Thursday, November 16, 2017

No táxi 17 do senhor Silva (ou Um doutor de rostos) - Rosário Breve n.º 530 in O RIBATEJO de 16 de Novembro de 2017 - www.oribatejo.pt





No táxi 17 do senhor Silva
(ou Um doutor de rostos)



Aconteceu-me a 3 de Novembro do corrente ano. Eu tinha passado a manhã, a hora de almoço e mais duas horas a escrever. Coisa infelizmente rara, chovia. Eu tinha um euro e sessenta cêntimos na algibeira. Por volta das quatro da tarde, entreguei à gerência do Café os sessenta cêntimos da bica. Pus-me então a pé, de derradeira moeda de euro no bolso, a caminho de outro estabelecimento onde pudesse aproveitar o entardenoitecer para escrever ainda mais qualquer coisita. Aproveitei uma aberta pluvial e ala que já era (de) tarde. Fui andando. Voltou a chuviscar a meio do meu percurso. A descer, todos os santos ajudam, mas a subir nem o Diabo empurra. Ora, eu ia subindo.
Foi então que a meu lado, a meio de uma ladeira mais íngreme do que a minha carreira literária, parou um táxi. Disse-me o senhor taxista assim: “ – Amigo, para onde vai?” Eu respondi-lhe que “para tal parte assim-assim”. E ele para mim: “Calha bem. Vou buscar aí mesmo um cliente. Entre, amigo, que está de chuva. Temos de ser uns para os outros.” Eu fiquei siderado. Ainda tentei dizer-lhe que não trazia comigo dinheiro nem para a bandeirada da porta do lugar-do-morto. Ele, todavia, nem quis saber. Mandou-me entrar sem encargos quaisquer. Entrei. O trajecto era breve, mas deu para frases trocadas.
Ele disse-me que era o Silva do Táxi 17. E mais disse: “ – Eu parei porque vi que a sua cara era a de um homem sério, honesto e trabalhador. Vai daí, nem hesitei. Dou-lhe boleia com todo o gosto. Sabe, eu ando nesta tarimba de taxista há 51 anos. Já sou uma espécie de doutor de rostos. Tiro-os logo pela pinta.”
Depois, perguntou-me de onde eu era. Eu disse-lhe a verdade: “ – Sou daqui perto, dali da Pedrulha.” E ele então assim para mim: “– Essa é boa. Tenho lá um concunhado. É o António Lucas, conhece? Ele é casado com a irmã da minha mulher. A minha é Natalina e a dele é Maria.”
Eu conhecia, claro. E repeti-lhe a banalidade de o mundo ser pequeno. E acrescentei: “ – Mas a sua bondade para comigo não é pequena como o mundo. Fico-lhe muito grato.”
Deixou-me na esplanada que eu almejava. Fiquei sem poder escrever uma linha. Tinha sido “vítima” de um acto filantrópico da parte de um desconhecido. Não podia ser. De novo a pé, rumei à minha terra. Fui a casa do meu Amigo Tonito Lucas. Contei-lhe o que se tinha passado. Já era esta crónica em andamento.
E o Tonito assim para mim: “ – Eh pá, tiveste sorte! O Silva é um porreiraço. Entre colegas da profissão, até lhe chamam “doutor”. Ele sabe tudo do ofício e não se importa nada de ensinar os mais novos no ofício.”
Pedi-lhe mais esclarecimentos. O senhor Silva é homem para 75, 76 anos. É casado desde sempre com a Natalina, irmã da Maria do Lucas. É ali de Vale de Marelo, Semide. Tem duas filhas (Margarida e Catarina) e dois netos (Fábio e Ricardo). Trabalhou desde cedo em fábricas de fiação. Depois fez tropa em Moçambique. Ainda trabalhou para o Serviço de Águas e Saneamento do município de Coimbra. Passou depois a taxista empregado. Logo que pôde, tirou alvará profissional e tornou-se patrão de si mesmo. Até hoje. Ou: até dia 3 de Novembro passado, jornada de chuva em que me deu boleia sem ser por esmola mas por pura solidariedade humanista.
Lembro-me de ele me ter perguntado o nome. Eu disse-lhe a verdade: “ – Sou Daniel.” E só então percebi toda a verdade: havendo-me dito ele que o meu rosto era de homem sério, honesto e trabalhador – e para mais chamando-me Daniel –, o senhor Silva do Táxi 17 não me tinha dado boleia a mim. Tinha antes, sim, tirado da chuva o senhor meu Pai. Esse sim sério, trabalhador e a honestidade em pessoa. Ou por outras palavras: o senhor Daniel meu Pai, sócio póstumo do senhor Silva do Táxi 17.

Thursday, November 09, 2017

Efeméride com recado - Rosário Breve n.º 529 in O RIBATEJO de 9 de Novembro de 2017 - www.oribatejo.pt







Efeméride com recado



1 Foi há quarenta anos. A 5 de Novembro de 1977, vi publicado, pela vez primeira na vida, um texto meu. E logo no suplemento literário infanto-juvenil de um jornal de âmbito nacional. Eu tinha treze anos – e o senhor meu Pai era comprador e leitor quotidiano de dois diários nacionais, nesses anos em que o 25 de Abril ainda era uma data relevante. Era também a época de leitura & análise integral de obras portuguesas logo nos 7.º e 8.º anos de escolaridade. Fui abençoado por duas delas: Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, e Seara de Vento, de Manuel da Fonseca. Notareis facilmente certos resquícios neo-realistas no tal meu primeiro texto em letra-de-imprensa. O título é algo Vivaldiano, mas não vos equivoqueis: a coisa era mesmo de ter lido e amado o meu Soeiro e o meu Fonseca. Eis, pois, o dito:

2 AS QUATRO ESTAÇÕES
Quando chegou a Primavera / transbordou vida nos campos e nos / olhos dos homens. Houve até quem / dormisse por entre madressilvas / congeminando formas de melhorar / a vida. //
E no Verão, quando o sol ardente / lambeu os corpos e tornou mais / difícil o trabalho aos aldeões, os miúdos / assaltaram o rio, buscando / na frescura das águas aventura e / desporto.
Chegou o Outono. As folhas das árvores caem como / lágrimas que largam o que foi / a sua companhia. E a poesia dos homens / morre com o enterrar das enxadas / na terra de sempre. //
Mas cai o Inverno, e não transborda agora / vida nos olhos dos homens, nem os garotos / procuram aventura. A chuva / encharca a terra e alaga a alma / aos homens. Afoga-se na taberna / o desejo de progresso. / Terras de sempre. //

3 Pessoal, atenção & cuidado: esta evocação nada tem de auto-adoração. Nada disso. Tem outro intuito. E o outro intuito é este: mandar recado a um dos 21 presidentes de câmara eleitos no 1.º de Outubro recente. Recado: Senhor Presidente, não acho que o senhor saiba quem foram Soeiro Pereira Gomes e Manuel da Fonseca. Senhor Presidente, acho que V.ª Excelência nem lê as minhas crónicas neste Jornal (embora eu tenha a certeza de que a seus augustos pavilhões auditivos são sopradas as partes-gagas das ditas crónicas a seu respeito.) Ainda assim, Senhor Presidente, há duas outras obras cuja leitura talvez melhorasse o que o senhor (des)faz à & da sua terra. Essas obras são: Dinossauro Excelentíssimo, do português José Cardoso Pires, e O Outono do Patriarca, do colombiano Gabriel García Márquez.
Se não tiver pachorra para lê-las de fio a pavio (até porque nenhuma delas tem bonecos), vá o Senhor Presidente ao Google à cata de resumos fáceis dessas magníficas narrativas. Ou então, em generosa contraproposta minha, não ligue nada nem a mim nem a livros. Aproveite antes o tempo do seu mandato para fazer com que o território a seu (in)feliz (co)mando se não torne, sabe o Senhor em quê? “na terra de sempre”.


Thursday, November 02, 2017

Fala o Senhor Professor Abelha - Rosário Breve n.º 528 in O RIBATEJO de 2 de Novembro de 2017 - www.oribatejo.pt





Fala o Senhor Professor Abelha




Sou um fulano de rotinas. Sou-o de facto. Talvez o seja pela dupla ilusão da segurança e da sobrevivência. A perna das calças em primeiro é sempre a esquerda. Levo sempre o mesmo número de cigarros na cigarreira. Frequento dois Cafés: um de avenida à sombra de tílias; outro de urbanização popular, a cuja praceta preside um choupo todo bonito. A bica matinal é no das tílias; o resto das beberagens é no do choupo. No bornal, os cadernos a manuscrever vão na horizontal; os livros a consultar, na vertical. Os lápis só convivem com os da sua raça no lado esquerdo do estojo triplo. A caneta, os marcadores e as esferográficas, no direito. Ao centro, borracha, afiadeira, tesoura, cola. É só assim que posso ser feliz. E seguro. E sobrevivente.
No Café das tílias, repito com os donos (Luís & Rita) sempre a mesma graçola cifrada: que o copo de água é a sessenta cêntimos, enquanto a bica propriamente dita é oferta da casa; no Café do choupo, peço coisas tipo “uma-ucal-fresquinha-com-meia-torrada-com-manteiga-só-dum-lado”. Respondem-me que sim-senhor-Abelha. E servem-me o bagaço, naturalmente. É uma forma de felicidade como (quase) qualquer outra. Neste mesmo estabelecimento, o Martim (filho do casal que gere a casa, Leonel & Nélia), chama-me de vez em quando para o ajudar nalgum pormenor dos trabalhos-de-casa: ler, escrever e contar, sabem? O menino nem sabe a alegria que me dá: chama-me “Senhor Professor” e depois aperta-me a mão como os homens de bem fazem uns aos outros. Ontem ofereci-lhe livros próprios para a idade dele. Ficou contente, mas voltou logo que pôde à caderneta de cromos da bola que anda a preencher.
O problema é quando entardenoitece. Sinto-me invariavelmente perdido num descampado feito de prédios alheios eriçados de casas a que nunca chamarei minhas. Remedeio o embaraço pondo-me a cirand’ambular a pé pela noite como os doidinhos & os guardas-nocturnos de antigamente. Como a Churrasqueira da minha terra só fecha às 23h00m, para lá me dirijo. Chego-me a ela, adiro a pança ao balcão e peço qualquer coisa tipo “uma-ucal-fresquinha-com-meia-torrada-com-manteiga-só-dum-lado”. Respondem-me sempre: “Está bem, abelha. Compreendi-te.” E servem-me o bagaço, naturalmente. Estou finalmente em casa. Por assim escrebeber, perdão, escreviver, perdão, por assim dizer.

Friday, October 27, 2017

Escrevo sempre a mesma coisa, ora vejam - Rosário Breve n.º 527 in O RIBATEJO de 26 de Outubro de 2017 - www.oribatejo.pt







Escrevo sempre a mesma coisa, ora vejam



1 (2006) Antuzede, o Sol mais total deste mundo. Tenho quatro anos. Há funeral de alguém velho, alguém da terra do Pai. O Pai leva-me. Recordo a totalidade pânica do Sol. Em descampado (ou em esta mesma Praça, tantos anos depois’antes), a urna – negra, toda feita de sombra. A par do achado (sob um cartão) no Pátio, é a minha primeira – quiçá definitiva – recordação. Isto tem de estar a acontecer em 1968. Duvido de que possa ser já 1969. Comporto-me como o principezinho que sou, filho tardio de um homem de 51 anos, à data do funeral. Tenho eu hoje 53 feitos, sou mais velho do que essa versão do meu Pai. Como é que isto pode (não) ser, verdade? Verdade. Mentira. Algures nessa cabeça de quatro anos há já sinais desta de 53. Certa afinal serenidade ante o descalabro da morte individual, o escândalo dessa lei não votada nem vetada. Certa concertação resignada ante a totalidade, o absurdo, o corriqueiro, o é-igual-para-todos. (Muitos anos depois’antes, aqui voltarei para inumar José, pai de Joaquim Jorge, Carvalho.) O Tempo, como as medusas feitas de água translúcida, transparecendo-se de si mesmo em volutas de luz + água + resíduos saibro-argilosos, cinema de um só bilhete para a eternidade do Domingo. Nem alegria, nem tristeza, nem outrossim agonia ou júbilo – mas tão-só uma espécie, não sei, sei lá, de sideral serenidade baqueando de pau, bola & ponto ante as bancadas desertas, sobre rala relva, que aliás o descampado do Morto-de-1968 não criava.

2 (2017) - Era uma lembrança veemente da primeiríssima infância: uma praça árida cujo chão de terra aparecia queimado sem sombra nem clemência pelo sol vertical de Junho; os cangalheiros haviam pousado o caixão, limpavam os rostos com grandes lenços brancos; o morto esperava a retoma sem o mínimo queixume; as mulheres eram perfeitos corvos de um negro quase azul, como o de certas noites; e ele não podia, então, ter mais de quatro anos. A lembrança não era equívoca: o funeral continuava a ter sido na aldeia natal do Pai, que o levava no préstito pela mão do lado do coração. Não se tratava, por isso & não ainda, do funeral do Pai. Era o de um homem que já era homem quando o Pai era menino. E então, num golpe cerce, passara meio-século.
A lembrança não era apenas veemente mas assaz recorrente ainda. Não lhe doía nem o animava – era como o nariz a meio da cara sem ter de pensar nisso para que continuassem a existir ambos: ele & seu nariz; a lembrança & ele. Era também como o funeral do Pai: o funeral passara; a morte do Pai, não. E mais isto: aos doze anos, ocorreu-lhe de repente (também num Junho inclemente de sol incendiário) que o Pai poderia morrer um dia. Tal eventualidade escandalizou-o. Estava no quarto da casa paterna. Brincava com lápis-de-cor e calendários, arredondando os dias aniversários da Família com cores diferentes: a Irmã a cor-de-rosa; o Primeiro-Irmão a roxo; o Segundo-Irmão a castanho; o Terceiro-Irmão a verde; os Gémeos Quarto & Quinto, a laranja & encarnado; e o dele a amarelo; o do Pai, a azul; e o da Mãe, a mesma rosa da única Filha. Então, quando azulava o 10 de Abril paterno, a possibilidade de lhe morrer o Pai. E o baque gástrico: como se o coração tivesse passado a morar no estômago. Abandonou brincadeira & quarto, saiu para a torreira solar que deflagrava no pátio, deu água aos cães antes de os desacorrentar, foi com eles para o monte colher os espargos do esquecimento e o caule do funcho que uns poucos anos depois lhe haveria de perfumar, escarchando-o, o anis da orfandade adulta.
Tais lembranças tornaram-se ora crónica de jornal. A vida tornou-se Outubro – mas a inclemência solar é a mesma. Tenho a boca a cheirar a funcho. Antes fosse a espargos.

Thursday, October 19, 2017

Fora, Pedro! Bem-vindo, Tomé! - Rosário Breve n.º 526 in O RIBATEJO de 19 de Outubro de 2017 - www.oribatejo.pt





Fora, Pedro! Bem-vindo, Tomé!



Ando há tempos para V. dar conta de dois livros intimamente ligados a Santarém cuja leitura fiz com zelo, lápis, agrado e proveito. Ainda não vai ser desta. E ainda não vai ser desta porque a chaga incendiária – que nos mata tanta gente, nos destrói tantas habitações, nos arrasa tantas matas e nos pulveriza tantas empresas – é a recorrente e implacável temática de cada dia, semana a semana, mês a mês.
Pus-me a odiar São Pedro, coitado do barbudo das chaves-do-Céu.
Na minha mocidade (e na Vossa), as estações eram quatro: e começavam à hora marcada do dia certo. A Primavera existia, vinha no bico das andorinhas, o arvoredo rejubilava, a temperatura era suave & adequada. O Verão amarelejava de grandes fenos, extensos trigais, fundia o azul do céu no azul do mar, os rios ainda não eram fossas pecuárias. O Outono? Era todo Vivaldi: revoadas de folhas revoluteando como arcadas de violino, havia o prazer das luvas de lã, as botas de borracha pelas ruas de terra sem macadame. O Inverno era frio conforme a competente e obrigativa disposição legal desse tal São Pedro que, naqueles bons tempos, trabalhava bem & devagar. Tudo isto deu o berro. Tudo isto ardeu.
A estiagem prolonga-se indecentemente há meses de mais. Em plena segunda metade de Outubro, a brutidade solar, sem ozono que superiormente a estorve, esturrica-nos a nossa própria sombra, que, pelo chão, feita carvão, se esbraseia mais do que nós até. É uma coisa intolerável, este calor sem freio nem calendário. É um túnel de fogo sem água ao fundo. E o imbecil do Trump a rasgar acordos pró-climáticos. E o aqueci/esqueci/mento global. E os glaciares a virem por aí a baixo feitos sopa. Porra, porra, meus senhores.
Como poderia eu, pois, cronicar-vos a mote das minhas leituras pró-santarenas? Livralhada agora, agora que por todo o lado só se lê, vê & ouve que “Olha, subiu o número de mortos; olha, mais uns tantos desaparecidos; olha, os feridos não param de aumentar…”? Ná, leiturices para ninguém.
Eu exijo que chova como deve ser. Estamos em Outubro, catano! Quero o frio que nos é devido em Novembro para podermos matar & escorrer com limpeza e sem mosquedo calorífero & putrefactor o belo porco enquanto roemos a bela castanha assada – ou cozida com funcho.
E olha, ó Pedro tão pouco São, vê se te reformas e dás lugar a outro. Olha, dá-o a São Tomé, por exemplo, que só haveria de crer numa política territorial anti-fogos quando houvesse alguma para ver.



Wednesday, October 11, 2017

(f)Actos da minha vida - Rosário Breve n.º 525 in O RIBATEJO de 12 de Outubro de 2017 - www.oribatejo.pt



(f)Actos da minha vida



1 Descalço, saltei do muro para a banda do monte, cortei-me no pé direito, sangrei muito – e ainda sangro. Não singro, mas sangro.

2 Abraçava os meus cães & os alheios, beijava-os no rosto, sentia deles o frémito humano, olhos de quem entendia o que se lhes dava: como tão pouca gente-gente entende. Ou é beijada.

3 Aprendendo a fumar (às ocultas do entardenoitecer, encostado ao portão da quinta), volvi-me, até estatu(t)ariamente, uma imitação de adulto. Continuo ambos: fumador & simulacro.

4 Os mendigos batiam-nos à porta muito delicadamente. Se era meu Pai a atendê-los, tinham menos má-sorte. Se era minha Mãe, pobre ela também, tinham boas palavras e não mais que cinco tostões. Se era eu, aprendia a ser delicado no bater às portas. Até hoje.

5 As raparigas: deixando de ser meninas, obrigaram-me a tornar-me rapaz. Em paz elas & eu, agora.

6 A Muda dos Tremoços: esperta, ladina, pobre – mas sobrevivente, criadora de gente, de si mesma banca & fruto & sal & tostão.

7 O Leandro Jardineiro: bêbado, blasfemo, praguejador, admoestador, terror das crianças – um vero santo católico, portanto.

8 Na vertical, era, naquela altura, um colosso: seis pisos de armazenamento industrial. Um deles, de botijas de gás. Deu-se o incêndio. O povo foi ver. Eu também era povo. De súbito, a explosão: foi a nossa Hiroshima. Mais de quarenta anos passados, continua a ser o raso chão a que se viu desfeito. E nós japoneses, por assim dizer.

9 O sr. Eduardo da Rua do Leitão que morreu na linha: vinha apeado da bicicleta para a travessia, deixou passar o primeiro comboio, não contava com o segundo. O povo foi ver. Eu também era povo. Aquele lençol da mulher-guarda-da-linha guardando o mistério do corpo, a escandalosa rosa de sangue florindo o pano: inesquecível floricultura.

10 A minha Irmã, de blusa verde, menina & moça qual rouxinol-bernardino, à janela. Sem pose, alheia ao fotógrafo: rosa verde, antítese daquela que vi no lençol da morte ferroviária.

11 Naquele tempo infante, os Verões não eram a calamidade pública que hoje são. Os Julhos eram passados na Figueira da Foz. A Mãe arrendava a mesma casa. Aos fins-de-semana, o Pai reunia-se-nos. Isso não volta. Eu não era, então, a calamidade privada que hoje sou. Mas a Mãe era o Verão. Em pessoa. E é ao sol dela que escrevo quanto escrevo. O Pai chega sábado.

12 Linda como uma conspiração de açucareiros, aquela Maria dos meus dezassete anos embebedou de clorofila a incipiente árvore púbere do meu coração. Depois, rachou-ma em cavacos imprestáveis até para outros lumes. Habituei-me a sentir-me embebedado. Por Ela. Sem Ela. Contra Ela. E contra mim, em minúsculo pronome.

13 Os Irmãos: seis, todos mais velhos – ou, por assim dizer, os meus mais recentes & mais vitalícios antepassados.

14 A Minha-Rua: era um país. É hoje um desconsolado consulado de marcianos que não falam a Língua nem se lembram dos senhores Nunes, Catarino, Gonçalves, Velindro, Pimentel, Ribeiro, Alcides, Pereira, Morais, Sério, Botelho, Alfredo, Sacramento, Carvalho, Abrunheiro.

15 Quando chovia: o cedro do meu prédio semelhava uma labareda negra de verd’outrora à Van Gogh; as mulheres zumbiam no recolher à pressa das camisas crucificadas do estendal; o senhor Carlos da taberna-carvoaria cainhava gemebundamente: “Estava-se-mesm’-a-ver-qu’ia-chover-estava-se-mesm’-a-ver-qu’ia-chover”; e o cedro do meu quintal era o senhor Carlos a cainhar mas em versão Vincent de cinema-mudo.


16 As Fábricas: morreram todas. Corrijo: mataram-nas. Foi então que vieram os marcianos. E foi então que veio a outra Língua, que de nomes antigos nada sabe nem a cedros à chuva entende, quando o céu chove como a olhos acontece, certas vezes. Ou a cães, quando beijados.