Thursday, May 25, 2017

DEZ CONTAS DO MEU/VOSSO ROSÁRIO - Rosário Breve n.º 507 in O RIBATEJO de 25 de Maio de 2017 - www.oribatejo.pt





Dez contas do meu/Vosso Rosário





1 Foi a 25 de Maio de 2007 que vi aqui publicada, neste mesmo bravo jornal de última aldeia gaulesa, a primeira crónica desta série Rosário (afinal não) Breve. Dez anos limpinhos. O Tempo é lixado. Uma década mais brusca e menos luminosa do que um fósforo lixado também. Assim num instantinho.
2 E depois? Quero o quê com ou de tal efeméride? Foguetório? Boné de louros? Jaculatórios espumantes? Quero nada. Eu, nada. Mas a Câmara pode ser que queira alguma coisa. Em que aspecto?
3 Pode ser que queira alguma coisa no aspecto de me patrocinar a publicação de uma antologia daquelas crónicas em que disse mal do Moita Flores, que foram todas as que o tiveram por visado. Essas – e mais aquelas em que disse bem do Ricardo Gonçalves, que até ao momento são nenhumas mas que podem muito bem vir a ser algumas, caso a coisa seja falada bem faladinha numa almoçarada à conta da minha proverbial imparcialidade e das despesas de representação, sei lá. Até ao Outubro das urnas, temos tempo.
4 E esse tempo pode não ser lixado como o outro. Eu sei, de-ouvir-dizer, coisas tão tremendas da concorrência, mas tão terríveis, tão esmagadoras, tão incapacitantes – que nem precisam de ser verdadeiras. Basta que sejam bem gaguejadas. É como digo: temos tempo. Bem coçadinha, a sarna até pode saber a prolegómeno erótico.
5 Digo isto, atenção!, sem ser por interesse. Próprio, quero eu dizer. Foi por associação de ideias, acho eu. Comecei a falar dos dez anos de coiso & tal, e zás!, veio o dito fósforo a lume de assunto. Mas já que estamos nisto, até que poderia dar um livreco giro. Parece que estou a pestanejá-lo já: o Moita a preto-e-branco na contracapa e com a legenda: “Custou mas foi-se”. E na capa (falsa) o Ricardo a cores, a rir-se muito nem ele sabe de quê e todo untado de uma vermelhidão de opa de procissão. Não sei. São cenas a alcavalar bem alcavaladinhas. Nem eu conheço alcavala que não mereça fala.
6 Dez anos! Não posso dizer mal deles. Não há Natal em que a caixa de correio me não amanheça pejada de propostas milionárias de outros jornais (da Cidade e da Região). Respondo sempre o mesmo: “Sair agora do Real Madrid para quê?” E depois, ungido de um fácil egocentrismo, miro o meu busto horrível e palpo-me o priapismo nos calções.
7 Pronto, chega. A 25 de Maio de 2007, a tal primeira crónica intitulava-se Ruínas e Anjos. Primeiro parágrafo dela: “Há um ano (com seus dias e suas noites) que moro numa vila tão despovoada quão uma cama de viúva séria.”
Ora, antes que, por tua (des)obra, a mesma viuvez aconteça a Santarém, vai lá pensando no patrocíniozito, Ricardo. De momento, nada me ocorre, mas ele sempre há-de haver alguma coisita em que prestes para alguma coisa sem que seja para rir.


Friday, May 19, 2017

GRAMÁTICA VADIA - Rosário Breve n.º 506 in O RIBATEJO de 18 de Maio de 2017 - www.oribatejo.pt





Gramática vadia



Circunstâncias minhas concatenam-se de quando em vez de modo tal, que me surpreendo vogando em, ou por, uma espécie de extratempo da lei da gravidade liberto. Não é fenómeno feio nem bonito – é só o que é: tropelias da serotonina na noz cerebral que trago enroscada no estojo do casco craniano.
Desta feita, achei-me em trânsito pedestre por ruas de uma Cidade de cuja existência eu não dispunha já de provas incontestáveis. Era de manhã ou de noite? Para melhor literatura, é preferível dizer que não sei. Era o que era: da jornada e do périplo, a própria cronologia mistificada pela autoridade da solidão que se me agarrava à roupa como um cheiro cego.
A vendedeira de tremoços & pevides estava já abancada ao lado dextro da velhíssima catedral onde dizem que fui baptizado, logo eu, filho que fui de pais ateus que, fazendo-me baptizar, cortavam ao regime quaisquer suspeições de heresia foice-e-martelo. Caixotes de livros em segunda-mão liam já também o chão do quiosque: voluminhos ingénuos que li no século último de um milénio que não volta. Além, era o estúdio fotográfico em cuja montra de há quarenta anos os donos expuseram, acreditai-me, a fotografia do cadáver do próprio filho, vítima de uma das primeiras doses mortais de heroína das primícias pós-25 de Abril. Fizeram-no como alerta pungentíssimo aos outros pais & mães da Cidade. Resultou pouquíssimo.
Vielas esconsas e húmidas como porões de caravelas aceitaram-me os passos. A fragrância a mijo de gato chegava a ser comovente, fazendo-me arder de lágrimas piscas os olhos pitosgas. Fantasmas prostibulares em forma de mulheres septuagenárias fumavam em assentamento no degrau de pedra das portas anãs de janêlo como nas fotografias do Gageiro. Uma frutaria salvava de cor & perfume o instante. Com um surdo e muito simples bater de asas, alcandorei-me à varanda do Rio, esse todo & mesmo que há oitenta mil anos os meus Irmãos nadaram, sem mazelas, sem medo e sem futuro, vestidos tão-só de uma nudez desprovida de pecado.
Dizem que naquele hotel dormiu uma noite o imperador do Japão. Ainda não confirmei a validade de tal asserção. É, de gloriosa arquitectura, o velho e formoso Astória, cujo A desenha e ensina em grande estilo, a bronze na parede, o número da porta: 21. Passei, como tudo passa.
Acre e capitosa, uma fumarada de sardinhas no carvão instaurava a neblina de Londres entre o Bragança e o Oslo, mais precisamente no largo que liga o Café Angola ao meu livro de 2008, uma estapafurdice paginada a que chamei Terminação do Anjo e que felizmente ninguém comprou e muito menos leu.
Por essas mediações, fui tomado pela incerteza. Salvei-me caçando o primeiro autocarro. Tive de comprar dois bilhetes: um para o coração, para a cabeça outro. A memória viajou de borla.
Desci na paragem do viaduto que gemina a fonte luminosa ao bairro cuja hierarquia onomástica tombou de marechal a general: Carmona para Norton de Matos. O corpo pediu-me cafeína e engaço prensado. Satisfi-lo a preceito. Rodando o cálice nos três dedos do lápis, eu já então me apercebera de apenas poder existir dentro da crónica. Não opus resistência a tal gramática.
Aqui estou. Não sei é onde. Muito menos quando.


Saturday, May 13, 2017

Um fragmento de 27 de Setembro de 2013








Estendi passadeiras já de mais talvez à circunspecção.
Tenho legumes em casa, tenho mulher, tenho casa.
Nicotino os meus versos à razão do alcoolímetro.
Mas gosto de pensar cavalos, não os tendo em granja.
Eu gostava muito de ouvir rir-se a minha Avó.
Parecia uma criança ilesa: mas o não era, foi antes

uma mulher batida, uma analfabeta violentada
por dois terços de século, invencível, porém,
fazedora campeã mundial de broa-de-milho e de leite-creme,
lembro-me dela agora e não sei que fazer dela,
sempre de preto desde os meus oito anos,
e no entanto a claridade daquele riso.

Thursday, May 11, 2017

A GENTE B.-B.Ê-SE POR AÍ - Rosário Breve n.º 505 in O RIBATEJO de 11 de Maio de 2017 - www.oribatejo.pt



A gente B.-B.ê-se por aí





1 Maio também serve para desaparições pouco místicas. Terça-feira, 9 do corrente, foi a vez da de Baptista-Bastos, ao cabo de 83 anos de nascido. Foi um cultor da Língua de subido mérito. Gostava de jornais bem escritos e de livros bem lidos. Era pessoa e personagem. Conhecia milhares de histórias, foi protagonista de milhentas ele próprio. Correu todas as redacções, percorreu todas as ruas de uma Lisboa que, sua de nela nascer & de em ela morrer, poucos terão conhecido tão bem. Deixa admiradores, indiferentes e rancorosos. A mim, deixa-me vontade e pretexto para mansa releitura de alguma da sua literatura, que noutra idade abordei talvez sem a atenção mais proveitosa. Penso que o ângulo do obituário pode ser mais justo se, em vez de “Morreu Baptista-Bastos”, assentarmos que – B.-B. viveu. Ora, como é sabido, não se pode dizer o mesmo de toda a gente.

2 Não se pode dizer o mesmo de toda a gente porque há mortos-em-vida que por aí andam a roer broa muito mal empregadinha em tais dentuças. Ocupam os poleiros e mamam as mordomias que lhes presta a populaça pobrete & alegrete da nossa espécie de fatalidade. Parasitam todas as áreas da sociedade. Infestam, da mesma, todas as secções produtivas – volvendo-as improdutivas. Política, desporto, ex-cultura, culinária, turismo, jornalixo, hidráulica, estiva, transportes, câmaras, clubes de caça & pesca, lares da última idade, bombeiros, saúde, correios, eléctricas, esplanadas – a tudo esterilizam. E reproduzem-se muito, gerando criancinhas estupidificadas pela electrónica amestradora deste século em que a incomunicação pessoal está na razão inversa da profusão de máquinas de bolçar bitaites. Não sofro dúvida: o nosso é um tempo sem eira, sem beira e sem ramo de figueira. Mas quê? Chateio-me muito com isso? Cada vez menos. Sobrevivo e deixo sobreviver. Reciclo o dia antes que o ontem se faça tarde. Ainda agora.

3 Ainda agora, na esplanada de mesas daquele amarelo da publicidade ao chá de palhinha, estava o maralhal muito sossegado a estiolar à torreira de um sol bruto como as derrocadas mineiras. Nisto, uma inquietude assolou a assembleia de desirmanados. Uma ansiedade esquisita, um latejar de próstatas, uma ânsia de ganir à Lua vespertina. A causa? Uma mulher. Apareceu-nos ali sem azinheira nem aviso. De vestido justo a ponto de segunda pele, era um clarão de champanhe. Manava uma fragrância de peixe fresco alimentado a fruta e a leite, decerto por rabejar de cintura qual sereia profissional. Esfíngica, muda, impositiva & incómoda tipo mulher-do-fraque, fez-nos ranger a prótese dentária como se de repente tivéssemos começado todos a sorver esferovite. O B.-B. não lhe perdoaria. Nós perdoámos-lhe. Demorou-se pouco, ficando-nos portanto para sempre. Abençoada posta não-pescada. Milionàriazinha de sua avó. Bisontezinho de Foz Côa em diferido de Paris. Vontadezinha de ter um porta-chaves de BMW. Santa & Senhora. Tive de forçar com conhaque o açude represo do gasganete. De volta a casa, ainda estive para contar à minha mulher. Já nem sei porquê, não contei.
À aparição, dei apenas, cão velho que sou entre flores, um secreto adeus.

Thursday, May 04, 2017

Crónica à luz-roxa - ROSÁRIO BREVE N.º 504- in O RIBATEJO de 4 de Maio de 2017 - www.oribatejo.pt





Crónica à luz-roxa


Vejo mais pessoas a pé do que de pé. Curto e grosso: a pé, os do embuste anti-republicano de Fátima; de pé, as pessoas que (ainda) comemoram o 25 de Abril e o 1.º de Maio.
Por essas estradas, pirilampos bípedes de coletinho fluorescente: por essas praças, homens e mulheres livres por conta própria. Talvez sejam dois mundos irreconciliáveis. O mais certo é que o sejam de facto. Já me importei mais com isso. Já cheguei, até, a indignar-me com isso. Felizmente, os anos acumulados tornaram-me mais simples e mais bruto. Tenho repentes de ferocidade incendiária que um copito de branco fresco apaga sem grande esforço. Na base do que V. digo, está isto de eu vir do funeral de um Amigo. Aos 58 anos, o Tónio foi para nenhures. Daqui a uns tempos, o canteiro dos mármores resumi-lo-á a um nome entre duas datas. Pronto.
Na volta, vim impregnado da inútil revolta do costume. Entre gares rodoviárias, fui inútil e triste como uma biblioteca encerrada. As marcas quilométricas da auto-estrada sucediam-se sem fadiga, estúpidas, inocentes e branquinhas à maneira de cordeiros da Páscoa. Não pude ler. Não consegui escrever. Fui assistindo aos eucaliptos velocíssimos da vidraça. O vento que neles dava era o mesmo que me varre as ideias e as atitudes positivas. Senti-me, naturalmente, tramado: tenho mais coração do que cabeça. Para a cabeça, ainda há uns paliativos. Para o coração é que não há remédio.
E lá a minha terra, como estava a minha terra? Mais cansada, pareceu-me. O meu envelhecimento projectava-se nela como uma espécie de luz-roxa, dessa que antigamente, nas matinées dos “clúbios” recreativos dos pobres, punham os dentes e as fibras sintéticas da roupa a brilhar no escuro. Troquei com essa minha gente as palavras costumeiras. Alguma dessa minha gente é da classe “a pé”. Outra (minoritária, claro) é gente “de pé”. Não sei se me faço entender. Gosto dela toda, para bem dos meus pecados.
Lá deixámos o Tónio sufocado de flores de celofane. Fazia um calor mortífero. Lá fomos ao copito de branco fresco. Foi até ser meio-dia. Depois, cada qual foi para casa, fiquei eu sozinho no largo, dono tão-só de uma sombra vertical e implacável de toldo sem mesa nem cadeiras por baixo. A incerteza tomou conta de mim sem resistência. O branco fresco a sós é um bocadito pró triste. Um quase-terror assolou-me: “E se deixei de saber ler? E se nunca mais conseguir escrever?”
Pelos vistos, não aconteceu. Está um dia bonito, nesse mundo a que às vezes pertenço. Encerrei-me em casa, estores corridos contra a reverberação implacável de Maio. A realidade funciona sem meu concurso. Olha, telefona-me agora mesmo um dos meus Amigos ainda vivos. Tesouro, para mim. Dizemos chalaças. Dou por mim a rir-me como um chimpanzé num bananal.
Mas ai, Tónio. Ai, António Alves dos Santos (1958-2017).

Thursday, April 27, 2017

ROSÁRIO BREVE N.º 503- in O RIBATEJO de 27 de Abril de 2017 - www.oribatejo.pt





É de um gajo ficar plasmado



Fiquei por estes dias a saber que “plasma” significa “história ficcional”. Mentira, portanto. Nem mais nem menos. É coisa dos Gregos, claro. Quando esses tão sábios Antigos se referiam a coisa “moldada”, “modelada”, “trabalhada”, zunga!, chamavam-lhe plasma.
Recentemente também, e ainda, cacei por aí um jocoso trocadilho que alguém, em muito boa hora, inventou: “jornalixo”. Achei um piadão ao neologismo, até por ele ser de sentido tão franco, tão cabal – e tão acertado.
De modo que “plasma” e “jornalixo” são já & doravante justos sinónimos para mim.
O espectáculo da comunicação anti-social é de facto miserável. E a miséria começa pelo idioma. A Língua Portuguesa é uma pérola atirada a (quase) dez milhões de porcos. (NB: Os leitores de O RIBATEJO são o “quase” entreparenteticamente salvaguardado.) Disto, ninguém me tira. As sevícias e o desleixo a que é sujeita são insuportáveis. (Não, não vou dar exemplos. A cama é curta e a manta da crónica é estreita.)
Depois, dá-se a perfeita incapacidade de jornais, rádios, televisões e internetices quanto a distinguir o essencial, isso tão fininho que separa o interesse-público do interesse-do-público. É a rebaldaria total: assuntos mesquinhos, soezes ângulos de abordagem e perspectiva, investigação nula, partidarização subjectiva total, apresentação sabuja. Chego a ter nojo físico, ao nível do eczema, de tais subprodutos do plasma à portuguesa.
O jornalixo é fortíssimo. O jornalixo é tão mais forte quão mais fraquinho é o público. E versas e vices. São já muitos os anos passados sobre o dia em que atirei para remo(r)ta gaveta a minha carteira profissional. Em uso dela, é certo, conheci, convivi e interagi com alguma gente boa, isso é verdade. Tanto do lado de dentro (as redacções), como do lado de fora (o mundo, enfim). Mas essa dimensão era a da excepção. A regra era a ordinarice, o analfabetismo funcional, a desonestidade, o lambe-botismo, a cusquice, a cunha, aquilo de uma-mão-lavar-a-outra resultando em duas patas sujas. Fartei-me.
Ainda bem que me fartei. Vivo hoje um desemprego que só não é paradisíaco por lhe faltarem o fim, o meio e o princípio do mês quanto a guito. Tirando isso, tudo bem. Maravilha, até.
Se tenho saudades de quando o dia-a-dia se media por tantos caracteres incluindo espaços, com ou sem boneco? Não tenho. Perseguir telefonicamente o senhor vereador para uma declaraçãozita sobre a rotunda da fábrica dos fósforos – não me seduz. Caçar o senhor presidente da Junta numa almoçarada de caçadores, pescadores & outros mentirosos como ele – não me arrebata. Perder a manhã de domingo na décima inauguração do mesmo lar de velhinhos terminais a um mês das autárquicas – não me põe na certeza do Pulitzer. Que fazer, pois, em alternativa?
Nadinha. A não ser que.
A não ser que, da névoa, se recorte com nitidez algo que valha a pena estudar. Digo: algo ou alguém. Algo que nada tenha a ver com rebanhos santuário-centenários mas sim com força real, interesse útil, gesta pró-solidária. Ou alguém de vida exemplar cuja cara lavada reitere as virtudes da água, do sabão e da ética, ao invés da porcaria de gente que sobrepovoa as valetas e os montados. A não ser que isto, nada daquilo.
Sim, sim: o plasma é lixado. Aqui, posso dar um exemplo: a um Amigo meu, roubaram-lhe o que tinha comprado por uma catrefada de notas. Fartei-me de o avisar, lembro-me tão bem disso. Eu assim para ele: “Ó Delfim-Zé, tu não compres essa porra, pá, tu não compres essa porra porque essa porra, uma vez ligada à ficha, só dá jornalixo, pá. E mais: se quiseres ver o teu Benfica, tens de ir à spórtévé do Café gastar em bejecas e amendoins o leite da menina. E tu olha-me que coiso, ainda te roubam essa porra e depois já cá não me tens a mim para escarrapachar isso no jornal.” E assim foi, está ali ele que não me deixa mentir.
Mas agora, uma notícia boa: para a semana, prometo-vos uma crónica ainda piorzinha do que esta. E, por pirraça, em 3985 caracteres-incluindo-espaços e a fazer-se ao boneco como esta.


Sunday, April 23, 2017

Ao Sol, Somos de Transparente Nome (republicação)





Ao Sol, Somos de Transparente Nome



Entardenoitecer de 6 de Janeiro de 2009



Ao sol, somos de transparente nome,
também ninguém no-lo pergunta, di-lo
o nosso corpo atirando sombra ao chão
como água preta.
Precisamos de esperar a noite para
que nos seja devolvido o anonimato civil.

Eu agora sei estas coisas de cor a preto-e-branco,
sei porque sei, sei
porque estou vivo ou coisa assim,
tirando o meu corpo.

Sempre fizemos
tanto barulho
em poesia
com o tema do silêncio,
tanto foguete com o da noite,
tanta vozearia bradada a surdos,
tanto pirete à cara dos cegos,
sei que é assim pelos livros que tenho tido e lido e sido,
não sei é porquê,
deve ser daquilo a que se chama a
Condição Humana,
Malraux incluído.

A gente tem de aproveitar o sol, esse foguete perpétuo
que torna tudo agosto e tudo português para sempre,
eu acho que é assim, aproveitar o sol sempre
com o nome todo virado para ele
antes que se faça tarde
e seja noite.