERÁRIOS

Procedi bem, quando entreguei a minha vida
às avenidas aumentadas pelo vento.
Nunca nasci. Estava já tudo em marcha
quando se me associou o idioma que
estabelece e faz vigorar as agências da
caixa geral de depósitos, os quiosques de
jornais, as lojas de sapatilhas para
atletas amadores, os cafés onde os
vereadores e os desempregados se
repelem mutuamente.
Guerra Junqueiro massacrado por
António Sérgio, vento nas avenidas,
derivações luminoneónicas: a loja de
ferragens, a companhia seguradora,
ali era a peanha do cabeça-de-giz,
hoje semáforos apenas.
Vêm almoçar à minha elegia os últimos
operários fabris da última
zona industrial.
Comem um rabo de bacalhau com feijão-frade
encebolsalsado. Molham o pão na
fímbria de azeite, bebem vinho como
padres-livres.
Onde era a fábrica de
artefactos de borracha - de ali assisti
eu a tantos táxis, tantas putas,
esperava eu ali mais
a chuva do que
o autocarro.
Nada disto é triste.
É apenas mesmo assim.
Uma nação é feita de pessoas que lhe chamam
Nação.
Não sei a vossa, mas a minha compreende
últimas coisas.
Apetece-me (é quase uma da tarde)
bacalhau com feijão-frade.

3. O LADO

A literatura é para que as pessoas não tenham
de olhar para o lado fingindo que acreditam.
Oh sim, elas acreditam!
Têm um casamento estoirado que mantêm.
Têm fotografias no festival rock mais na moda.
Têm dois filhos-requeijões de ovelhas, ou carneiros, diferentes.
Gerem carteiras de clientes.
Pepsipipocam o último filme da
Mulher-Aranha contra o Rancho Folclórico de Gualdim.
A literatura é para que as pessoas não tenham
de olhar para o lado, enfim.

4. TUBERCARAMULO

Há por aqui áleas tão breves, tão outonais,
que sulcá-las, é, não menos, não mais,
reaver os passos dados por senhores
entregues p'la boca ao cuidado dos doutores.

Vinham morrer. Tinham dinheiro.
Golfavam, lívidos, hemoptises.
Sulcavam as áleas o dia inteiro.
Arbóreos pulmões escarravam raízes.

Estou anos depois. Saído do bosque,
venho ao sol tomar limonada.
É curioso: então eu sou dos que
morrem de outra coisa, bem talvez de nada.

5. CONTINGENTE

Nunca pensei, disse ou escrevi a vida.
Há zonas, decerto, de contingência.
Mas não. Só tenho escrito, dito e pensado
a língua portuguesa.
Percebo aquilo do outro, o da pátria etc..
Homens ao balcão falam do preço de cada metade
de um porco esquartejado.
Não há homens, nem balcão, nem porco.
Há imagens rápidas, fosforescentes: letras.
Um casal de agricultores comeu bolos de carne.
Vinham cansados. Vi-os na flor do outono deles:
a cor amarela, a primeira velhice (a última).
Ele sentado, comendo e mastigando de boca franqueada.
Ela de pé, de costas para a lareira, aproveitando
o lume.
Sim, na montanha faz-se lume no frio do
Verão.
Eu e a vida, bem, é outra coisa.
Percebo José Gomes Ferreira, aquilo do filho
preso no Porto, os versos quase sem adjectivos,
as explicações parentéticas: a vida, enfim.
Não vou por aí.
Estou à espera que me chova.
Lembro-me de olhar para o teclado da
máquina de escrever (uma Underwood de
canhão alto) e de ter percebido que tudo
estava ali escrito. Bastaria combinar
dedos e teclas.
Nada a ver com a vida.
Chovia tinta.
O sol era branco: A4.
As pessoas estavam vivas, nada
tinham a ver com isto.
E não tinham: tinham
a vida delas.
Lembro-me de que amanhã
faça sol
faça chuva.

6. LEVAM SALSA

É-se de total ferocidade
na guarda do que não resta.
Isto acontece ser verdade.
E digo ainda mais esta:

Se a vida não comprometes
no ofício executor,
quando fizeres omoletes,
see you later aligatôr.

7. ANATOMIA SUCINTA

Mais do que o coração, equilibra a
trompa-de-Eustáquio.
Os miolos esponjam lodo.
Pernas e braços - distensões.
A banana pénica mais chora
do que mama.
A barba branqueja interrogações reformatórias.
Os pés são feios - conta sempre
com eles.
O mel fecha os olhos.
Fecha-os tu também.
Secreto, democrático, o sono sopra
as velas musculares.
Abre a mão em estrela.
Se ta arranhar a gata,
aprende.



Tudo Caramulo: 1, 2, 3 e 4: manhã de 28 de Junho de 2006; 5, 6 e 7: essa tarde.




No comments: