Thursday, December 28, 2006

Canção de Coimbra – IV

Os pássaros mais portugueses do mundo
habitam os céus de Coimbra, não outros.
Disto queria falar-te – e assim farei.
Trata-se de, praticamente, tudo quanto sei.
5 Os telhados são comoventes como lábios
vermelhos de amadas raparigas,
fugazmente amadas e vermelhas.
As casas tapumam humidades e
bolores matrimoniais, atenta a decência.
10 Perversas gatas persas perseguem
os meus pássaros da minha cidade.
Trata-se de um ódio antigo, livresco,
inegociável, plumífero, plumitivo,
primitivo, privativo, asa-bigode.
15 Vejo que tudo voa. Como rápidas nuvens,
como rápidas nuvens de acelerado filme.
Como avariada imagem de televisão,
assim a água do rio: pontuada
de almas-tempos, de peixitos
20 inofensivos e castanhos como pardais.
Digo mais.
Digo a devoração.
Velhas mijam-se pernas a baixo,
ouro ureico que mana de onde,
25 dantes, clara de ovo, desejo e
leite cabeceador.
Velhos municipalizados espumam roxuras,
comentam a angústia do Belenenses,
são atropelados no
30 Largo da Inquisição
por um carro vascular,
cerebral.
Tudo é o mais português Portugal,
na cidade minha.
35 Dentro da caixinha,
a bailarina dança de plástico
a balada do piano de lâminas.
Ao lado, rodando mudo, o noivo
dela oferece-lhe a jóia de seu
40 coração de baquelite,
Olha, tem cuidado com a baquelite.
O senhor Peres consertava relógios:
contra si mesmo trabalhava,
posto que o matou o Tempo
45 sem conserto.
Com uma dignidade inacessível ao
mais catedrático dos doutores,
o senhor Damião d’A Brasileira
trazia o tabuleiro de madeira
50 para rectângulo de bife e mordomia.
Nunca mais se fez dia.
Digo.
Laranjas e frio.
Aquela manhã em que nevou em Coimbra.
55 Februária alegria, 11, 1983.
Branco: tudo branco, sobretudo o
negro pessoal das oliveiras,
o lábio vermelho das raparigas-
-casas.
60 Nevo lembrando.
Espera ainda um pouco.
Deixa que se reúnam os operários
em torno de um manjar de peixe
do rio.
65 Os mesmos – é verdade – que encebolavam
Pardais.
Isso, ao contrário da Guerra Junqueiro,
posso perdoar.
Tinham poucas saídas.
70 Toda a gente.
Ninguém tinha saída, mas era.
A vida não era arcangélica.
A vida não era para repetir.
A vida não era para dizer.
75 E a morte era para ouvir.
Fazíamos papagaios de papel-de-seda,
ao longitudinal rachávamos as canas,
farinha-cola unia o voo português
de nossos brinquedos depois tristes.
80 Da boca das mães mamávamos
a baba nutriente,
naquele tempo ter
quarenta anos era ser tão velho
como a Bíblia.
85 Ainda podes,
naquele tempo,
não ir para a cidade.
Ainda podes
viver aqui,
90 morrer aqui.
O meu peito fala no frio:
a poesia despe.
A minha boca é gráfica.
O meu sexo funciona.
95 O meu estômago sabe a cal,
sob o sol, na ardência de giz
de uma noite mais,
ao frio.
Li sobre a Noruega,
100 empunhei o humilde tremoço,
salões de chá não me são estranhos.
Pés são livros de carne para
ler em braille:
cuida devagar da tua mulher,
105 esse pássaro fendido
pela prestação do sangue,
esse peixe enlatado
pela religião.
Mapas de sangue luminoso
110 como artérias siderais
vistas de baixo pelos pássaros:
os lembrados humanos.
Seus dias, seus anos.
Compulsiva convulsão:
115 a poesia engendra enredos,
não deixa cair, suporta
a cidade.
Por falar nela:
seu cabisbaixo Choupal,
120 território de ciganos
e jogginggays.
Rapazes envelhecidos pinchando
borracha contra um muro de
canas-da-índia.
125 Três homens batendo passadas graves,
raparigas folheando pastéis de massa tenra,
cães mínimos respirando o mesmo ar.
António Sérgio dois anos antes
da neve – nem tanto,
130 ano e coisa.
Floresci sozinho e em casa.
Europa-América e Pedrulha:
todo o mundo.
No ano de António Sérgio (ed. Sá Moraes, capas
135 castanhas como pardais) e do pardal assassinado,
subi ao Clúbio.
Era para dançar e para saber.
O sexo latejava como vinagre na boca.
O melhor (o único) par de calças de ganga:
140 marca Lord John.
Não: marca Spencer & Jones, ou
como é que era.
A entrega – foi aí.
O coração era usado como uma granada de vidro.
145 Luzes, bilhete e corpos ficavam
cheios de sangue, de ninfa-linfa,
de Duran Duran.
E de Kool & The Gang,
não sei se
150 já vos falei nisso.
Zundapavam os rapazes-operários,
tinham desistido dos estudos.
Coxeavam de gema de ovo
as férteis raparigas do meu tempo,
155 tinham desistido dos estudos.
Eu meti-me com
Corrado Alvaro e Leonardo Sciascia:
devo ter perdido o baile,
Mãe: “On n’est pas sérieux quand on a 17 ans…”
160 Devo ter perdido alguma coisa.
Devo ter-me perdido de alguma coisa.
Calma.
Alma.
E substância. Há mais música.
165 E a música soa, sua, deles, minha.
Noite e dia – um ao outro fazia.
Continuaram assim.
Massas de carne e osso volumaram
entregas de leite ósseo, tutano de alma,
170 não, teca-teca, agora,
calma.
Não percas nada.
Não à bala na cabeça.
Não à cabeça na bala.
175 Vale mais suportar
– um comportamento, que
ele há ainda delícias.
Mas as primícias.
Mas a massa tenra.
180 Mas devagar.
Meu Pai ficou sem escola
na República inicial.
Cagava de jacto, e de facto, ameixas verdes.
Corria.
185 E vivia.
Faz toda a diferença, dizer.
Faz toda a diferença, dizer
que vivia.
Não o faz hoje.
190 É um de muitos.
Perdeu ser único.
Meus pais são todos os mortos.
Todos os pombos coxos.
Todos os pombos tortos.
195 Todos os santos roxos e absortos.
Devagar (calma!), recompõe-se
a única qualidade da vida,
cuja é tão filha quão puta –
a memória.
200 E seus lápis de cor.
Molha de lápis tuas noites
como uma pluvial lua.
Respeita teus pássaros.
E, olha,
205 aceita o gato, a persa
perversa perseguidora fêmea matadora.
Nasce, depois, outra varã.
Nunca mais foi dia,
nem manhã.
210 Foi ela.
Poderosa, talca, oleaginosa,
coruscante, viva, maravilhosa:
como desenhos a carvão em
perna de gesso.
215 “A primeira coisa que desenhei,
filho, foi um incêndio.”
Como?
“Um incêndio. Na
minha perna de gesso.”
220 Foda-se.
Foda-se!
Era ele,
gerador de descentes (descendentes)
de
225 alexandres herculanos,
árabes passadas de ouvidor
de músicas sem claves (mas mão esquerda, fá;
mas mão direita, sol)
de piano.
230 Peço perdão de me lembrar tanto.
Sei que respeito, amando afinal,
minha cidade,
seus adelinoveigaspais.
E digo mais.
235 Digo Portugal.
Digo Coimbra.
Suas putas tristes como a
puteza
e como a
tristeza.
240 Sou finalmente, digo eu,
(tantos versos não chegam),
que sou homem
de memória de homem.
245 Filhas?
Sim, bem feitas.
Os olhos no tecto.
Os pássaros portugueses, no tecto,
completamente nacionais.
250 Queres tu que te diga mais?


Nota: a citação do verso 159 é de Rimbaud, tal como ouvi em Léo Ferré




Caramulo, tarde de 23 de Dezembro de 2006

Wednesday, December 27, 2006

Canção de Coimbra – III

A menina, varã, é uma
rosa de leite.
O mundo, como uma água
de jardim botânico, tremula
5 de frio lepidóptero.
A boca da menina esponja-se
ao caramelo da pré-palavra.
Seu sexo é um risquinho limpo:
uma navalhada benigna.
10 No bar, durante a espera, o televisor
rolava assassínios.
Um pires de orelha ensalsada,
uma cerveja alta, um café duplo,
um brandy clássico.
15 Eu tinha decidido agir.
Não mais meu era o pontão de pedra,
nem seus pescadores à linha.
Vascular, cerebral, o velho
transparente cedia à convocatória
20 final.
Seis meses a frio fogo,
os olhos no tecto,
como depois eu próprio,
por outra varã.
25 Passou-se a noite, passou-se a manhã.
Teca, teca, teca, teca.
A sinceridade pulsando na boca.
A marcha marcial dos comboios
civis. Água, pus, luz e anis.
30 A mente à própria contraluz
sua.
O conhecimento fetal.
O conhecimento fatal.
O teca-teca do comboio.
35 A afiação do lápis, mais
sua, ao contrário da vida,
ao contrário da morte,
diminuição.
Faz a mente a mesma,
40 que o lápis,
afiação: emagrece para
ficar.
Sobrevive do leite que
as rosas dão.
45 Não apenas, nunca apenas
a pena.
Florões ginecológicos ardiam
nas montras que o ar, vidrado de
calor, oferece ao púber’omem
50 – ao pobre homem.
Loreto, pedestre regressando,
cornetas e búzios, sininhos e campainhas,
um assobio para a menina,
o frio e a coragem,
55 Loreto, Fábrica da Cerveja,
Fiaco, Estaco, Lobito:
e a menina, ao cabo.
Na Fernão de Magalhães
(onde, dez anos depois, hei-de
60 situar a paragem de
Camilo Ardenas), os táxis e as
putas arrefeciam à nascente
lua dos noctívagos.
O homem da sapataria
65 (depois contava-me tudo)
fazia de taxista lunar
para aumento do salário.
Dizia-me esta puta e aquela
e aquela.
70 Eu recebia as notícias: livros breves,
coruscantes, recados da noite
– e de seus gelos com collants.
Estrelas enferrujavam no céu
inoxidável.
75 Pincéis abandonados
morriam a marta dos pêlos
outra vez.
Os santos – mais os houvera,
menos os ouviria quem
80 nos fazia.
Descendo, ainda.
Recta da Adémia, seus
ventos laterais,
suas ínsuas, canas, tangerinas.
85 A chaminé subindo no ar
como um míssil de pobres.
A ondulação salina de eucaliptos lavando
lavanda. E, enfim, Antuzede:
o padre italiano,
90 os comedores de ameixas verdes,
o prestígio do Avô,
a morte estabelecida
como um prestígio,
uma lotaria,
95 um caramulo antecipado.
Os meninos tuberculosos
davam vez às caixas brancas,
dlim-dlão, teca-teca.
Longe, até aqui.
100 O Bolão molhado de
laranjas e cadáveres de
galos.
Os meninos à varanda
perfumada de lenha.
105 Depois, tudo antes e tudo após.
O rapaz que casa com a órfã
ligeira e tetuda como uma cabra,
seus gémeos perfeitos, sua
mácula sexual.
110 Não, não – vive, deixa morrer.
Línguas-de-gato em chocolate de leite,
assuntada, flébil, fala do morto
porteiro.
O irmão (mais vivaz, mais salivoso)
115 enveredou pela carreira de
gentil-homem-de-armas – e
parasitou quanto pôde o
mau Estado e a boa Igreja.
Tem sido feliz, pagou-lhe
120 a vida em géneros.
Sai daí.
Na Estrada da Beira,
ao Alto de S. João:
a primeira videomáquina,
125 o último tuberculoso,
a anunciação da rapariga
que poemava como um lírio
exangue.
Fizeram obras, mais tarde,
130 mais tarde alguns vinte anos.
Hipermercaram, parquestacionaram
tudo, a zona toda.
À Portela, porém, se chega ainda,
pela linha flútil, flavíflua, à chilra
135 amarela água da
Praia dos Tesos.
Minha rapazice, aí.
Meu sport.
Meus dentes da frente,
140 ainda,
antes de Camus,
antes do ensosso esconso escadaril.
Fraga, frágua,
fragmento e água.
145 Acumulação de memórias,
de vários corpos em uma mesma
cabeça – esta.
Visão e revisão – e
cegueira, naturalmente.
150 Não é aqui que fico,
naturalmente.
Não é já o meu tempo.
Nunca foi o meu tempo.
Nunca será o meu tempo,
155 nem há-de ser:
excepto pelo lápis,
pela fornicação
e pela demasia de
laranjas
160 e, de galos, cadáveres
na cheia do Bolão.
Olha, deixa-me ouvir.
Olha, deixa-me dizer.
Isto está tudo certo,
165 correcto muitíssimo,
superlativa é a memória
do quase nada lembrado.
Isto e mais um fado.
Deriva, de novo:
170 à estiva dos lápis brancos,
os lápis-borracha que cegavam
o verdadeiro lápis – a mina
de carvões das coisas sofridas,
vistas, cheiradas ainda, digo:
175 – raparigas, bicicletas, hortas,
urtigas, infectas mortas,
palavras, teca, palavras teca-
-teca.
Na Colecção Fruto Real:
180A Cabana do Pai Tomás,
Coração,
A Ilha do Tesouro,
Robinson Crusoe e
Tom Sawyer.
185 O bolor nesses livros.
Depois de progerar, o
que descia a Alexandre Herculano
guardou uma bota da filha,
como um dedo-múmia,
190 como um pergaminho de talco,
como uma extensão cristalizada em couro do orgasmo,
como um retrato dela,
varã dele.
Rever o nunca visto.
195 Recriar o não-nado, mas não
nada.
Nunca, apenas, a pena.
À frente, retemperarei decerto
o velho amor à palavra-falésia,
200 à pólvora-palavra:
decerto ou talvez.
Há sempre um rumor de rosas.
Bétulas e tosses de gasóleo.
Cabrito assado com grelos,
205 jorrava da gorja do porco
o vinho espesso.
A gente crescia e não aumentava,
senhores
Damião, Fernando, Pedro, Luís.
210 Posso ficar a dever?
“O dever acima de tudo”,
como em Mafra.
Isso foi na orla do sangue,
do rápido corpo
215 (9,6 segundos aos 80 metros).
Passa tudo,
passa quase tudo
– muitos (dos) anos passam:
e, olha-me agora, estou
220 numa pastelaria cuja TV
passa wrestling,
senhores adiposos mimam
o pontapé-na-testa, a barriga-aríete,
a unha-pistola, a chuva-de-sangue.
225 Sim, calma – voltarás.
Voltarão.
Voltareis.
Há mais lápis, aqui.
Pouco, mas.
230 Entro (faz de conta) de novo
para a orelha clássica, o brandy
alto, a espera da
varã primeira.
Está frio, sim, mas há conversas.
235 O néon bate, grená, nos
presuntos enforcados.
Sou amavelmente recebido.
Estão habituados a clientes
de maternidade,
240 seus juros de mora,
sua taxa vitalícia,
sua repetição de gerações.
Tenho um fato decente,
uma frase amável,
245 sou tão jovem
como um pai distraído.
Espera, agora.
Vou falar-te de Coimbra.
Penso não ter dito ainda,
250 sobre o assunto, quanto baste.



Caramulo, noite de 22 de Dezembro de 2006

Tuesday, December 26, 2006

Canção de Coimbra - II

Outro dia. Mesmo lápis.
A noite perdoou-me tanta memória.
O problema é o dia novo, o velho
lápis. Sábados à tarde, ela,
5 na Guerra Junqueiro.
“Éramos tão novos, largávamos a
Imaginação.”
Mas não o desejava eu saber,
se depois viria ela
10 a ser minha mulher,
ou eu homem dela.
Sei – sei e não faço
como a noite: perdoar.
De muito te vale. Disto:
15 de nada.
Sobrevivi, os olhos no tecto.
Minha Mãe ardia de febre
no hospital.
Ásperos lhe eram os lençóis,
20 a de tule viuvez esgazeada.
As glândulas, degredadas,
degradadas, segregando
segredos, licença, pus e lágrimas.
O medo da morte alheia,
25 tão próxima que própria.
E a música sempre: tão própria sempre
como a morte (Conan Doyle,
Simenon, Agatha e Alberto Moravia).
Por minha conta, entrei em
30 Corrado Alvaro e Leonardo Sciascia.
Entrei tanto, que ainda hoje
me dá trabalho
sair.
A luz tinha um coração dominical:
35 que pulsava, fresco, na sombra
intestina das igrejas.
Saiam mais catorze cervejas:
meu Pai acordava tão cedo,
que nem noite tinha vindo ainda:
40 perdido, partido boneco.
Um rasto de crianças sobra dele.
E centenas de versos.
Quando havia ainda confeitarias,
o mercado ululava de hortaliças,
45 verdes eram tão as manhãs como as
couves.
Floria, pesponto de amarelo, o honesto
grelo.
A prata chamava-se peixe – e
50 pulsava os assassínios marítimos,
sábado de manhã,
Com minha Mãe:
D. Pedro V.
Do outro lado, a antiga Brotero,
55 depois (agora) Jaime Cortesão,
as leituras nocturnas,
o susto de não saber.
Nós crescemos e não somos mais altos.
Nós comportamo-nos: nós suportamos.
60 Torna-se pedra o que madeira foi.
Vinhas geológicas dão um vinho sensato.
Bélgica mártir na I Grande Guerra.
Varrida de vereações, a estátua a Camões
passeia pela cidade exilada, exilada.
65 Ainda não era o meu tempo
e
já não era o meu tempo.
Começaram a casar-se e a morrer.
Filhos nasciam entre funerais.
70 Tenho fotografias evidentes.
Mandei por carta o meu amor
– mas havia greve dos Correios.
Amei sempre contra mim
– e contra a minha cidade.
75 Se eu começasse agora.
Se começássemos todos agora.
Café do Infante,
Pastelaria Marques.
Quiosque da Sereia.
80 Café Atenas.
Feira do Espírito Santo.
Vale de Canas e fodas.
São Romão.
Roxo.
85 Eiras.
Pedrulha.
Adémia.
Fornos.
Tovim.
90 Celas.
Universidade e S. José.
Lenta demora rápida:
meu cérebro congeminando contra
meu coração.
95 Meu Pai contra minha Mãe.
Minha filha contra minha filha.
Meu mesmo sangue básico
contra seu mesmo saneamento.
Outra noite. Mesmo lápis.
100 A mesma ferida.
Uma solidão grená,
hepática.
Falo-te de quando,
pela de Montarroio acima,
105 ia às sapatilhas de marca.
Depois, em 1981, os oito
volumes de Ensaios
de António Sérgio.
Na Finisterra, por seiscentos paus,
110 a Prosa do Observatório
de Julio Cortázar.
Tanta generosidade, a desse
velho transparente que comigo
seguia pensando no outro, no que
115 desceria, pela última vez,
a Alexandre Herculano,
caminho da Antero de Quental,
210.
O coração do transparente
120 era móvel e belo e desolado.
Como o Pólo Sul.
Está na terra, a sul do sol,
agora.
Eu conservo-o quente,
125 abafado em neve
Agora, saio.
Bordo o paredão da Penitenciária.
Não longe, o Botânico entristece
em latim araucário.
130 Um cãozito preto,
gordo como um ovo,
corre-me aos pés,
bêbedo dos odores da flora.
Rua dos Combatentes a baixo,
135 caminho do Safari.
Depois, a dos Navegadores em
cotovelo com a de Moçambique:
leite e bolachas e sangue e carne.
Tanta ilustração, tanta futura
140 derrota.
Não amo, mas estou vivo:
nesse cotovelo, nessa barriga,
nesse dia em que a Académica
dá três ao Vizela.
145 Nuvens rápidas omoletam o sol,
funcho escarcha anis,
os beiços bordados de açúcar,
a suave embriaguez de
fim de tarde,
150 perante Santa Cruz.
Luz, anis, Cruz.
Lágrimas, licença e pus.
Era no Café da Alexandrina,
depois Carocha, hoje João Brasileiro,
155 que Adelino Veiga e os outros
tantos ancestrais de meu Pai
reuniam a voz associativoperária.
Morriam novos, uma flor de rubra espuma
na boca tísica.
160 Em 1920, o Caramulo nasceria
para enxugar o sangue
dessas bocas temporãs
anzoladas pela morte,
a transparência, a última aceitação.
165 Vivo dessas ruínas.
Ainda estou no Pratas
(sandes de cavalas e tinturas):
só depois desço a
Couraça de Lisboa
170 para receber,
merecidamente,
em plena face,
o bofetão de oiro
do sol no rio.
175 Laranjais auríferos, de lá.
A Machadinha, as Lajes e
Santa Clara.
O meu coração estilhaçado
na cidade de granadas de vidro.
180 O meu puro amor à
quietude dos anos que
não pude viver por
falta de corpo.
Pois que muito cedo
185 me começou tudo a ser
Não é mau nem bom:
mas apenas um modo de
vida.
Vocação.
190 Eu também sou
um homem na cidade.
Eu posso.
Eu também comi frango na
Rua do Sargento-Mor.
195 Couracei-me de letras
perante os senhores
Damião, Fernando, Pedro, Luís,
n’ A Brasileira.
Depois
200 comecei tornando-me
antes.
O coração tinha uma luz dominical:
pulsava, quente, nas noites,
altas como igrejas.
205 Em Julho de 1984, o
meu peito foi verde
contra a terra:
de febra fervia, forte
e entregue.
210 O homem da sapataria
contava-me novidades
tiradas todas
do Correio da Manhã,
pela tarde.
215 Socorriam-se mutuamente,
desde Adelino Veiga,
os artistas.
Entrei no sol, toquei a glória,
gostei de recompor
220 a II Grande Guerra
no mofo claustral
da Biblioteca Municipal,
frente à Polícia.
Se a isto volto,
225 é para que, revivendo, viva.
Crianças nascem, põem-se à espera: seu pensamento é
lacrado e feroz – e inexorável.
Homens morrem, depõem-se a si mesmos como a
estátua a Camões – e, como ela, demovem-se (exilados,
230 exilados) por toda a cidade.
A minha cidade.
A minha estatuária.
A minha mente quente e vária, ao frio exposta
(duas pedras de gelo,
235 uma para o cérebro, outra para o coração).
O rapaz corre ainda o seu monte privado,
colhe ainda os espargos, saúda sob os cedros, ainda,
a fria fartura das cheias do Bolão.
Cidreira e Geria, a mãe da Anabela assassinada por um
240 carro, esse beijo morno e terrífico
na bochecha da menina tão
inteligente.
Voltarei sempre, como faz, aliás,
meu Pai e o outro que desce,
245 caminho da Antero de Quental, 210,
a Alexandre Herculano.
O céu da noite,
arvorenatalizado,
musga frio,
250 afinal amo – e vivo, afinal.



Caramulo, tarde de 21 e noite de 22 de Dezembro de 2006

Sunday, December 24, 2006

Bem-hajam

Quero para todos vós uma vida boa, a começar hoje.
Calha ser Natal, mas em Janeiro vou querer(-vos) o mesmo.

D.A.

Friday, December 22, 2006

Canção de Coimbra - I

Assim como entre o frio e o corpo a roupa,
o tempo entre mente e mundo.
Assim, mais que seja, vai sendo – e é.
Vale tanto uma costureira quanto um leão.
5 Separa-os uma televisão; sábado à tarde,
ronrona o gato aos pés do fogo, um vento
interior mareja os cortinados, louças
e molduras resistem às gerações.
Cercas de ferro resguardam jardins lunares,
10 ao longo das áleas de tijolo. A viuvez
assoma de gaze às portas-janelas.
Na leitaria, mulheres vaquejam vocábulos,
as largas ancas estreitam esquadrias de estábulos.
A intenção persistente sob a medrosa palavra.
15 A pedagogia de cada doença: e a infantilização
da morte.
Algumas famílias catolicizam o ócio no parque.
Bétulas molham de sombra as tardes escuras.
Rapazes pincham borracha contra um muro.
20 Um homem feliz desce do eléctrico em
andamento – em andamento ambos.
Órfãos de cinquenta anos pedem moedas
no parque de estacionamento, rentes
à pomba que coxeia de ácido os pés
25 bambos.
Das cozinhas chega um cheiro a lápis,
dos sótãos uma sexualidade manual
de estudante pobre.
É sempre muito delicado o olhar volvido
30 às novas urbanizações, fornidas já
de contrafacções ciganas e hamburguerias.
Um homem escreve a giz de tabaco
uma elegia pulmonar, ao ar
livre – quem sou, ainda
35 ?
Sobe-se pelo lado do colégio das freiras,
pare-se em segredo uma ode prenhe
de licença, pus e lágrimas.
Tão pouca gente sempre, desde sempre.
40 No outro Verão, no cloro azul da
piscina municipal, éramos todos,
e todos éramos
tão pobres quase como hoje,
ainda não era este Verão rápido,
45 esta queijaria de derrotas e soluços.
No outro Inverno, o que não
sobrava em roupa não
sobrava em frio, nossos eram
o fogo e os pés do fogo,
50 dormiriam depois o gato (o leão) e
a costureira.
O tempo é gerúndio para os vivos
– os que recordam.
Arranjei sempre maneira: sou
55 uma oficina.
Quando o medrar dos ossos turvou
o coração, bosques abriram-se
de churrasqueiras batidas pelo fado
e pelos fadistas.
60 Espesso, como de gorja de porco, jorrou
o vinho, maila
sua orfandade material.
Alguma vez se começa a desbocar.
A reboque, a boca,
65 mais seus estragados dentes
de sorvedor de mulheres e açúcares.
Já então o frio, já então
o corpo.
Em outros lados, soube depois
70 das repetições – os homens iguais,
as viris mulheres, os toldos
frapejados pelo mesmo vento de
cortinados e sábados.
Ele descia a Alexandre Herculano,
75 descia das janelas o exercício de piano,
subia da gasolineira um éter árabe.
Ele descia a Alexandre Herculano
com largas árabes passadas musicais.
Do outro lado, sauna e ginástica
80 para bancários e professores.
Ele era tão jovem como a
vontade de fazer um filho a
uma mulher que soubesse subir,
como ele descia, a
85 Alexandre Herculano.
A viuvez assomava de gaze aos
consultórios-janelas.
Ele passou,
extinto gerúndio – participe-o, agora.
90 É o que faço.
Todos os ricos devem entretanto ter
morrido, posto que as vivendas
de carmim tez albergam hoje
repartições, serviços, vacinações.
95 Sobe-se da República à Cruz – e é
isto que se vê, devastada a
Sereia onde meios bifes e
alfarrábios fáceis (Conan Doyle,
Simenon, Agatha e Alberto Moravia).
100 Quando de vez se lhe estragou o
dente da frente, suportou o
insulto das gengivas com Camus.
Ensosso escadaril de pau levava
à broca – cuspa
105 se faz favor – para dentro.
Esmaeço e evanesço – ou
de e(r)va nasço.
Explode-me a boca, mas
é só uma pólvora-palavra
110 – tudo o que tenho.
Lá em cima, esperava-o a
mulher empregada.
Ele saltava do andamento,
eléctrico.
115 Tinham ambos uma carne formosa,
compacta de mental fiambre,
porcina, reprodutora.
Eu, não.
Eu estava só vivo.
120 Magritte e Hopper em posters nas montras.
Calhamaços de linguística francesa.
E uma atenção fosca ao rio,
a cuja tona boiavam laranjas e cadáveres
de galos.
125 Militares mordiam bifanas em vãos
de vielas.
Lado algum havia deuses,
Deus muito menos.
Como me foi possível nascer de manhã e
130 chegar tarde?
– Assim foi – vai sendo – e é.
Por dentro da cara, entre
a úvula e o dorso do dente,
a decisão da palavra.
135 Batiam, luscos, os fuscos prédios
seu entardecer de explicadores,
enfermeiras, ourives e
órfãos de cinquenta anos.
Noutra vida? Igual – como um homem.
140 E – como uma mulher – viril.
Descasco meses como a
laranjas.
Como daquela vez em que
pernoitei de vigília ao nascimento
145 de nova varã.
Passou-se a noite, passou-se a manhã.
Motas e artistas zamboavam
na urbanização nova, digerindo
gasóleos e hambúrgueres.
150 Passou-se tudo.
Depois (mas era Novembro, há
que desculpar), desci ao mofo
e à habilidade tússica dos
compatriotas.
155 Como de gorja de porco arrefecido,
vinagrava-se de pluviometria
a frase atlética, o
bolo de bacalhau e a
sandes de leitão
160 (às terças-feiras).
Teca, teca, teca, teca.
Sim, sempre, simpre e trempe:
o fogo, o gato.
Estas coisas não matam mas morrem.
165 Deram um ciclo de cinema italiano,
deram um ciclo de cinema alemão,
serviam pratos de massa arrefecida,
comburente era a gente com nossas
vis vilosidades intestinais.
170 Microtraumatismos da grossa delgada
memória.
Triparia.
E cultura.
Eu já não estava.
175 Nem ele.
Mais santos houvera, não
houvesse tanto pudor na
revelação
– isto
180 – ou uma coisa destas
– um poema.
A música roda em seus gonzos: e
não, não estou a gozar: pode ser
Kool & The Gang,
185 Pois não.
Vassouram a frio as churrasqueiras,
tremem os nitratos no azul-chile
do bairro operário.
Vocação.
190 Evocação.
Como não viver afogado, sendo
setenta por cento o corpo de água?
Toma nota.
Lá no fundo, está
195 a dignidade, mas
tu não lhe digas
nada.
Diz-lhe, tão-só, coisa
alguma.
200 Volta à cidade.
Era na Praça da Portagem:
pombos acidulavam o cagado
liberalismo de aluga-ingleses.
O rio – lá era.
205 Descia a santidade da Rainha,
maila da puta favorita de Dom
Pedro,
o Mal-Passado.
Operários tinham antes fervilhado
210 pelo que a hoje é a
Mendes dos Remédios,
caminho da Póvoa,
caminho da Mesura,
caminho de nada.
215 Que é como quem diz
– Vai pró mar!
Não vai
(antes fosse!).
Como é doce,
220 ter do osso do santo o sal
que mártir foi por Portugal!
Ou então:
“Sim, Carolina, ou i ou ai”…
Não.
225 Antes de outra maneira.
Antes o frio.
Ou, antes, o frio.
É diferente.
Outros custos:
230 um gerúndio custo.
A intenção persistente sob a merdosa palavra.
Não, não. Teca, teca.
Adelino Veiga, soldador
de guarda-chuvas,
235 associativoperário de
antes do João Brasileiro (foi Café da Alexandrina, depois Carocha),
à rasa de S. Bartolomeu,
vai lá tu que de lá venho eu,
mais os breves mortos
240 da instrução nocturna.
Por falar nisso.
Quando no corpo jovem
(um qualquer)
se cerrava o préstito de sangue,
245 o núncio coração
perorava correrias,
pinchavam rapazes borracha
contra um muro,
contra a vida toda
250 que depois, enfim.



Caramulo, tarde de 20 de Dezembro de 2006

Wednesday, December 20, 2006

A História Verdadeira de Maria Lúcia - histª 42 do Anoitecer ao Tom Dela

1
Ainda não estava feita e já se chamava Maria Lúcia. A mãe de Maria Lúcia já gostava do nome da filha que haveria de ter antes ainda de conhecer um homem. E de, já agora, gostar dele o suficiente para com ele fazer uma filha.

2
A mãe de Maria Lúcia nunca gastou romances. Nem de papel, nem de carn&osso. Ela trabalhava na fábrica de cerveja. Sentada perante o écran de néon, via passar as garrafas recicláveis. Quebrava as sujas, deixava passar as limpas.

3
Naquele tempo, o tempo não custava tanto a passar como agora. A mãe de Maria Lúcia tinha uma bata tão limpa como a toalha de comer. Apresentava-se bem, mas não era bonita. Era, porém, um corpo sólido, construído, fértil e – como direi? – eficaz.

4
Havia (naquele tempo havia) muitos homens. A questão era operária, como de costume: a mãe urética, o pai terminal. A mãe de Maria Lúcia esperou sem saber que esperava. E o tempo veio. O tempo veio de os pais morrerem. E ela sem ser mãe.

5
Também não tardou muito. Apareceu um prospecto de baile. Era em A5 e amarelo. Colavam-no pelas costas ao espinhaço dos postes telefónicos, dois a caminho da fábrica. A mãe de Maria Lúcia leu os dois. Decidiu, órfã, ir ao baile.

6
Upa neguinho na estrada
Upa p’ra cá e p’ra lá

e os rapazes bebiam cerveja à pressa antes de convidarem para dançar. A mãe que haveria de ser de Maria Lúcia tinha o nome, só não tinha a moda. Slow down, my dearest. Também é preciso ter calma. Reciclar é preciso.

7
O macho do leite não veio logo. Veio dois minutos depois de logo. Apresentou-se bem. Que já fosse casado, não era informação à altura do vir. Veio e convidou para dançar. Dançaram. Na terça-feira depois, apareceu na fábrica de cerveja pela saída de almoço.

8
Quanto é que tens, o que é que não tens, ouve, a gente faz assim, isto é tudo uma maneira de falar, desde que não se saiba. A mãe de Maria Lúcia soube logo em que é que se tinha metido. E o que.

9
Engravidou sozinha. Um encarregado da fábrica falou com ela. Ela ouviu, mas disse que não. Depois, manteve a casa no casal: cozinha e quarto dentro, retrete comum. Antes de mais 20 anos, dava.

10
Esta é a história verdadeira de Maria Lúcia. Nasceu de um baile. Estudou enfermagem e fez-se. Já teve dois maridos e um filho. Ajuda a mãe como pode, também não se pode dar sempre confiança ao que dizem os velhos.


Caramulo, tarde de 18 de Dezembro de 2006

Tuesday, December 19, 2006

Incisões Plurívocas – um Decálogo Onomástico

1 – Margarida, Tarde na Noite

Chegaste tarde a ti mesma, e agora.
Desnecessita a cidade de tua única magia
– a dactilografia.
Tens o chapéu em o lugar da cabeça,
o único saia-casaco já ténue,
mais vezes vem o inverno que o futuro.
Margarida, Margarida – amarga ferida.
À noite, sais do quartinho para uma chávena.
Viras costas à montra, a rua assobia de
homens casados.
Consultas o açúcar estilhaçado com a colherinha
digital.
Antes que a unha se parta, rói-la.



2 – Mário, Dormindo

Um herbário de sonos – consequência
de dormires como uma árvore cortada.



3 – Demétrio Comprando Cigarros

Podes tão depressa ser letão quão escocês.
Suíças ruivas nascem-te do nada e trepam-te
à cabeça batida pela violência do exílio
económico.
Não percebes o idioma da nossa chuva.
Percebo-te eu, quando me pedes
que te venda uma
paqueta de cigarretas.
Pedreiro és, mas dormes
num quartinho de dactilógrafa
que de menino foi.
Lá longe, deixaste
igual a isto.
De modo que Nietzsche diminuído
e revisto.



4 – Luísa Vendo se Chove

Não chove.



5 – Prazeres, Envelhecida, na Saleta


Repes e porcelana que o Tempo torna papel.
Mijos antigos de inumeráveis idos gatos.
Fotografias que atingiram,
graças a Deus,
o anonimato das molduras.
Algum ouro arrecadado em panelas.
Sopa e fraldas das senhoras da Assistência.
A televisão no volume máximo,
sem som.



6 – Daniel, Só com uma Mão

Aprendeste meia dúzia de coisas.
Sobra-te portanto uma sempre,
sempre que os dedos de uma só mão
abres.



7– Anónimo, Vulgar

Obituas a anulação da distância
entre gesto e objecto.
A mão que a si mesma leva
ao frasco de tinta,
por exemplo,
não leva já:
já está lá.
Quem te revisite a oficina,
lembro e digo,
há-de exumar os gatos fossilizados
na parede sáfara, a sombra
do forno apagado,
os inúmeros sapatos,
como a vida,
sem par.
Não só isto.
Pintas para lá da janela: onde
a oliveira, senhoril senhoria de pássaros, é
gestobjecto dela mesma.
Pintor, pintor: mais do que o
traço de lápis me
interessa a
almofada da mão.
Um óbito é uma oliveira:
frufra-o a passarada
pintada.
Descia um céu de biblioteca,
já cá nos morava antes
de descer.
Subias os olhos ao chão, habitando-o
já, eu sei.
Sei meia dúzia de coisas.



8 – Jaime MorresFilho (fado corrido menor ou tim-terlim-tiritintintim)

Os travões não funcionam.
Vale que é tudo a subir.
A puta que vos parir,
ó almas que tant’ enconam.

Frase prima. E variações.
Saia um filtro mentolado.
Chup’ até cair de lado.
Ganga justa nos colhões.

Fidebéque e fideputa,
d’almirante o foi tamãe.
Santiago do Cacém,
post’ 1X ouvér e’ scuta.

Ó maçã engarrafada,
Cidra t’ eu hei-d’ espumar:
na noite desconsoada
eu não vim para ficar.

Já tenho a Pamel’ ao lume
e a banheira preparada:
História de Franç’ ilustrada
mailo Marat do costume.

(fecha com mi de 7ª e lá menor, as cordas todas, de cima para baixo, peremptoriamente)



9 – Serafim e as Boas Almas

Nutres, com indesmentível amor às cores,
os pássaros presos. Tu mesmo foste
engaiolado de pequenino na orfandade,
talvez também por isso.
Pedes-me um livro emprestado.
E eu não to empresto, escrevo-to.



10 – João André e as Capitais da Europa

És a criança sentada no banquinho.
O teu quarto será quartinho
de renda
para dactilógrafas e letões,
ou escoceses.
Mas deixa-te estar por agora,
folheia por enquanto a enciclopédia,
ainda é cedo.






Caramulo, noite de 17 e tarde de 18 de Dezembro de 2006







Monday, December 18, 2006

Ode Dita

Entre exílio e asilo
me dirás preferência
ou não.
Se afinal presença,
em lugar dos dois,
disseres,
mais homem,
ou mulher,
terás sido,
digo.



Caramulo, noite de 30 de Novembro de 2006

Saturday, December 16, 2006

Savana Sideral

Música das esferas na cabeça sideral.
Olhos não ligados à corrente da mente.
O que vêem fora, não transporta no tempo.
O que vêem dentro, ouve mais que vê.
Um cão magro na estrada cruzando.
Um cão magro na cabeça cruzando.
Pequenos truques usa a alegria.
Chamam-se miríades, os truques.
Estrelas no manto do mágico, sim, mas
o leão é magro como um cão, não
o deixam nunca cruzar a estrada, a
savana.
Música da savana na cabeça crestada.
Espingardas dentro, suicidária, colonial
cabeça.
Gnus riscados como versos feios,
necessários, populacionais.
Capim desenhado em torno da visão.
Sombras permanentes como tinta.
Homens escalados ao sol: seus
poros borbulhando suor e postais.
Tantas mulheres resignadas.
Tantas leoas conformes.
A indiferença rotativa de lá de cima cá
dentro: astros e lances, estrelas,
papéis de rebuçados cujo fabricante faliu.
Depois os homens vestidos de azul
carregando para longe a maquinaria das fábricas.
As fábricas desmanteladas como cubos de letras -
ou papéis de rebuçados.
O mágico que dava rebuçados no natal
das fábricas.
A cabeça - uma esfera na música.
As notas escritas,
uma a uma,
nos olhos dos leões.



Caramulo, noite de 15 de Dezembro de 2006

Friday, December 15, 2006

Uma Catedral na Planície - história 40 do Anoitecer ao Tom Dela

1
A planície não permitia supor qualquer coisa tão alta e tão humana como uma catedral. E no entanto havia uma catedral na planície. Não existia qualquer casario em volta. Era uma vez uma planície. Era uma vez uma catedral.

2
Os especialistas não conseguem concordar uns com os outros. Uns – dizem que a catedral foi mesquita. Outros – que a catedral foi sempre sé. Eu não sou especialista, mas sei a história – até porque a escrevi.

3
Antes de haver catedral, havia a planície. Era um ermo total totalmente enxuto pela fricção dos ventos mais cansados do hemisfério. Os ventos volteavam a dura erva silvestre. As pedras voltavam a cabeça. A Lua acamava-se em banha argêntea. E o Sol torrava de frio aquela solidão toda.

4
Antes de haver catedral, houve casebre. Dentro do casebre, a mulher extirpava açúcar e álcool às bagas espontâneas da terra. Fora do casebre, o homem pastoreava os outros filhos de Deus – cabras, ovelhas, cães e corvos. Corvos, cães, ovelhas, cabras e pastor diziam do silêncio palavra alguma.

5
Um dia, a mulher ficou muito doente. Deixou de falar. O homem pegou nela em peso, deitou-a na cama e saiu de casa. Depois, começou a acumular pedras para a catedral.

6
Quando a noite chegava, o homem fervia leite e dava-o, colher a colher, à boca da silenciosa. Enquanto a alimentava, ia-lhe contando da construção. O homem reconhecia que se tratava de uma obra tosca. “Mas vai ficar como deve ser” – garantia ele com os olhos fixos nos outros olhos baços.

7
Chegou a manhã em que só faltava, lá no topo, colocar a cruz. Havia um brilho duro nos olhos do homem. Também havia muito cansaço no corpo dele. Quem já construiu sozinho uma catedral, sabe do que estou a falar.

8
O homem colocou a cruz no topo da catedral, desceu, afastou-se uma centena de metros e contemplou o trabalho – era uma catedral devotada aos deuses da solidão. Os corvos foram os primeiros fiéis, lá em cima, adejando como tinta permanente num caderno branco.

9
Em casa, o homem encontrou ninguém. A cama vazia ampliava o desamparo do construtor. Sentou-se à mesa, bebeu leite e acendeu o lume. Quando as chamas subiram, pegou num toro e incendiou sem pressa e com método os quatro cantos do casebre.

10
A planície está viva de ventos corredores. Os descendentes das cabras, das ovelhas, dos cães e dos corvos habitam a catedral. De vez em quando, uma excursão de japoneses vem fotografar a obra do homem que, como um deus apeado, me deu esta história – pedra sobre pedra.



Caramulo, noites de 8 e 9 de Dezembro de 2006

Friday, December 08, 2006

Annie Lennox hoje no Anoitecer ao Tom Dela


Annie Lennox

Hoje, no Anoitecer ao Tom Dela, a partir das 23h00, Sandra Bernardo (a voz radiofónica que a Península Ibérica consagrou) dá-nos Annie Lennox, a diva, em mais um dos Filhos da Madrugada. Em 91.2 FM ou em www.emissoradasbeiras.com.

Annie Lennox

1
Hoje, na rubrica Filhos da Madrugada, é a vez e a voz de uma das maiores divas do pop-rock mundial: Annie Lennox. A diva nasceu no dia de Natal de 1954 em Aberdeen, na Escócia. Cantora e compositora, deu cara ao mundo pelos Eurythmics, em parceria com Dave Stewart.

2
Desde 1977 (há quase 30 anos, portanto) que Annie Lennox anda nisto da música. Com sucesso, diga-se. Annie já recebeu altíssimos galardões ao longo da carreira, incluindo as “marcas” Óscar, Brit, Grammy e Golden Globe. Tudo com pleno merecimento, aliás.

3
Em criança, Annie Lennox frequentou uma escola para crianças sobredotadas. Mais tarde, trabalhou numa fábrica de conservas de peixe. Estes são alguns limites que ela não cessa de ultrapassar, numa constante demanda por novos horizontes. Afinal, ela tem uma voz que alcança quatro oitavas. E é bonita que se farta, ainda por cima.

4
Enquanto não chegava a hora da música como profissão a tempo inteiro, Annie Lennox foi empregada de mesa e caixeira de loja. Nunca desistiu, porém. Depois de três anos como vocalista do grupo The Tourists, Annie Lennox formou um dueto famoso: os Eurythmics. Ao lado dela, o músico britânico Dave Stewart.

5
Anne Stewart é uma grande mulher, impressionando pela sua aparente androginia. Fatos e cortes de cabelo à homem reforçavam uma aparência poderosa e nada frágil. Até lhe chamaram a “Grace Jones branca”.

6
Ao longo da década de 80 do século passado, os Eurythmics foram uma presença constante nas tabelas de grandes vendas com singles que se tornaram clássicos da música dançável. Sempre, no entanto, com altíssimo apuro melódico, harmónico e de arranjos.

7
Oficialmente, os Eurythmics nunca acabaram. Mas a partir de 1990, houve, claramente, uma cisão de Annie Lennox com Dave Stewart. Annie partiu para uma carreira a solo plena de sucesso.

8
Falando de números, as finanças de Annie Lennox estão, ao que consta, de muito boa saúde. Dizem que ela já amealhou qualquer coisa como 30 milhões de libras esterlinas. É dinheiro, valha a verdade.

9
Annie Lennox tem duas filhas que resultaram do seu casamento com Uri Fruchtmann, com quem esteve casada doze anos, de 1988 a 2000. As meninas chamam-se Lola e Tali. São as meninas dos olhos dela, naturalmente.

10
Hoje em dia, Annie Lennox continua a trilhar a senda do sucesso. Consta que, entre Julho e Outubro do ano corrente, andou a preparar novo álbum na casa-estúdio do seu companheiro dos Eurythmics, Dave Stewart. O que daí resultar, será, seguramente, bom. Até porque ela é incapaz de fazer mal seja o que for.

(fonte: Wikipedia)

Thursday, December 07, 2006

Tom Waits hoje no Anoitecer ao Tom Dela


O grande Tom Waits faz hoje, 7 de Dezembro, 57 anos. A Sandra Bernardo celebra a efeméride com 14+1 músicas do homem na rubrica Filhos da Madrugada do Anoitecer ao Tom (Waits) Dela. A partir das 23 horas, em 91.2 FM ou em www.emissoradasbeiras.com.
Tom Waits

1
A rubrica Filhos da Madrugada de hoje celebra em cheio o aniversário de Tom Waits, o génio norte-americano da voz de bagaço e da criatividade sem fim. Thomas Alan Waits nasceu a 7 de Dezembro de 1949 em Pomona, na Califórnia. Grande dia para a história da Humanidade, nem menos.

2
Tom Waits disse um dia que preferia ter uma garrafa à frente a uma lobotomia frontal. Pois, naturalmente que sim. Praticante dessa modalidade universal chamada bourbon, Tom Waits transporta a celebrada bebida para as próprias letras das suas canções. O resultado é sempre um brinde.

3
Os géneros musicais abordados por Tom Waits vão do experimental ao jazz, passando pelo rock puro e duro, pelo folk e pelos blues. O resultado é invariável, seja qual for o género: alta fidelidade e altíssima qualidade.

4
E depois, felizmente, Tom Waits canta, toca e grava que não se farta. Waits é, ainda, um instrumentista múltiplo: órgão, guitarra, piano e harmónio não têm segredos para ele. Mais aquela voz única, que Rui Correia, um músico nosso amigo admirou desta maneira: “O gajo não falha uma nota, caramba!”.

5
Sobre a voz de Tom Waits, outra citação, não sabemos de quem, chega também a propósito: “é como se a voz dele tivesse sido imersa em bourbon, depois deixada a secar uns meses numa sala de fumo e depois levada para a rua onde um carro a atropelou.” Está bem definido, sim senhor.

6
Os assuntos das letras de Waits primam por uma atmosfera bizarra em que pessoas e lugares se movem como peixes escuros em águas profundas. Muitas das suas canções são ásperas, duras, incómodas. Outras, porém, são de uma ternura desarmante.

7
As canções originais geraram um autêntico culto noctívago. Muitos outros artistas disputam o direito a tocar versões da arte de Tom Waits. Por exemplo, Bruce Springsteen. E mais um milhar de outros grandes nomes.

8
Nos Estados Unidos, os discos de Tom Waits obtêm um sucesso bastante razoável. Mas é no estrangeiro que ele é mais apreciado, atingindo as vendas o galardão de ouro de xis milhares de vendas. Ainda assim, dois dos discos de Waits já foram galardoados na sua terra natal com dois prémios Grammy.

9
Tom Waits também é actor e compositor de bandas sonoras para filmes. Exemplo: O Rei Pescador e o Drácula de Bram Stoker têm música dele. Por tudo isto, Tom Waits não pode nunca ser visto (e ouvido) como um mero pianista embriagado. Ele é isso e muito mais do que apenas isso.

10
No início da década de 70 do século passado, Tom Waits trabalhava como porteiro num clube nocturno em que actuavam artistas de toda espécie. Waits idolatrava estrelas da música e da literatura como Bob Dylan, Lord Bucley, Hoagy Carmichael, Marty Robbins, Raymond Chandler e Stephen Foster. Quando começou a compor, criou uma mistura única de canção com monólogo que se tornou uma das suas marcas-de-água. Ou de bourbon, vá lá.

11
A carreira discográfica de Tom Waits começou em 1971, ano em que assinou contrato com a etiqueta Asylum Records através de Herb Coehn, que era manager de Frank Zappa. Waits começou então a viajar, apresentando-se nas primeiras partes de concertos de músicos como Charlie Rich, Martha and the Vandellas e do próprio Zappa.

12
Uma relação amorosa muito marcante para Tom Waits foi aquela que teve e manteve com uma cantora já celebrada aqui nos Filhos da Madrugada: Rickie Lee Jones. Amores à parte, registe-se bem registado que Tom Waits, apesar do aspecto desleixado e da nocturnidade evidente da sua vida interior, é um trabalhador incansável. Para nosso bem, evidentemente – tudo para nosso bem.

13
Uma curiosidade: o início da carreira de actor de Tom Waits foi num filme de… Sylvester Stallone. Aconteceu em 1978 e o filme chama-se Paradise Valley. Em Agosto de 1980, Waits casou-se com Kathleen Brennan, que é co-autora de alguns álbuns do músico. Waits reconhece na parceria com Kathleen uma “viragem de paradigma”.

14
Muito mais há e haverá a dizer de Tom Waits. Mas o melhor, definitivamente, é ouvir o homem. A sua obra é vasta e riquíssima. Esta selecção de 14 canções poderia ser trocada por outra e por outra por outra ainda. Para o ano há mais.
(fonte: wikipedia)

Músicas seleccionadas:
0000 Just Another Sucker On The Vine,
0001 Waltzing Matilda,
0002 I Beg Your Pardon,
0003 Alice,
0004 Blue Valentine,
0005 Somewhere Over The Rainbow,
0006 Martha,
0007 Midnight Lullaby,
0008 (com Gavin Bryars) Jesus' Blood Never Failed Me Yet,
0009 I Hope That I Don't Fall in Love With You,
0010 Time,
0011 Hold On,
0012 You Can Never Hold Back Spring,
0013 Telephone Call from Istanbul
e
0014 Christmas Card from a Hooker in Minneapolis.

Wednesday, December 06, 2006

É

Ao fim de um dia ao cabo de uma vida
Dizemos coisas não pensadas bem ditas
Coisas súmulas situações panificadas
Pelo ganho nosso de cada dia

É nosso crédito a mancha de tinta ao longe
A desolação dos choupos borrados de água
Uma linha de comboios que já nem fumam
A volta a casa do casal que mantém a horta

Ovelhas e operários tornam mansos ao frio
Queimam lixo nos pátios de trás as costureiras
É tão sossegado o desespero ainda senhor
Senhor de suas ovelhas seus operários

Ao fim e ao cabo não é


Caramulo, madrugada de 7 de Dezembro de 2006

ABBB

ao meu Amigo Manuel Barata,
pai que é, marido que vai sendo
e poeta que continuará a ser



À porta do talho talha o talhante sua mesma cabeça
Dentro em refrigério vermelheja a carne decepada
Somam estas belezas minha vida contada
O tudo que é pouco e muito e nada

Chega-se o inverno transitam os cães
Transidos de frio pianos de pêlo
Se se nasce homem remédio é sê-lo
Chega-se o inverno já corta de gelo

Nas litografias há correntes d’ar
Gemem os artelhos dos oficiais
Adeus meu amor adeus nunca mais
Gripes podem ser enlaces fatais

O padre da minha aldeia bebia de mais
Cumpri’ a função muit’ oficiava
De dia morava na casa em que estava
À noite não estava de Deus desandava

Hoj’ é outra coisa à porta do talho
Cabritos regalam seus olhos mortiços
Que ele há fiambre presunto chouriços
Três entre si rimam muito chegadiços.



Caramulo, noite de 6 de Dezembro de 2006

Vento e Versos

O vento é apagador de candeeiros públicos, despassarador de árvores.
Devassa, enegrecedor, as calhas, as húmidas vielas da cidade memorizada.
Sempre gostei dele, talvez porque
vento
e
verso
sejam palavras tão parecidas, quase iguais, decerto irmãs, revoadoras filhas,
ambas, da língua que as molha, como faz, às vezes, o luar à água em noite de
vento,
não sei,
apenas lembro.
Certa ocasião, numa cidade de canais de água,
talvez Aveiro,
o vento
surgiu-me pela frente como uma pessoa.
Aconteceu varrerem-se-me as lojas, as demais gentes, o céu e a terra.
Ergueu-se-me o coração, como dizem que a outros acontece na missa
ou no amor.
Se alguma vez me falarem de felicidade, direi
“Certa ocasião, numa cidade de canais de água,
talvez Aveiro,…”.
Onde estou agora, o vento faz as mesmas coisas.
Eu também faço as mesmas coisas.
É certo que estou um pouco mais prático, mais desatento sempre que posso.
A minha opinião é muito respeitada nos cafés: nunca falo do vento, só da chuva.
Em segredo, porém, pratico a arte do voador, do despassarador, do negro.



Caramulo, madrugada de 6 de Dezembro de 2006


Tuesday, December 05, 2006

Histórias 34, 36, 37 e 38 do Anoitecer ao Tom Dela

História 34
LAURINDA À PORTUGUESA


1
Já lá vai a juventude
de mãos dadas à saúde
já não volta a primavera
só bilhete de partida
não há volta só há ida
toda a sala é de espera.

Nas paredes há retratos
roem os cantos os ratos
(quem fechou a porta à chave?)
Laurindinha entristeceu
não sab’ ela mas sei eu
só há céu se houver ave.

2
Quando a chuva dá no mar
vai-se o que é doce salgar
bate no tecto dos peixes
quinta-feira à uma hora
aparece não vás embora
aparece e não me deixes.

A vida é breve é breve a vila
e eu tenho um jeito de senti-la
que não cessa nem com polícia
o corpo é curto vão cabedal
todo o mundo é Portugal
digo-to eu sem malícia.

3
Quem quiser fazer as pazes
traga o natal mais uns cabazes
vinho do porto e bacalhau
as manilhas não são ases
somos todos bons rapazes
nenhum bom rapaz é mau.

Ó país das laurindinhas
das amoras madurinhas
da tristeza oficial
quem de ti nasce nasce só
ao sul da chuva solidó
e tod’ o mundo é Portugal.

4
Não tens lareira tens TV
quem te viu e que te vê
tele-ovelha do Brasil
Cabora Bassa Moçambique
ai que me dá um chilique
quem de ti nasce nasce senil.

Por amor falo tu não duvides
quero tremoços e pevides
vai-se o que é doce amargar
se depois faltar saúde
também falt’ a juventude
nem nós nos vamos chatear.

5
Diz-me tu ó cara linda
qu’ és portuguesa e Laurinda
se a Lua é tua ou não
ao balcão eu desejei
beijos que nunca beijei
e já não beijo ai isso não.

Jogas ao euromilhões
tostões são revoluções
são cruzeiros mares do sul
o dinheiro é uma avezita
que torna a vida bonita
voando dólar p’lo azul.

6
Se tens mortos no armário
tira Cristo do Calvário
sai à rua desentristece
há manhãs e raparigas
não embarques em cantigas
e quinta-feira aparece.

Não me deixes falar só
ré fá si sol si lá dó
não me deixes portuguesa
teu carinho merceeiro
é p’ra mim natal inteiro
diss’ eu tenho bem certeza.

7
Ó Laurinda linda e feia
não deixes a coisa por meia
como se for’ a deitar fora
não esqueças: quinta à uma
como tu não há nenhuma
e eu não quero ir embora.

A gente somos – diz a gente
falando mal e porcamente
e sem querer falar mais bem
Tavira Beja Ovar Sesimbra
Porto Lisboa e Coimbra
e Santiago do Cacém.

8
Não amo a vida o País sim
grelha-se em banha o rim
frige a cebola rucita
e tu Laurinda vai por mim
não há volta só há fim
meia volta cadelita.

Diz o pobre ao remendado
tusso muito estou cansado
como é qu’ eu hei-de fazer?
’ão faças nada, deix’ andar
que o turismo há-de dar
felicidade de viver.

9
Três homens teve Portugal
três mães teve por igual
que alguém tinha d’ os fazer
Camões, Eça e Pessoa
afinal a terra é boa
desde que se saiba ler.

Luiz de Camões ó Laurindinha
drogava-se com sal d’ água marinha
e Queiroz era nós a desejar
que Pessoa fosse só gente
apática indiferente
a impérios d’ ultramar.

10
Posto isto disse tudo
vou ser cego, surdo e mudo
muda tu o teu balcão
ó Laurinda feia e linda
a história não é finda
sem que te mostr’ o coração.

Coração é bomba d’ água
encarnad’ aérea trago-a
suspensa chuva marinha
já lá vai a juventude
de mãos dadas à saúde
vai-se a vida que era minha.

Caramulo, tarde de 3 de Novembro de 2006

História 36
A VINHA DO FARIA


1
Nenhum de nós conheceu o Faria. Devia ter sido um senhor noutro tempo, mas a morte e o esquecimento, às vezes, retiram a senhoria ao nome. Era uma vinha. Chamava-se “A Vinha do Faria”. E já nem vinha era. Era só uma terra no alto do mais pequeno dos dois montes da aldeia.

2
Nem sequer a aldeia é já aldeia. Agora chamam-lhe bairro. Quando uma aldeia se torna bairro, o nome verdadeiro é “dormitório”. Blocos de apartamentos. Andares – da cor do nevoeiro. E vidas económicas – da cor da economia do nevoeiro.

3
Uma vez, os gajos da parte de cima da aldeia fizeram um circo na Vinha do Faria. Era o circo mais pobre do mundo – os artistas só tinham 8, 9, dez anos. Mas o filho da dona da mercearia era o dono do circo. E quis dez tostões por entrada. Eu não tinha. Mesmo que tivesse. Não entrei.

4
O filho da viúva – disseram-me depois que fez trapézio. Pendurou-se de uma corda pela boca dos joelhos. O mais pobre fez de palhaço idem. O cão mijou quando lhe mandaram. Eu não vi, mas quem tinha dez tostões depois contou-me.

5
Isto estava assim tudo muito bem. Mas depois começaram os funerais. Os velhos desapareciam como velas magras. Mas as crianças, não. As crianças eram brutais quando morriam. No exacto início dos anos 70 do século passado, as crianças ainda morriam só por serem crianças. A doença que as levava era a permilagem.

6
Memória rima com história, mas não tem nada a ver com ela. A minha memória e a minha história destroem-se mutuamente as próprias verosimilhanças. Quando havia Vinha do Faria, a minha Mãe era nova. Quereis maior mentira do que esta?

7
No dia 1 de Janeiro de 1974, organizaram corridas para rapazes na Vinha do Faria. Não havia equipamentos nem sapatilhas. Havia ar, terra, fogo e água. Corri na terra ao ar. Corri como o fogo. Suei água. Depois, construíram apartamentos no lugar do circo.

8
Existem alguns recantos da Vinha do Faria que o engenheiro e o dono da obra não puderam, ou não quiseram, obliterar. Aí, cresce ainda o mesmo panasco e soçobra, sobreira, sobranceira, a mesma oliveira. Aquela de onde se pendurou pela boca dos joelhos o filho da viúva.

9
Num destes natais adultos (e portanto já natal nenhum, adulteração só), fui levado a um dos apartamentos da Vinha do Faria. Éramos três daquele tempo – e deste também. Bebemos uma garrafa. Eu lembrei o circo. Perguntaram-me:
– Qual circo?

10
Ainda é viva, a viúva mãe do trapezista. A mercearia tornou-se snack-bar, como bairro se tornou a aldeia. A minha memória tornou-se história. Os prédios – a que ainda chamo novos – precisam de pintura. O rapaz do apartamento da garrafa natalícia jogou no União de Coimbra. Divorciou-se entretanto. Julgo que vendeu o apartamento. Eu não vi. Mas nem precisei de dez tostões para contar a história como se a tivesse visto com estes olhos que a Vinha do Faria há-de comer.

Caramulo, tarde de 6 de Novembro de 2006

História 37
BELEZA NEGRA (Black Beauty)

1
Talvez as coisas tivessem sido muito diferentes, entre outrora e agora, se o meu Pai me tivesse comprado o cavalo negro que, aliás, nunca lhe pedi. As meninas gostam de póneis. Os meninos tornam-se rapazes quando desejam cavalos. Eu desejei aquele cavalo negro da televisão. Só que não fui capaz de o pedir ao meu Pai. E o meu Pai não foi capaz de mo dar porque há um momento, uma fronteira, em que pais e filhos deixam de conhecer os mútuos desejos. Trata-se de uma tragédia tão natural como inelutável.

2
Na madrugada do dia 11 de Fevereiro de 1983, nevou em Coimbra como nunca mais. Ainda a luz do dia não era luz (nem o dia, dia), quando o meu Pai me acordou com um estremeção da mão esquerda para que eu visse o que lhe estava na mão direita.
– Ó filho, anda ver o que está a cair lá fora!
Desoxidei o ferro de um só olho e vi a neve na mão dele – a neve na mão dele! Levantei-me e fomos os dois lá fora.

3
Lá fora, era a eternidade que nos esperava. As pensativas oliveiras pareciam noivas de si mesmas. O monte (o maior dos dois da aldeia) era todo torrão-de-alicante. O ar tinha endurecido como frágil e era frágil como vidro. Senti outro estremeção. Como a neve, o meu Pai tinha desaparecido. Até hoje.

4
Fiz as malas, disse adeus à minha Mãe, e desertei para a cidade. Tornei-me num acumulador de cidades. Em Peniche, fui derrotado como um marinheiro em terra numa luta de bar. Na Figueira da Foz, o mar era suicida e infiel. Em Pombal, as mulheres davam sopa e albergue. Em Lisboa, o rio separava toda a gente de toda a gente. Em Matosinhos, a biblioteca cheirava a café-com-leite e a pão com manteiga. Em Viseu, as pombas destruíam os próprios pés com jactos suinícolas.

5
Antes da madrugada do dia 11 de Fevereiro de 1983, o meu desejo concentrava-se no cavalo negro. Chegou a madrugada do dia 11 de Fevereiro de 1983 – e o meu Pai apresentou-me a neve. Cá fora, junto ao pessegueiro de uma outra destas histórias, entreguei-me à visão do cavalo negro na neve.

6
Não fiquei à espera que a neve fosse para sempre. Não é condição dela. Nem dele. O corpo tinha crescido para além dos ângulos afinal restritos do pátio das traseiras. As meninas gostavam de póneis. E os póneis eram rapazes. E eu era um rapaz.

7
A primeira coisa que apanhei não foi uma rapariga. Foi o autocarro. Era Outubro. Era em 1986. Em Peniche, a mulher que arrendava o prédio apresentou-me a um quarto decente e solitário como um voto de castidade em eleições genitais. No quarto vizinho, um rapaz negro e delicado dormia o cansaço de futebolista do Ferrel, aquela terra da canção anti-nuclear do Fausto.

8
De repente, devagar, é outra coisa: a vida toda, menos a que falta. O que falta não é desejar. Todos desejamos algo ou alguém. Ou algo de alguém. Eu costumo desejar boas-noites nos cafés quando é de noite. E bons-dias nas repartições quando ainda ninguém almoçou. O que falta não é, de facto, desejar. É pedir. O que falta é saber pedir.

9
A neve não é coisa que se peça. Por exemplo, a neve. 1983 não é coisa que se peça. Por exemplo, 1983. Entre toda a gente envolvida nisto, quem não chegou alguma vez à própria mãe e disse (?):
– Já fiz as malas. Estão ali as cidades na extrema do autocarro.

10
O cavalo negro existe no meu café terminal. É um bufete de Associação Recreativa, Desportiva e Cultural. Tenho quase a idade do meu Pai quando nevou. Isto não é uma cidade. É uma aldeia sem universitários nem creches. É um apeadeiro que não segue. É uma história. No bufete da Associação, jogamos xadrez. O secretário da Junta é o meu adversário. Ele joga com as brancas e avança o peão de rei. Eu ouço o conselho da figura junto ao pessegueiro e avanço o cavalo negro.

Caramulo, tarde de 8 de Novembro de 2006

História 38
A MALA

1
Eu estava a fumar na varanda. A noite era muito pura. Fazia frio. As estrelas visíveis diminuíam a existência e aumentavam a vida. Um carro vinha descendo a ladeira. Eu já tinha mandado fora o resto do cigarro.

2
Do outro lado da estrada, está o parque das árvores. Alguém atirou um volume pesado e rectangular para a zona das árvores. O carro continuou a descer, depois parecia cego, derivou para a esquerda e foi embater na parede da antiga padaria.

3
Saí logo de casa. Não me dirigi ao carro. Desci a ravina do parque. Era uma mala. Peguei nela e fui guardá-la em casa. Só depois fui ao sítio do desastre.

4
O carro tinha dois mortos. O condutor apresentava um carimbo mortal na testa. O homem do banco de trás tinha uma ferida de bala na cara, logo debaixo do olho esquerdo.

5
A luta tinha sido muito rápida. O homem de trás desceu o vidro e atirou a mala para o parque. O condutor apercebeu-se e alvejou-o com a mesma pistola que o fez perder a direcção do automóvel, primeiro, e, segundo, a vida.

6
Chamei a guarda. Os vizinhos começaram a acudir ao espectáculo. A guarda veio e mandou arredar. Eu disse que tinha acordado com o barulho do impacto. Não falei da mala. A mala é minha.

7
Dentro da mala, há muito dinheiro. Também lá estavam dois sacos de droga, uma pistola e um boletim do euromilhões por preencher. Despejei o conteúdo dos sacos na retrete. Mandei a pistola para dentro do poço.

8
Nunca contei o dinheiro todo. Vou gastando à vontade. Não alterei nada na minha vida. Nem sequer almoço mais vezes fora. Preenchi o boletim do euromilhões e registei-o. Não me saiu nada.

9
Queimei a mala na lareira. O dinheiro está na gaveta, debaixo das camisas. Tenho que chegue para o resto da vida. De manhã, tiro uma nota e vou trabalhar. À noite, ainda tenho a nota. Vou à mercearia e compro coisas para comer. Aos sábados, fico um pouco mais no café.

10
Deixei de fumar. Fechei as portadas da varanda e nunca mais as abri. É possível que o dinheiro aumente a existência e diminua a vida, como as estrelas do euromilhões. Não penso muito nisso. A gaveta das camisas é funda. O poço, também.

Caramulo, tarde de 13 de Novembro de 2006



Monday, December 04, 2006

Coisas como o Outro - história 39 do Anoitecer ao Tom Dela

Ouve-se hoje,
entre as 22 e as 23h00,
na Emissora das Beiras,
em 91.2 FM
ou
1
É sempre preciso ter cuidado com os peões, sobretudo quando também se vai a pé. Uma colisão frontal com outra pessoa, neste tempo de inverno, tanto pode dar chatice, como caso de seguros, como casamento.
0001 Georges Brassens – La Marche Nuptiale

2
Que nunca te falte a vontade de ter vontade. Nem a humidade de tomar banho. Nem o dente para a farripa de bacalhau. E que, sobretudo, não te falte bacalhau. O dente ainda é como o outro.
0002 Dee Dee Bridgewater – Angel of the Night

3
És um homem, estás na praia, o verão acontece todo ao mesmo tempo como uma estufa benigna. A tua toalha, na areia, está entre duas outras toalhas. E as outras toalhas estão ocupadas por próximas bronzeadas moças. Agora, chega a tua mulher. A tua mulher estende a toalha dela e não diz nada, antes pelo contrário. É o paraíso. Agora, acorda.
0003 Anita O'Day – Georgia on My Mind

4
Não aproveites as cordas da chuva para enforcamento algum, muito menos para o teu. Há tempo para tudo. Já viveste o suficiente para perceber isso, ou não? Bem… De modo que aproveita a chuva para falar de outra coisa, sei lá, do tempo – ou assim.
0004 Area – 1978 Gli Dei Se Ne Vanno Gli Arrabbiati Restano! Hommage A Violette Nozières

5
E olha, se te apetecer chorar, pois sê bem-vindo ao clube. Às vezes, dá-me ideia que tu pensas estar sozinho. Se calhar, é por isso que te apetece chorar. É como se quisesses ser um manda-chuva particular, não é? Deve ser. Eu também não sei tudo sozinho.
0005 Mafalda Arnauth – Este Silêncio que Me Corta

6
A passarada desata a soprar flautas de mansinho, flautas doces com furinhos de cana-de-açúcar. O arvoredo inaugura-se a si mesmo, de novo o faz, o sacana do arvoredo. Engraçado, em portuguesa língua, chamar-se, ao bosque, “mata”. Aquilo vive, não mata.
0006 Diana Krall & Art Garfunkel – Morning Has Broken - The Chieftains

7
Já ninguém é, nem quer ser, príncipe encantado. Muito menos bela adormecida. A bipolaridade não é exclusiva do Planeta Terra. Maníaco-depressivo? Só se me obrigarem, sinceramente. E mesmo assim, não sei. Enfim, umas vezes alegre, outras contente. Ou antes pelo contrário.
0007 Adam Ant – Prince Charming

8
O antigo assassino de prostitutas e outras deserdadas da vida, esse senhor de boa sobrecasaca e melhor cachimbo, emigrou em segurança para a terra prometida que ele mesmo, a si mesmo, prometeu. Chegou bem e está de saúde.
0008 Sting – Englishman in New York

9
Já te disse há bocado para não te pores com ideias sobre a chuva. O melhor, nestas circunstâncias invernosas, é apanhar um táxi para outra ideia. Ou calçar botas de borracha. Vamos lá a ver. Ora, ouve cá.
0009 Paul Simon – Gumboots

10
Adeus, adeus, até mais ver – ou não. Nunca se sabe, nem se adivinha, se o que se avizinha, vai ser… o for que seja. Cases ou não pela igreja, fiques-não-fiques-sozinho, um pouco d’alma, uma pouca de vinho, adeus vizinho, adeus, adeus, até mais ver.
Astor Piazzolla – Adiós Nonino



Caramulo by night, 4 de Dezembro de 2006

Sunday, December 03, 2006

Quatro Notas da Agenda do Senhor Invernador Civil

Manter a casa aquecida
e fresca a comida.

Encontrando um homem morto na estrada,
o cidadão deve declarar morta a estrada, e a ele,
bem.

Na greve da higiene municipal, elogiar
o outono pelo chão e o inverno pelas valetas.

Sentir sempre a Pátria, só depois
cuidar da Nação. Ou não.



Caramulo, tarde de domingo, 3 de Dezembro de 2006

Thursday, November 30, 2006

Caderno Acabado

Mais um caderno diário se me acabou de folhas.
Sobraram textos.
Junto-os aqui para o esquecimento sossegado do costume.


I
OS IMPÉRIOS DISSOLUTOS – MANIFESTO CONTRA O COLONIALISMO


Uma pessoa veste-se em minutos.
Demora anos a despir-se.
São os impérios dissolutos:
vem vice-rei, vai rei a vir-se.

Caramulo, noite de 16 de Outubro de 2006

II
“DO SONO LÚCIDO NÃO”


“Do sono lúcido não despertes as crianças”
– assim era o primeiro verso qu’ escrevia,
quando entrou o homem brancanémico
que gosta de bolos e, interpelando-m’ele,
se foi às malvas a maresia lírica.

Assim se perde um poema e s’ omem ganha.
Poem’ aqui e outr’ ali. Não tantos
os poemas quantos os homens, a anemia,
os bolos. Na sossega salamandra, o rubro
lume forjava ferro a meus ossos
incandescentes, às rimas atento como às gentes.

Caramulo, tarde de 19 de Outubro de 2006

III
SAFO DA BIOPSIA


Verdaquosa natura m’envolve,
su’ a frio o ping’ arvoredo.
Biopsia já fiz e não tive medo:
o q’ a morte não faz, a vida resolve.

Sabendo de ti vou eu mais o’ menos,
viv’ eu dias longos e outros pequenos.
À beira da terra, à beira do mar,
serviço de copa p’rà sala-de-estar.

A que portugueses farei eu, enfim,
relatóri’ ofertório ou poem’ afim?
Da língua soltei grainha de baba:
biopsia já fiz, vid’ à mort’ acaba.

Viagem Caramulo-Seia, tarde de 19 de Outubro de 2006

IV
MANUEL FARDINHA E AUGUSTA RENDILHEIRA – EVOCAÇÃO DE

Ninguém que eu conheça explica muito bem
a ausência de meu tio Manel Fardinha
e de minha tia Augusta Rendilheira,
mulher dele,
ele homem dela.
São desaparições, isso eu sei.
Deles – e dos dias deles.
Quando muito chovia ou batia
o sol no largo do fontanário,
por Cristo, com Cristo, em Cristo,
oliveira do Calvário.
Das raparigas de então ardiam
as febras virgens, a vaginal aranha,
as cheias boiavam de laranjas
e afogadas ovelhas,
isso eu lembro.
Perto, a menos de 40 metros, uma tia
chamava-se Saudade.
Chamou Rosa à filha.
De modo que me estavam.
por assim dizer,
escritos de antemão os versos,
dada a família.
Mas – e de Manel?
Mas – e de Augusta?
A família faz,
desfaz,
diz,
não diz.

Seia, tarde de 19 de Outubro de 2006

V
LX MAIS I E Ó


Para Cesário Verde, natural e inevitavelmente

Recolhe a noite seu lixo humano.
Pensões recolhem meretrizes.
Homens que não sigam directrizes
acabam sendo lix’ ou guano.

Tristes lampejam candeeiros.
O Rossio é farto d’ indirecções.
Por vezes, basta, aos mais useiros,
Ter telemóveis, indicações.

O que não conta, cont’ aqui eu.
Estive em Lisboa vai p’ra dez anos.
Directriz tive, merd’ ela e eu.
Voltei p’ra casa, p’ra meus guanos.

Seia, noite de 19 de Outubro de 2006

VI
CERTO

Nenhuma nova poesia há-de ser nova.
Novo há-de ser o homem que, velho embora,
tente, ainda assim,
repeti-la.

Caramulo, noite de 29 de Outubro de 2006

VII
SUECADA ANGLODINAMARQUESA

Não a poesia apenas.
Não apenas o ex-rei Lear ao frio.
Não o desespero nobiliarca apenas.
Mas repetir o outro saber.
A cultura geral, o que te permite
falar com,
por exemplo,
um sueco.
Mais dois manos.
E um baralho.

Caramulo, noite de 29 de Outubro de 2006


VIII
FINITA



Cheirit’ a leite da púberpele.
Buço rucito ourand’ a boca.
Mamita leve, pingo-de-mel.
Citrina beiça, ‘xp’riência pouca.

Pé nu nunc’ ai l’ o vi ai eu.
A mão já vinh’ envolt’ em luva.
Blus’ amarela e camafeu.
Ai eu q’ o dig’ expost’ à chuva.

Séc’lo passado, 84.
Maio cedeu, se deu doçura.
Er’ uma ‘spécie de teatro,
er’ uma ‘spécie de ternura.

Calças eu brancas, el’ amarelas,
sapatos curtos, juventude.
Adeus, Natália. Adeus, saúde!
Gostei de ti sem mais aquelas.

Caramulo, noite de 30 de Outubro de 2006

IX
MOMENTETERNAS – SEXTILHAS E TERCETOS PARA ALGUMA SALVAÇÃO


1
Esta manhã a água não correu das torneiras.
Lavei-me à chuva que se despenhava em jorro no quintal.
A gata não exigiu a mijada exterior.
Enrolou-se nos destroços da cama vazia.
Enxuguei-me com uma toalha pesada.
Fiz café forte e fumei-o.

Parece que um homem rasgou um cano com a máquina.
Foi esta a informação da autarquia.
Problema talvez resolvido p’lo fim do dia.

2
Quatro mulheres conversam rápidas, sentadas.
São fabris e febris.
Peles sem creme e cabelos sem verniz.
Ganga barata enchouriça-lhes as pernas.
Alianças-frieiras friccionadas por detergente de louça.
Devoradoras de legumes, filhos, toucinho.

Homem resmunga contra o tabaco no ar.
Bebeu um quartilho de água mineral.
Está velho para diversões.

3
Pêlos brancos da barba caiam-me a lâmina.
Água da chuva numa bacia.
Barba decepada a frio: after-chuva.

Quatro homens entalam palavras entre eles.
Calafetam de massa a sobrevivência.
Deixam crescer as sobrancelhas como arbustos.
Encouram as mãos encla-avinhadas no vidro.
Pergaminham a cara sob o chapéu.
Deixo que vivam sem água.

Caramulo, tarde de 6 de Novembro de 2006

X
DIAGONAIS

Para o meu mui querido amigo e poeta Joaquim Jorge Carvalho


Há muito que ver – o mesmo infinito mais.
Vem do uso dos olhos a diferença.
Pássaros são folhas diagonais,
Muito mais do que se pensa.

Repito na panela sopas antigas.
Inverno é verbo meu preferido,
que ajo com letras de cantigas
(e até já tomei banho vestido).

Já fiz coisas que não queria
ver pelas filhas repartidas.
Voltas, nunca venderia.
A vender, vend’ria idas.

Idas para o meu futuro
brev’ igual, pastelarias.
Leite mole e pão do duro,
queijo de barra às fatias.

E uma volta p’las freguesias.
O sol do céu, tantos baldios.
É um país de chuvas frias.
É um país de amores frios.

Ó minha terra, ond’ eu morri:
quanta lembrança saúda por ti.
Ai ai ai, ai ai ai:
terra de tio, d’ irmão e de pai.

Amas até o piolhoso
país que rege o regicida.
Ultimatum oitocentoso.
Quem não entrou, só tem saída.

Caramulo, manhã de 14 de Novembro de 2006

Wednesday, November 29, 2006

História de um Crime

A tua cabeça redonda
posta sobre a almofada
sem um olhar que a esconda
só a cabeça mais nada

Mai’ nada não não falo bem
em baixo a garganta clara
carne de leite da mãe
também de filha mais rara

Assim vi de cima a ti
manchar a fímbria de linho
numa noite em que chovi
chovi um choro baixinho

Duas orelhitas de prata
cabelo entristecido
quanto se ama se mata
fica o crim’ acontecido

Depois vei’ a pura glória
dois olhos o peito tinha
contavam a minha história
registei a ladainha

Isso foi ‘ma sexta-feira
doutr’ inverno doutra vida
ao lume tod’ a madeira
ced’ ou tarde acab’ ardida

Lá pr’ò sul os pés duplicados
vão dois a dois camurçar
medos e dedos não contados
tenho eu de os contar

Trem’ o creme nada ain-
da nunc’ eu vi tão lind’ assim
uma noite só p’ra mim
diz-me não qu’ eu digo sim

Podi’ eu ser outro homem
ter uma outra mulher
era preciso ser jovem
não querer quem nos não quer
Era precis’ outr’ idade
outra rima entretanto
entre tantas na cidade
mais de trint’ a cada canto

Mas isso não sobr’ almofada
pur’ ideia pura glória
cont’ outra vez a minha história
a minha história e mai’ nada:

Duas orelhitas de prata
cabelo entristecido
quanto se ama se mata
fica o crim’ acontecido.



Seia, tarde de 19 de Outubro de 2006

Fado Pneumónico

São quanto deixo coisas vivas
os amigos um rasto de tapetes
mijados por gatas redivivas
persas areias ureias verdetes.

Não tenho como não
pôr na borda do prato
o oss’é pr’ò cão
a ‘spinha é pr’ò gato.

Se um homem se distrai no corno da rua
e vê de chapéu uma fêmea nua
q’arrenda depressa a febra que (é) sua
que ligue p’ra casa p’la lista t’lefónica.

Não send’esse o caso não havend’ o tempo
faça que não faça que passe o momento
pior é morrer que ter a pneumónica.



Caramulo, noite de 17 de Outubro de 2006

Monday, November 27, 2006

Uma Verificação Alpinista na Noite

Cerra em nosso torno-corpo o inverno suas mandíbulas
não é tarde ainda para vivermos
podem as manhãs ser brandas e frívolas
não é tarde ainda para nascermos.

Perto de casa tenho quatro cedros
demanda a gata os cantos de casa e cedros
a aventura não é para perder
um pouco mais tarde talvez mas não agora ainda.

Um bafo de céu congela a montanha
agreste é esquecer é nunca ter sabido
um bafo de céu congela a montanha
agreste é viver sem nunca ter subido.



Caramulo, noite de 27 de Novembro de 2006

Thursday, November 23, 2006

A Chuva também em Estocolmo


para a
Sandra Feliciano, minha Amiga,
que já foi à Suécia





Decorre – não corre – o Tempo – para chegar mais depressa.
Está bem que assim seja.
O demo da hora dá demora.
E é também um bem que assim seja.

Não confundas um sueco com um norueguês.
Nenhum dos dois há-de gostar.
Não confundas um homem com um homem.

Vi na televisão um dinamarquês negro
a correr e a vencer como um queniano:
the empire counterattacks.
Mas não confundas um dinamarquês com um queniano.

Almocei no IKEA de Alfragide.
Trouxe comigo dois breves lápis.

Pills can take care of that”,
escreveu, em bom suecamericano,
Jan Myrdal, sueco
(v. An Anthology of Modern Swedish Literature, International P.E.N. Books, Cross-Cultural Communications, Merrick, New York, 1979).

Titipipilamos – intraduzível.
Luzicucagamos – intraduzível.
Fadistamos – intraduzível.
Chove tanto – intraduzível.

Uma vez, em Lisboa eu assobissurdinava (intraduzível)
o Moon River (traduzível).
Era na plataforma do Metro.
Era no Inverno.

Era no Inverno, era à face do Rio Lua Rio.
Chamam-lhe Tejo (mas nasce Tajo, mas nasceu Tagus).
Eu também era.
Mas isto de ser, como o rio,
passa e fica.

Demorei-me,
cumprindo as boas mesuras de minha Mãe
enquanto não morre.

Demoro-me: demo-me e oro-me.
Não é ainda Estocolmo, mas já parece.
É hoje, tanto tempo depois, esta,
uma boa noite:

perfis de prata: risco de chuva:

toca as plantas glabras o gelo espinhoso,
difícil, humano como um telefonema
não atendido.

E mais isto: a raça do homem depende da palavra
do homem.

Estou daqui a ver o corredor preto
(tradução: negro)
da Dinamarca
conquistando o pódio-1
do meeting (intraduzível)
de Helsínquia.

Estado-Previdência, Welfare.
Cruciante cardiograma de suicídios.
ABBA.

Vim buscar a chave e não voltei a casa.
Nem gastei nenhum dos dias
entre o Natal e o Ano Novo
a viajar para Vattenslott.
Sei lá eu onde isso fica.
Fico eu.
Fico aqui mesmo.



Caramulo, noite de 30 de Outubro de 2006

Wednesday, November 22, 2006

Corpo 42



Pois que
quão o suor
é a consciência tão
emanação do corpo,
escrevo isto
aos 42 anos de idade.






A aço se não reduz já o braço
– ou conduz.
Etérea lama, em lugar disso
– sombra, que não luz.

Finos vasos azuis
o sangue vazam em as unhas.
Vibra dentro o osso
– não o aço:

formigueiro de dormente medula.

A mesma adolescente espada
não singra já no ar o frio:
antes tem frio, coitada.

A alma pisa o sangue
como a vinho fora.
O corpo é um gajo sozinho:
de espelhos devorador embora.

Restam costas e virilhas.
Salsugem babuja corais
de que ilhas, por tropicais,
são alheias maravilhas.

Lord Jim, Sylvester Stallone:
clones da musculação
por via mail ou telefone
ou da coragem contrição.

O mais é livros folheados
a cuspo d’ouro proletário:
andam os corpos enganados
– não tem reforma, o operário.
Digo isto bem do alto
duma idade que se abaixa:
Montepio, monte alto,
tostõezinhos para a Caixa.

Nunca conta a maravilha
seus segredos culinários.
Eles são certos e são vários,
dão de comer a operários
e mais à mãe e mais à filha.

Tenho na tíbia fissura
que arrefecendo algia traz.
Eu sou muito bem capaz
de fazer uma loucura.

Vivo em 2006
– não sei qu’é isso,
ó bicicleta!
É uma idade obsoleta,
é o corpo enfermiço,
refractário às mesmas leis.

Poucos sonhos.
Mulheres, nem risco.
O mesmo coração confisco
de onanirismos os mais medonhos.

Vento nos cedros: azulações.
Verdes chuvadas, o tom cinzento.
O filme é mudo, o filme é lento.
A derme é fria sob os colhões.

Meu manso corpo, tu sê bravio:
não te sufoque a consciência.
És da cidade que tem um rio.
42? Pois, paciência!



Caramulo, noite de 21 de Novembro de 2006

Thursday, November 16, 2006

As Áleas Sombrias

1
Quantas palavras te sobram ainda, novas?
Sabes que os temas (os fantasmas) permanecem.
Não sabes que palavras eles recriarão.
Aqui comigo, sentado, permanece também.

2
Aprecio a falta de medo das tuas palavras.
Gosto do teu desfuturo: tristeza e gás.
Gosto da desirmandade dos teus objectos:
parecem-me crianças velhas, petrificadas.

3
Aos pés da cadeira, as meias partidas de cansaço.
O dia foi-lhes duro, andaram muito.
Acabaram voltando sobre si mesmas.
Metafóricas por negras, por o lasso canhão.

4
Tu estás de pé à beira da lagoa de estanho.
A Lua e os carros devassam o bosque.
Animais fotocopiam-se em filhos, ritos.
E tu abusas da vida e abusas dos fritos.

5
Gosto do teu sexo rapace, rapaz, alto.
Dispenso bem a tristeza das gasolineiras.
Voltarás porém a elas, andante.
E à economia como à glotologia.

6
Com esses que a terra há-de comer, viste:
o marido de regresso, a euforia esponsal.
Imagens fascinantes, muito puras, eidéticas.
Tu viste coisas que o Diabo não desgravou.

7
Tu falas fundo como se uma faca foras.
Tu já entraste em abandonados sanatórios.
Quando repetes a vida do teu Pai – sorris.
Quando não repetes – sorri a faca.

8
Tu agora como sempre, ainda, novo.
A consolação da criança, o cão amável.
O estômago glauco de melancolia.
E as badanas de água nos livros de sal.

9
Os parentes ainda novos, desejando ainda.
As fábricas todas-todas em laboração.
Nada disto que agora, tu sabes.
Mais o senhor Araújo da Escola de Natação.

10
Do casamento contrariado do senhor do restaurante,
sabes também. Que só não leva no cu para
não perder clientes, o amor-de-Mãe (Angola, 1967),
o respeitinho, um lugar na lista de vereação.

11
Quantas palavras, vês (vê), te sobravam ainda,
afinal. E permaneces; e continuas; e dizes:
este é o corpo do meu poema: toma-o tu,
dizes-me. E eu bebo-o em sangue, não é nojo.

12
“Tempos do caneco”, ouves dizer a um homem.
Fala da guerra que foi, lamenta esta paz
delicodoce, exemplifica com dedos-números.
Ele fala – tu ouves a música dos pulmões.

13
O ouro é a graça. A Lua é a prata.
Gosto do teu coração vertiginoso, do teu coração-cantor.
Gosto da tua morte: gás e tristeza.
Serás uma petrificada, velha criança.

14
O caracol cosmogónico como uma azeitona,
um búzio, um ominoso recado maternal
com erros de ortografia: “estam ovos no
frigerifico, não enchas o fugão de gurdura”.

15
O carinho disto. O desejo de morrer e o de viver.
As áleas sombrias: os dedos dos pés daquela
mulher lavada que cortejaste sem sucesso,
mas uma filha. Da puta, segundo as más-línguas.

16
Maravilha, tanta palavra. Tanta nova palavra.
Recombinável aditernum, a sacana.
Como cifra económica, como perpétua puta:
a palavra nova: lagoa, estanho, fotocópia.

17
Sim, permaneço sentado. Não me deixes, só.
Ouço o marulhar dos teus intestinos.
Injecções proteicas alfinetam-te as intestinais vilosidades.
És um homem num café serrano, só.

18
Quando as moedas de escudo eram de níquel.
Lembra-te lá. Isso dói-te? Lembra-te.
O pedinte tocou a porta, a Mãe abriu-a.
Ela deu um escudo, pediu de troco cinco tostões.

19
O teu Pai assistiu ao vento de 140 km/h na recta da Adémia.
Quatro figuras protegiam-se do vento com mata-cães.
O teu Pai recordou, quase até o fim, dos quatro:
os pés chinesando sob os chapéus, ao vento vital.

20
Todas as combinações riscadas: Tottenham,
1970, Elias Rodrigues Faro, Picoto, Canino,
Dourado, senhor Sacramento, Brochiminete,
Chicha, Shartela, Miguel, Sharp, Underwood.

21
Lembra-te da tua primeira dignidade:
quase não foste um apedrejador de pássaros.
Depois, mataste. E continua-lo, riquinho.
A tristeza em Lisboa: nenhum barco colonial.

22
Era que já todos tinham vindo, amor (Guiné, 1969).
Uma alface à contraluz no slide do teu irmão.
O sabor da primeira desinocência nos dentes.
Matt Marriott pretibranqueava a amargura.

23
As pessoas já morriam antes de haver telemóveis.
Conseguiram encontrar-te para to dizer, não foi?
Foi. E tu compareceste. E tu permaneceste.
Daí a devassidão dos estanhos, das lagoas, da Lua.

24
Não era a vulva. Não era o dinheiro.
Era a parte de trás do prédio, mais isso.
A tua criança estava ali em ti, adulta muito.
Muito cedo, digo. Cedo de mais, digo também.

25
Reparaste decerto já que te não anuí razão?
Sim, que a não tens. Nem o contrário dela.
Estás vivo: o papel fixa isso.
Estás a morrer: o papel idem.

26
Aos domingos de manhã, os pedintes e os tremoços:
o mundo à porta; e as moedas de dez tostões.
Só não me entregas o que não podes.
Eu estou a falar do futuro, deixa.




Caramulo, noite de 13 de Novembro de 2006