Tuesday, June 20, 2006

Lisboa para o Corpo nº 1995

As coisas que foram e as que são
- todas por aí, em todos os corpos.
Só quando digere, é concreto, o meu.
No resto, esparso como os vossos.
Expu-lo já à chuva lateral
em paragens de autocarros e
estações de comboios.
Em pastelarias matinais, senti.
Em cinemas, perdi
o filme em proveito
da memória.
Vi repetidas, reactivadas, algumas emoções
outrora minhas, agora nos olhos do
caixa do banco, no casaco hirto de esterco do arrumador,
na estátua fervilhante de pombos
que exclama a praça.
Deixamos filhas em toda a gente, Fernando.
Lembrar-se-á do que fui,
um novembro, o homem
que vendia pires de vísceras de
passarinhos?
Conversámos um pouco, quase nada.
A mulher desse inverno levou-me
leite, uma agenda com nomes de
outros corpos, um bilhete de autocarro.
Ou de comboio, hoje não sei.
Fui concreto digerindo passarinhos.
Abandonei o homem-pires
à sua sorte.
Os dedos dele, gordos de molho.
O olhar invisível dele, amarrado
pelas cordas da chuva à estante de vidro
onde garrafas explodiam de ouro
e demandas de esquecimento.
Uma mulher-polícia tinha tirado
o boné e compunha o cabelo, na
praça da estátua.
O corpo dela, cinzazul, cumprindo
horas extraordinárias.
O corpo dela exilado na cidade capital,
telefonando à noite para a província
onde o namorado seguiria olhando com os meus
olhos, na caixa do banco.
Na manhã da pastelaria, eu ficava.
Pensava nos barcos brancos.
O corpo ficava na pastelaria,
eu embarcava.
Era na Rocha Conde d'Óbidos.
Os monhés vendiam bifanas numa rulote,
eu largava a barra.
Crucificadas em pleno voo, as gaivotas
gritavam como se as capasse
a cutelaria do vento.
Eu passava meses nórdicos em alto-mar.
Na pastelaria, um jovem gordo,
manuseador de massas tenras,
oferecia cafés de borla ao meu corpo.
No barco norueguês, eu era
contemporâneo dessa abordagem nédia.
Insisti em pagar os cafés, o gordo
fez boquinha-de-cu-de-galinha,
saí e não me encontrei,
rumava longe o barco branco.
Novembro tinha rendido as
lanças chuvosas, Lisboa era
uma louca mansa derrubada
sobre a própria saia de cal.
As minhas coisas encontravam-se
umas às outras, sem que as contasse
o meu corpo.
Voltava-me quando lhe dava de comer.
Sopa de nabiças, croquetes de carne, bifanas.
Homens negros algaraviavam sem latim
dentro de cabinas telefónicas.
Tu ficas por aqui, eu volto logo.
Combinava hora e sítio com o meu
corpo,
partia.
Tudo partia. Tudo se partia.
No sopé da Glória, um sportinguista
vendia garrafas de cervejas a 150 escudos,
não era caro, havia pípechô.
Ele era seco, alto e Fernando.
Ele admirava-se de mim, tão
transparente eu aparecia.
- Deixei o corpo por aí -
explicava-lhe eu.
- Ah - compreendia ele.
Suponho que muito gostaria ele
de fazer o mesmo, mas não
podia, estava
muito preso ao trabalho, muito preso
às duas filhas de diferentes duas
mulheres,
vivia sozinho com as filhas na
cabeça.
O sol era o mesmo nos Restauradores
de quando Fialho
vinha sentar-se numa cadeira na
Clássica.
Vós sabeis, o do País
das Uvas, o d'Os
Gatos.
Cheirava a pólvora carbonária,
a folhas amarelas de António
José d'Almeida,
a país piolhoso, a Palace.
A minha esperança desse 1995 era
não reencontrar-me com o meu
corpo.
Vogar, só. Vogar só.
Eu hoje sei que não é assim que
as coisas são.
O corpo volta sempre ao sítio
combinado.
Quer ingerir e digerir passarinhos como
uma estátua.
Faz-se praça de si
mesmo.
Eu entendo-o, comovo-me
até.
Estamos os dois um pouco
envelhecidos.
Eu não disse
envilecidos.
Somámos os dois tempos,
eu e ele,
e a soma é 2006,
20 de Junho.
Não é muito.
Não é de mais, ainda, já, outroragora.
E não é Lisboa,
já.
É outra reunião.
Agora é outrora quando
se escreve.
Uso a mão direita dele,
ele diz-me piadas porcas
quando a mão esquerda dele
me coça as viris ilhas,
eu sorrio na suspensão
de cristais,
largada a barra,
longe o senhor
Conde d'Óbidos,
longe o senhor
Fernando da Glória,
e convosco é a mesma coisa,
a diferença está no facto de não
escreverdes, de não
sentirdes as bifanas aferventadas
onde era a loja de espingardas,
à boca do Rossio,
onde a estátua, as pombas
e suas vísceras, a mulher-polícia
e a chuva
conciliam,
na aspersão,
o que as coisas foram, são e serão.
É o que faz
pensar em barcos brancos,
espera aí que eu já vou,
corpo.
Glória.




Caramulo, esta manhã, 20 de Junho de 2006

2 comments:

Anonymous said...

Desde o primeiro homem que veio de Portugal

Só de sacanagem

http://www.youtube.com/watch?v=qFo__rR-vIM&search=corrup%C3%A7%C3%A3o

assim é...

daniel abrunheiro said...

excelentíssimo depoimento.