Thursday, March 16, 2017

DA INSANÁVEL INEXISTÊNCIA DE DEUS - Rosário Breve nº 497 - in O RIBATEJO de 16 de Março de 2017 - www.oribatejo.pt





Da insanável inexistência de Deus



Foi há mais de trinta anos. O filho de um Irmão meu ficou-nos doente de uma pneumonia séria. Filtrado pela urgência pediátrica, ficou internado com a mãe. Lá fomos todos, em aflita procissão, a saber dele, atulhando a sala-de-espera de uma ânsia inominável. Fazíamos óós com a boca como peixes de aquário não ventilado. Devagarinho, o menino convalesceu. Parecia um lírio transparente. A boquita de morango, gretada pela febre, ensinava-nos o código-de-barras da desidratação. Como sempre sucede em todo o resto de todo o mundo, as mulheres mostraram-se mais fortes. A Cecília não desamparava o filho da vida dela. A minha Mãe, a minha Irmã e as minhas outras cunhadas conluiaram-se num gabinete-de-crise que jamais vacilou no combate ao infortúnio. Nós, homens, meu Pai incluído, parecíamos pardais partidos à pedrada. Foi então que, no decurso da primeira visita autorizada, cometi um dos mais amargos erros da minha vida. Só agora, mais de três décadas depois, me sinto em robustez para contar tal passe.
Era no Pediátrico antigo. As regras de estadia e de circulação eram então muito mais relaxadas do que agora são. Com todos à volta do Ruizinho, dei-me à derivação. Da enfermaria dele, atraído pelo Minotauro da curiosidade, fiz-me ao labirinto. Dei por mim num dédalo sem retorno.
Sem médicos nem enfermeiras que me tolhessem o passo, adentrei uma enfermaria escurecida como noite privada. A um canto alto, uma luz-de-presença tiritava a febre de um amarelo glauco, um amarelo mau de pus quente. Quem me dera, hoje, não ter entrado naquela divisão irremediável. Mas é que entrei. E até hoje dela não saí – por causa deste pecado portátil chamado lembrança.
Era a enfermaria dos casos sem remédio. E era a demonstração mais cabal, mais prática e mais científica da inexistência de Deus. De qualquer deus de qualquer seita de qualquer superstição de qualquer cegueira & de qualquer guerra em Seu Nome.
Era uma menina, a primeira criança incurável que vi. As mãozinhas perfeitas e o rosto da mais desarmada e mais desarmante lindeza eram contrariados pelo capacete da hidrocefalia. O crânio descomunal, eivado de veias azul-cobalto estrangulando uma miríade sideral de róseos riozinhos, tornava aquela filha-de-alguém numa espécie insuportável de extraterrestre dos piores filmes. Senti de imediato a gravidade do meu erro e a indesculpabilidade da minha devassa.
Mais além, um menino. Tinha três anos de vida, apurei depois. Nesses três anos, só chorara. Era cego, era surdo, era de janelas fechadas a todo o exterior. Soube depois que, desenganados pelos médicos de toda a esperança, os pais daquele bambino insanável o haviam deixado ali para o que não desse e jamais viesse.
Não me lembro dos outros quatro, doze ou mil que ali jaziam. Fugi como o covarde que passei a ser até que a morte me chame pelo nome privado que a minha Mãe me chamava para lhe dar um beijo.
Calma, que isto ainda não acabou. Uma década e uns pós depois, encontrei-me no átrio do Hospital Novo com uma amiga. Chocou-me vê-la a chorar sem peias nem remédio. Afinal, ela era ali médica. O problema era ela ser daquelas pessoas clínicas que continuam a ser pessoas apesar do estetoscópio. Quis consolá-la. Não pude. Vinha de avaliar um caso perdido. Uma infantazita de quatro anos. Leucemia infantil.
Viemos, ela & eu, para este Café de onde vos escrevo. Finjo que ela, Dr.ª Maria da Conceição Saraiva Pinto Athayde, está comigo ainda. É fingimento meu. Ela não está. O cancro levou-no-la em Dezembro de 2007.
Escrevo de novo as duas palavrinhas que negam Deus: Leucemia Infantil. Pouso o lápis e faço como o senhor meu Pai fazia, que era isto assim: olho o mundo derredor e não encontro nele sinais quaisquer de qualquer divindade. Do Diabo sim – e por todo o lado.





Thursday, March 09, 2017

ENDECHAS ORGULHOSAMENTE SÓ PARA PORTUGUESES - Rosário Breve nº 496 - in O RIBATEJO de 9 de Março de 2017 - www.oribatejo.pt



Endechas orgulhosamente só para Portugueses



1 Havia a Caixa das bolachas e havia a Lata das bolachas.

As da Lata eram para os filhos.
As da Caixa eram para quando a Avó vinha.
Seguíamos a Mãe: nós filhos nunca tocávamos nas da Caixa.
É talvez isto que é preciso dizer à ladroagem bancária destes dias.
Pena é terem Avó & Mãe morrido já.
Continua a ser preciso ter lata, todavia.


2 Outra coisa que havia, ou passou a haver desde 1975, era Angola independente. Ao empate técnico da guerra, sucedeu-se o reconhecimento, inevitável aliás, da auto-determinação. Mas o povo Angolano não é independente, nada disso, longe disso. O colono de agora é apenas da mesma cor da pele. Uma família com uma quadrilha de “generais” – e está a plutocracia consumada. Mais me custa ter morrido cada homem, preto ou branco, entre 1961 e 1974 – para esta nefanda cleptocracia.

3 Daria dinheirinho, que nunca tive, para ler o mural do Facebook em, digamos, 1940, ano da Exposição do Mundo Português. Gozão, saborearia a preceito os dislates de pasmo, baba & ranho dos meus compatrícios ante as maravilhas de gesso & papelão dos pavilhões imperiais. Em secreto ficheiro, faria copy-paste das hashtags tributárias da magnificência do nosso “Império”, do nosso messiânico Salazar, do nosso nunca desmentido fascismozito-de-paróquia, do nosso Portugal-dos-Pequenitos-do-Minho-a-Timor. Mas quando éramos miúdos não havia Facebook. Havia os nossos Pais vivos. Aprendia-se muita coisa na mesma, que carago.

4 Parece que escrevi um palavrãozito. Já não vou a tempo de substituí-lo por alguma interjeição mais branda. Fica assim. No devido contexto, o calão é-nos tão natural quão uma tachada de feijoada, uma travessazorra a transbordar de cozido, o contentor inchado de lixo a deitar p’ra fora – ou uma écloga definitiva de Camões. Repare-se nisto de o reeleito presidente do Sporting Clube de Portugal ter blasfemado – ou bardamerdado os infiéis ao Leão. Mal nenhum, acho eu. Francamente: mal nenhum. É português, é só nosso. Antes isso do que ser gago. Independentemente de qualquer contexto, a portuguesíssima palavra "bardamerda" não tem rival. Aquilo da "saudade"? A saudade que vá bardamerda.

5 Não faço a mínima ideia do que sejam dez mil milhões de euros.

Não faço a mínima ideia do que sejam mil milhões.
Não faço a mínima ideia do que seja um milhão.
Mas de um gatuno, ah sim, tenho ideia.
De um vezes dez milhões deles.

Porquê? Fácil: porque somos dez milhões de pequenitos que, podendo, roubaríamos também o nosso naco em detrimento do vizinho, quiçá do próprio irmão. Ou do nosso filho, roubando-lhe o neto. Se vos parecer cru isto que digo, ainda bem. A factura falsa é a nossa vocação, não a reivindicação de um fisco mais justo, mais equilibrado, mais pertinente. É como dar uma moeda de dois euros para a-fome-em-Angola. É ou não é? É pois. Ou como ter saudade do tempo em que já tínhamos ido bardamerda mas não sabíamos, como ainda hoje não sabemos e como amanhã nos não lembraremos.
Que carago.




Tuesday, March 07, 2017

LAUR’ÁGUA





LAUR’ÁGUA



In memoriam Laura Maria Macedo Trindade
(Leiria, tarde de Domingo, 5 de Março de 2017)



Morrinha.
Céu fosco.
Último dia do circo na cidade.
Solidão (de) esplanada.
Sem cor, as coisas todas a lápis.
A luz transdesaparece.
A noite é certa.
Morreu, ontem talvez, a Laura.
Laura Maria Macedo Trindade.
Era do Porto.
Deixou filho & filha.
Dorme-se muita em vida.
O rosto dela desatransparecendo.
Morrinha.



Thursday, March 02, 2017

DA FELICIDADE AO CALHAS - Rosário Breve nº 495 - in O RIBATEJO de 2 de Março de 2017 - www.oribatejo.pt





Da felicidade ao calhas



Há muitos anos que não resisto às montras das lojas de electrodomésticos. Quedo-me sempre ante cada uma. Fascina-me mormente a esquizofrenia dos televisores ligados a canais diferentes. O melhor daquele aparato, todavia, está na falta do som. São como os aquários. Como os aquários e como as lareiras, manam qualquer coisa de hipnótico que faz a vista não pen(s)ar. Ambulâncias que não gritam, carros da polícia que não uivam, idosos negrejando o granito das luras serranas, velhinhos urbanos aos saltos em fantásticas promoções de linimento milagroso capaz de embalsamar o reuma das articulações, flashes do carnaval permanente do senhor Presidente, planos mais ou menos demorados dos viga(c)ristas que protagonizam a corrupção-ao-milhão do momento, a recentíssima invenção das ondas gigantes da Nazaré, desastres matematicamente fatais ensanguentando as rodovias, rostos de bombeiros exaustos com o ígneo inferno por pano-de-fundo, apreensões de droga a granel, putos com armas, ex-maridos com catanas, divórcios gay de ribalta pindérica, supostos talentos canoros e instantâneos, o malar mineral do senhor ex-PR, a estupefacção ensaiada do senhor ex-PM, coacções preventivas de pais, filhos & Espíritos Santos, imparável afromuçulmanização daquilo a que outrora chamámos Europa, o comunismo evidentíssimo do Papa franciscófilo, o dobermanismo evidentíssimo do mastim da Rússia, os mais recentes tweets da cenoura maluca que USAmericanos entronizaram, a palidez indignada de Angola ante as coloniais suspeições de corrupção, outra vez o senhor Presidente dos Afectos passarinhando à beija-flor o jardim lusitano – e bola, sempre bola, muita bola, cada vez mais bola.
Há muitos anos que, ante as montras electrodomesticadoras, e sem estar sentado, espero a reportagem decisiva, muda embora, que mostre & demonstre a via que leve ao trabalho para todos, à escola deveras instrutiva, à limpeza definitiva dos rios, aos hospitais não sobrelotados, aos sábados de correios, postos de saúde e bibliotecas abertos todo o dia, à energia solar aproveitada em pleno, à capitalização do mar como tesouro sem fundo, à naturalidade do civismo como premissa de cidadania.
Não me parece que sequer uma destas coisas tenha esse televisor para me vender. Para me vendar, terá. Para me vender, não tem. Por conseguinte, lá me consigo soltar do pasmo hipnótico e vou à minha vida. Vou ciente de ser toleima irremediável esperar seja o que for de um País (e de um mundo) de máquinas mudas electrodomesticando um rebanho de surdos. E cegos. E mudos.
E, assim como assim, se calhar felizes – felizes como o senhor, senhor Presidente.

Thursday, February 23, 2017

TENHA MAS É VERGONHA, SENHOR MINISTRO DO TEJO - Rosário Breve nº 494 - in O RIBATEJO de 23 de Fevereiro de 2017 - www.oribatejo.pt





Tenha mas é vergonha, senhor ministro do Tejo



Três cavalheiros bem apessoados, não moços já, passeiam lentos à face do rio local, lamentando deste, em coro grego, a poluição gravíssima. Dá todavia um deles não contrariado sinal de optimismo. Diz ele que “há quem se ande a mexer – e a mexer-se bem – para que esta infame lástima seja remediada”. “Oxalá!” – considero eu para comigo, que, os não conhecendo, lhes não falo.
Lá vai já o trio, sigo eu em rumo inverno/inverso. Aporto entretanto ao lado poente do quadrilátero da praça. É galeria de arcadas a que se acolhem três estabelecimentos de Café. O meu é o do meio. Acampo nele a ferrugem óssea. D’além, a Sé exala uma largueza fria de calhau grande. A noite é a realidade mais imediata, a mais terminada: & a mais terminante. A meu bel-prazer, isto é tudo descampado deserto. (Falo em concreto da praça, não em geral da vida – mas.) Mesmerizada pelo televisor, a moçoila balconista, de um acne de joalharias, nem pestaneja. Fico cá fora, claro – para fumar & para ser o arquetípico poeta de província ante o cão magro (aquel’além) que fareja a pomba que a estas desoras já não há: lá vai ele, cão de si, sem deus nem amo.
Tipo gambiarra natalícia, luzipupilam-me a mente ideias-pirilampos. Uma é aquilo do Tejo conspurcado por gananciosos pecuário-celulósicos até hoje impunes em barra tribunalícia. Outra – ter relido hoje Daniel Filipe, o ilustríssimo Daniel Filipe, o maravilhoso Daniel Filipe absolut’absurdamente desconhecido de/por este país-zé-pereira-de-arraial que nem à própria mãe reconheceria sobre passerelle de cabras. Outr’ainda – o supino prazer que senti à flagrante leitura da crónica de Fernando Paulouro Neves com data de 9/2/17 deste Jornal, aquela em que ele, como eu, quer mas é que deixem sossegado, em seu dinâmico panteão gastronómico-detectivesco, Don Manuel Pepe Vásquez Carvalho Montalbán. Mais uma: a recordação pueril de um café-beberagem-sítio tomado, em incerta manhã pluvialíssima, no Royal da santarena Rua Capelo e Ivens. Desenvolvo:
Era no Royal Café da santarena Rua Capelo e Ivens, era em Santarém. Chovia, por então, de desalmar o coração. Ia eu de moedas contadas nessa sexta-feira tipográfica. Adentrei o santuário quási exíguo, pedi café-café, de que fui servido por correctíssima matrona. Não é prado de fumadores, aquele posto. Aguentei-me. Para não sofrer tanto o desmame de nicotina, pus-me a pensar: no Tejo cancerigenado à força; ao mesmo tempo, no Daniel Filipe da Pátria, Lugar de Exílio – e isto tudo à mesma luzinha-de-gambiarra no estar fora-de-casa à mercê de uma chuva alheia. Também pensei no abandono ferroviário da Capital do Ribatejo. E no que disse outro Daniel (Matias, este), leitor facebookiano do meu Jornal: “Há cidades do interior [em situação] muito melhor do que esta aldeia grande a 70 km de Lisboa.” E, analógica lampadinha de gambiarra, pensei também, vendo o tanto que chovia à porta do Royal, no que comentou Fernando Prazeres, também ele leitor & também ele pelo Facebook/O Ribatejo: “A porcaria de dormitório que é a nossa cidade. Nada fazem. Estagnou no tempo. Chego a ter vergonha.”
Palavras fortes. Tão mais fortes quão mais justas, valha a verdade. Num estremeção, o pensamento-gambiarra vê-se-me projectado ao número seguinte do Jornal. Desta monta (ou volta; ou mote), Fernando Paulouro Neves surge obituário: morreu Tzvetan Todorov, um senhor que era búlgaro q.b. para só poder ser (re)conhecido em Paris pelos estrutur’existencialistas do costume.
Já não sei em que Café estou – se no das arcadas expostas à frialdade irremediável da queiroziana (e amara) Sé, se no Royal da terra de Bernardo Santareno, que decerto leu Daniel Filipe, que decerto aplaudiu Bernardo Santareno.
O Rio é & será, enfim, o mesmo. Só aliás haverá um rio: a montante, o do nascimento; a jusante, aquele que sabemos. Quereis ver? Vêde:
Três cavalheiros bem apessoados etc.:  Montalbán, Todorov, Daniel Filipe.
Ou três cães sem amo, que afinal conheço e a quem falo.
Nisto, mesmo a desoras, passa a pomba.

Thursday, February 16, 2017

PILHÉRIA COM PILHAS AU COGNAC - Rosário Breve nº 493 - in O RIBATEJO de 16 de Fevereiro de 2017 - www.oribatejo.pt



Pilhéria com pilhas au cognac



Na semana passada, dei-vos conta de (in)certa viagem minha para breve. Esta semana, digo-vos que parte desse périplo está cumprida já. Não interessa por ora aonde fui fazer o quê. Não é por rebuço de mistério que fecho isso em copas – é porque (ainda) não vem ao caso. Ao caso, todavia, vem o ganho com que fui remunerado. Digo: os ganhos, que vário me foi o lucro pessoal na & da jornada. Mostro exemplos.
Fui e vim de expresso rodoviário. Anoto: achei-me bem servido. Horário escrupulosamente cumprido. Segurança, conforto, placidez, despacho. Um senãozito apenas: à ida, tive por vizinhança de assento um papagaio ginecológico com quase tantos aniversários quantas camadas de tinta na tromba engelhada. Quase não largou o telemóvel a viagem toda. Ao filho divorciado, para inquirir se o pobre tem ou não tem visto os filhos que co-fez com a inominável outra que o trocou por um dentista do Sabugal. À filha, professora num paul de Portalegre, a demandar se sempre vai com a mamã ao espectáculo do papa Francisco (sessão dupla em Maio numa cova-da-iria perto de si). À amiga Madalena para lhe contar tudo-tudinho do que filho & filha lhe mentiram.
Estive perto – ou antes, não andou ela longe – do estrangulamento, radical remédio a que não dei deferimento por ter alergia micótica a pescoços de galinha velha e por não estar para me chatear depois com o motorista, que era um gordo feliz & sabedor das letras todas das canções todas com que a Rádio Renascença unge o desmiolado rebanho de Deus que é o meu. Lá chegámos, enfim.  
Vieram buscar-me ao ponto combinado. Recebi logo demasias de lorde. Deram-me café & conhaque, tabaco acabadinho de amortalhar, uma fotografia emoldurada do senhor presidente da Câmara a rir-se muito por ter na mão direita um saco cheio de pilhas para o pilhão & na mão esquerda um vereador de barbas oitocentistas também muito feliz por causa das pilhas e das barbas e de estar na mão do senhor presidente da Câmara, uma caneta de tinta mais permanente do que as tretas que escrevo, um CD autografado pelo Tony Carreira com espaço em branco para eu lá fingir o meu nome com a caneta nova, deram-me mais conhaque a pretexto da filosofia maravilhosa que é a de um-dia-não-são-dias, levaram-me ao W Shopping para eu fazer um poema de fazer lacrimejar os calhaus da calçada sobre a pedinte de serviço à porta, fiz o poema e fui muito aplaudido pelos analfabetos do tipo isto-é-um-país-de-poetas, levaram-me aos ombros até um tasco maravilhoso que fez da feijoada de caracoleta uma religião do palato e cujo vinho-da-casa assentava no porão como um colchão de veludo, por estar a chover ficámos deliciosamente sitiados no dito tasco, cujo conhaque-da-casa era servido a biberão aquecido, deram-me conselhos sobre como resguardar o meu desta comédia toda da Caixa Geral de Depósitos, aproveitei para mandar umas bocas impenitentes & impertinentes sobre a mansidão acrítica do vulgo cada vez que há autárquicas, coisa que não foi bem recebida porque o vulgo às vezes percebe que é corno-manso mas não gosta que lho digam nas ventas, valendo-me a intempestiva chegada, a recolher-se da chuva, da senhora que tem uma filha professora em Portalegre ou no Sabugal ou em Fátima, na altura não fui capaz de precisar e agora também ainda não.
Trouxeram-me em carrinho-de-mão de volta à Rodoviária, descalçaram-me de botas porque o inchaço das patas me dava ânsias de morrer sem ter feito mais filhos, nem escrito mais livros, nem urinado em mais árvores, à cautela marcaram-me nova viagem para quando o pus do fígado desse sinais de conformidade com os níveis impostos pela União Europeia, semearam-me no bolso da jaqueta uma de vinte para o táxi entre a gare & a mulher, pediram-me que voltasse para a semana por ser certo que o W Shopping muda de pedinte à porta, havendo pois que fazer versos novos em celebração de tal aparato. Aquiesci, claro que aquiesci.
Se por ora mais não conto, é por me faltarem as pilhas, ao contrário dos barbudos felizes para quem isto da responsabilidade é tudo uma letra vã como a das canções da Rádio Renascença.



Thursday, February 09, 2017

EM MODO DE PRÉ-VIAGEM - Rosário Breve nº 492 - in O RIBATEJO de 9 de Fevereiro de 2017 - www.oribatejo.pt



Em modo de pré-viagem



Estou em antemão de viagem, cujo montante temporal desconheço mas de cujo benefício vos farei relato aqui mesmo, a ocasião vinda. Isto quer dizer que os pardais residenciais e a pomba solitária da Praça Nova vão ter de desenrascar-se sem mim por uns tempos, quebrada a nossa rotina diária do bocadito de pão & da mãozita de arroz. Não é de extensa geografia, a jornada a que me proponho. A partir de um ou dois marcos geodésicos, traçarei panorama de um meio-século laboral, humano portanto. Mas a seu tempo esse Tempo. Para já e por enquanto, viajo de outra maneira. A outra maneira é, sumariamente embora, recordando certa viagem já muito pretérita que reservou poltrona à lareira da minha lembrança.
No Outono de 2002, fui a Bruxelas. O que me lá levava, foi feito sem pressas nem demora, sobrando-me tempo para caminhar sozinho com o lápis do costume por companheiro. Tinham-me recomendado certo incenso de certa loja na Chaussée d’Ixelles. Acatei o conselho e aviei a encomenda. Não era difícil: fui pela Rue du Prince Royal, claro, subi a calçada não agreste (estava bom tempo, o sol era fresco, adequada a minha roupa, boas as botas e bem atacadas de cordão grosso), muni-me do incenso. Decidi então, como é evidente, procurar um Café de portugueses. Fazia-me falta o binómio bica-bagaço de cuja imprescindibilidade quotidiana os estranjas, Belgas ou não, sabem nada. Encontrei o que desejava no n.º 6 da Rue Lesbroussart: o brioso Café Braga. Adentrei o estabelecimento e, ao balcão, soltei um quase estentóreo “– Atão munto boas tardes ós presentes.” Correu muito bem, como só podia. Tomei quatro chávenas lusíadas à maneirex, nada que ver com a água-de-lavar-cafeteiras a que os Belgas chamam café. Deixei-me por ali estar coisa de hora & meia a parlapiar com os circunstantes sobre benficas-sportings-e-coiso. Só havia um casalito indígena namorando em bárbara língua, o resto era tudo portuga, mormente minhotos. Um rapaz já descriado, que era de Monção (recordo isto como se estivesse sendo agora), ofereceu-me um sorriso manhoso do maior entendimento tácito. Devolvi o sorriso, mas só já na rua percebi o porquê da peculiar simpatia: o magano interpretara a fragrância da embalagem de incenso como sinal de substância para fumar às escondidas, daquele material que ou faz rir ou dá fome ou as duas coisas. Regressei ao hotel sem maior novidade e dois dias depois ao nosso incomparável, egrégio & ínclito torrão pátrio.
Antes da Bélgica, tinha ido a Cabo Verde. Faz Julho próximo vinte anos. Foi também por trabalho, que na altura me não faltava mas hoje não hei nem há. Hei-de talvez cronicar ainda algumas linhas sobre essa demora de três semanas na Cidade da Praia, não agora. Também já fui a Vigo, a Sevilha e a Madrid. Não importa, agora.
Agora, estou fazendo a mala (pequena) para a viagem de sexta-feira próxima. Sou maníaco de indispensáveis, tendo portanto aprestado já no bornal o seguinte (enquanto enumero, colmato falhas): o retrato de casamento dos meus Pais (original de 25 de Julho de 1943), os dez volumes de Portugal Século XX – Crónica em Imagens de Joaquim Vieira et alii para o Círculo de Leitores, um frasco de maçãs cozidas em calda de açúcar, um par sobresselente de atacadores das botas (para não arrastar a marcha em terra alheia), uma carta manuscrita de recomendação da minha pessoa dirigida ao senhor presidente da Misericórdia local (mas a utilizar só em caso de agonia súbita tipo falta de carcanhóis para o regresso), gravata para exibição na Assembleia Municipal (mais o bigode postiço para me não associarem aos gajos do jornal), papelucho com rol de presentes endógenos (tóxicos e inócuos) a adquirir em lojas certificadas, a camisa branca mais a outra que é castanha (mas só usar esta com camisola por ter um rasgão diagonal à altura do fígado), pão & arroz para a passarada de lá e o lápis do costume.
A ver se na lista me não esquece de apontar o incenso, que o belga já se me acabou há uma irremediável eternidade. Isso – e voltar à primeira oportunidade, que a mulher pode habituar-se ao sossego, e depois, posto e vivendo na rua, ainda me arriscar a ser abraçado pelo senhor Professor Presidente Marcelo, de lágrimas os dois qual par de Madalenas tipo andava-a-desgraçadinha-no-gamanço.