Thursday, April 27, 2017

ROSÁRIO BREVE N.º 503- in O RIBATEJO de 27 de Abril de 2017 - www.oribatejo.pt





É de um gajo ficar plasmado



Fiquei por estes dias a saber que “plasma” significa “história ficcional”. Mentira, portanto. Nem mais nem menos. É coisa dos Gregos, claro. Quando esses tão sábios Antigos se referiam a coisa “moldada”, “modelada”, “trabalhada”, zunga!, chamavam-lhe plasma.
Recentemente também, e ainda, cacei por aí um jocoso trocadilho que alguém, em muito boa hora, inventou: “jornalixo”. Achei um piadão ao neologismo, até por ele ser de sentido tão franco, tão cabal – e tão acertado.
De modo que “plasma” e “jornalixo” são já & doravante justos sinónimos para mim.
O espectáculo da comunicação anti-social é de facto miserável. E a miséria começa pelo idioma. A Língua Portuguesa é uma pérola atirada a (quase) dez milhões de porcos. (NB: Os leitores de O RIBATEJO são o “quase” entreparenteticamente salvaguardado.) Disto, ninguém me tira. As sevícias e o desleixo a que é sujeita são insuportáveis. (Não, não vou dar exemplos. A cama é curta e a manta da crónica é estreita.)
Depois, dá-se a perfeita incapacidade de jornais, rádios, televisões e internetices quanto a distinguir o essencial, isso tão fininho que separa o interesse-público do interesse-do-público. É a rebaldaria total: assuntos mesquinhos, soezes ângulos de abordagem e perspectiva, investigação nula, partidarização subjectiva total, apresentação sabuja. Chego a ter nojo físico, ao nível do eczema, de tais subprodutos do plasma à portuguesa.
O jornalixo é fortíssimo. O jornalixo é tão mais forte quão mais fraquinho é o público. E versas e vices. São já muitos os anos passados sobre o dia em que atirei para remo(r)ta gaveta a minha carteira profissional. Em uso dela, é certo, conheci, convivi e interagi com alguma gente boa, isso é verdade. Tanto do lado de dentro (as redacções), como do lado de fora (o mundo, enfim). Mas essa dimensão era a da excepção. A regra era a ordinarice, o analfabetismo funcional, a desonestidade, o lambe-botismo, a cusquice, a cunha, aquilo de uma-mão-lavar-a-outra resultando em duas patas sujas. Fartei-me.
Ainda bem que me fartei. Vivo hoje um desemprego que só não é paradisíaco por lhe faltarem o fim, o meio e o princípio do mês quanto a guito. Tirando isso, tudo bem. Maravilha, até.
Se tenho saudades de quando o dia-a-dia se media por tantos caracteres incluindo espaços, com ou sem boneco? Não tenho. Perseguir telefonicamente o senhor vereador para uma declaraçãozita sobre a rotunda da fábrica dos fósforos – não me seduz. Caçar o senhor presidente da Junta numa almoçarada de caçadores, pescadores & outros mentirosos como ele – não me arrebata. Perder a manhã de domingo na décima inauguração do mesmo lar de velhinhos terminais a um mês das autárquicas – não me põe na certeza do Pulitzer. Que fazer, pois, em alternativa?
Nadinha. A não ser que.
A não ser que, da névoa, se recorte com nitidez algo que valha a pena estudar. Digo: algo ou alguém. Algo que nada tenha a ver com rebanhos santuário-centenários mas sim com força real, interesse útil, gesta pró-solidária. Ou alguém de vida exemplar cuja cara lavada reitere as virtudes da água, do sabão e da ética, ao invés da porcaria de gente que sobrepovoa as valetas e os montados. A não ser que isto, nada daquilo.
Sim, sim: o plasma é lixado. Aqui, posso dar um exemplo: a um Amigo meu, roubaram-lhe o que tinha comprado por uma catrefada de notas. Fartei-me de o avisar, lembro-me tão bem disso. Eu assim para ele: “Ó Delfim-Zé, tu não compres essa porra, pá, tu não compres essa porra porque essa porra, uma vez ligada à ficha, só dá jornalixo, pá. E mais: se quiseres ver o teu Benfica, tens de ir à spórtévé do Café gastar em bejecas e amendoins o leite da menina. E tu olha-me que coiso, ainda te roubam essa porra e depois já cá não me tens a mim para escarrapachar isso no jornal.” E assim foi, está ali ele que não me deixa mentir.
Mas agora, uma notícia boa: para a semana, prometo-vos uma crónica ainda piorzinha do que esta. E, por pirraça, em 3985 caracteres-incluindo-espaços e a fazer-se ao boneco como esta.


Sunday, April 23, 2017

Ao Sol, Somos de Transparente Nome (republicação)





Ao Sol, Somos de Transparente Nome



Entardenoitecer de 6 de Janeiro de 2009



Ao sol, somos de transparente nome,
também ninguém no-lo pergunta, di-lo
o nosso corpo atirando sombra ao chão
como água preta.
Precisamos de esperar a noite para
que nos seja devolvido o anonimato civil.

Eu agora sei estas coisas de cor a preto-e-branco,
sei porque sei, sei
porque estou vivo ou coisa assim,
tirando o meu corpo.

Sempre fizemos
tanto barulho
em poesia
com o tema do silêncio,
tanto foguete com o da noite,
tanta vozearia bradada a surdos,
tanto pirete à cara dos cegos,
sei que é assim pelos livros que tenho tido e lido e sido,
não sei é porquê,
deve ser daquilo a que se chama a
Condição Humana,
Malraux incluído.

A gente tem de aproveitar o sol, esse foguete perpétuo
que torna tudo agosto e tudo português para sempre,
eu acho que é assim, aproveitar o sol sempre
com o nome todo virado para ele
antes que se faça tarde
e seja noite.









Thursday, April 20, 2017

ROSÁRIO BREVE N.º 502- in O RIBATEJO de 20 de Abril de 2017 - www.oribatejo.pt




É perguntar ao David, talvez




Tenho sonhado mais, ultimamente. Não são pesadelos nem delícias. São farrapos de lucidez entremeada de desconcerto. Algumas pessoas, apesar de mortas, passeiam-se-me pelas arcadas do inconsciente como se aquilo de terem vivido tivesse afinal solução – e continuidade. Outras, apesar de vivas, parecem não crer que as vivo, que as tenho em conta, as considero já tão santas como se me houvessem morrido.
Não sei. Desperto a meio caminho de nenhures, provindo de lado nenhum. De volta, a consciência não me traz especial reconcertação para com a realidade. Vogo. Estendo a garra mole para a cabeceira, onde os óculos cegaram toda a noite. Os joelhos rangem como dobradiças de mosteiro. Uma orelha quente, outra gelada. A bexiga, despontando costuras. A espinha, retesa qual cordame náutico. Iça-me a grua do tem-de-ser. Viro a página do lençol com brusquidão de leitor ingrato. O elástico da cinta do pijama já nem para cingir réstias de alhos serve. Uma pantufa, fiel, escolhe o pé errado. A outra migrou para o azimute mais inalcançável do porão da cama. Rumo à latrina, coxeio à maneira de pombo com noventa quilos. À passagem, o espelho denuncia-me o cabelo em imitação oleosa do David Bowie. A pança faz-me boneco-da-Michelin. Alivio-me em puro aparato filosófico: tudo o que começa por torrente a jacto, sem remédio acaba às pinguinhas.
Na banca do lavatório, as coisitas da mulher da casa pontuam o texto da ausência dela: o secador, a escova, a etérea transparência nocturna amarfanhada no cestinho das sedas, a tesourita das sobrancelhas, os mil truques mínimos que escoram a descomunal beleza dela.
Rumo à cozinha, bocejo cavernames de Mira de Aire. Copo de água para lavar a adega. Cafeteira, caneca amarela, micro-ondas. Sala. Notícias, primeiro cigarro. Palhaçada das presidenciais em França. Grunho: Eliseu dos Recreios (tomar nota do trocadilho para crónica). Atentado não sei onde. Palhaçada da autocanonização geral: refugiados, Papa, de novo na moda os sem-abrigo de Lisboa e o Santana na Misericórdia, Marcelo por todo o lado como os buracos da estrada e as chaminés inúteis das fábricas extintas e a certeza de morrer um dia. Os crimes da, perdão, na CMTV. O próximo Sporting-Benfica a render dezasseis horas por dia desde 28 de Maio de 1926. Desligo à bruta. O café arrefeceu. Micro-ondas. Segundo cigarro. Esquentador. Polibã. Muito melhor. Volto a ser um belo homem. Saio do vapor como um dom-sebastião sem feridas a mais. Prazer delicado da roupa interior lavada de fresco. Camisa fina como segunda pele. Fidelidade do cinto de cabedal no cós. Sapatos leves de busca-rimas. Um meio-dedo de fragrância nas almofadinhas da orelheira. Chapéu de palerma como os há muitos. Pronto.
Já na rua, disponível todo à maravilha exótica da aventura urbana – mas cuidado nas passadeiras. Todo aberto ao encontro de poetas, arquitectos, ecologistas, velejadores olímpicos – mas só os velhos de sempre na pastelaria do costume. Ainda todo crente no ser hoje o dia de dar começo ao Romance Português do Século – mas só o Record de ontem para romancear o Portugal secular. Remédio infalível de cónego velho: ir tomar um doce à choupana atrás dos plátanos, onde o rio espuma as aurículas aos melancólicos. Não para falar com alguém – mas para ter alguém a quem ouvir falar (tomar nota dos ditos para crónica). Décimo-segundo cigarro. O telemóvel chamando. Atendo. Engano de lá. Como sempre. Comprar-me-ei alguma vez um aparelho que dê o meu número correcto a alguém que se não engane tanto comigo? Alguém que me creia vivo, me tenha em conta e me considere santo à guisa de um desses mortos de sonho como, sei lá, o David Bowie?
Adormeço.


Thursday, April 06, 2017

ROSÁRIO BREVE N.º 500 (MAIS UM SÉCULO) - in O RIBATEJO de 6 de Abril de 2017 - www.oribatejo.pt



Rosário Breve n.º 500 (mais um século)



Sim, verdade: esta é a crónica n.º 500 da série Rosário Breve. Parece mentira. Quinhentas semanas aqui. Se é um privilégio não escrever para a gaveta, redobrado privilégio é fazê-lo na e para a última página deste Jornal. Sinto profundamente isto que aqui deixo dito. Faz em Maio próximo dez anos que aqui dei por publicada a primeira coluna. Estranha coisa: uma década esfumada assim, assim como se nada fosse. No entanto, cá cantam, nos ossos e no gasto de tantos lápis, esses dez anos. É com alguma perplexidade que conto cinzas. Quinhentos prumos de fumo, quinhentas miradas, quinhentos grandes-tudos & quinhentos pequenos-nadas. Adiante, todavia.
Adiante neste sentido: por felicíssima coincidência, esta crónica n.º 500 alinha-se em perfeita esquadria com uma outra efeméride que, essa sim, ilumina solarmente a minha vida – segunda-feira próxima, 10 de Abril, é o centenário do nascimento do senhor meu Pai. 500x100, portanto. Esta crónica só poderia ser deposta a seus pés. Mais do que um bom homem, o meu Pai foi um homem bom. A alteração do lugar do adjectivo diz (quási) tudo dele. Daniel dos Santos Abrunheiro nasceu a 10 de Abril de 1917, morrendo a 24 de Abril de 1994. Se em sorte me couber o total de anos que foi o dele, tenho ’inda mais 24 para fazer sombra pelo chão, honrando-lhe o nome até quando, à imitação dele, estiver dormindo.  
Encerro com um texto que lhe dediquei há uns anos já. Antes, todavia, deixo este recado ao meu Leitor: sou-te profundamente grato – sim, a ti, que tanto lápis me fazes gastar em prol de uma gaveta que não preciso de abrir.

Tesouro

Vi os olhos do meu pai na cara de um homem que passava na rua.
Durou pouco, o regresso desse olhar de cão batido.
O homem olhou-me com um olhar que já era o dele.
Fiquei parado na rua.
Fazia sol.
O meu destino, que na altura era ir ao multibanco, tinha perdido o sentido, como todos os destinos.
Os olhos do meu pai, caramba.
Estes anos todos sem ele, e ali estavam os olhos.
Preciso sempre de uma explicação.
Preciso sempre de saber tudo.
Continuei parado ao sol, à espera de perceber.
Não durou muito, a explicação.
Eu tinha parado diante de uma montra espelhada.
O sol devolvia-me todo um corpo de vidro e luz parecido comigo.
Olhei-me os sapatos, os joelhos, a aba do casaco, a gravata, a cara.
Nessa cara alheia, lá estava outra vez o olhar do meu pai.
Nunca mais volto ao multibanco.
Nunca mais vou precisar de dinheiro.
Um tesouro olha por mim.

Thursday, March 30, 2017

CRÓNICA A MODOS QUE POLIPROPILÉNICA - Rosário Breve nº 499 - in O RIBATEJO de 30 de Março de 2017 - www.oribatejo.pt





Crónica a modos que polipropilénica



1 Se a estatuária moderna fosse feita do mesmo material que dá corpanzil aos mamarrachos eleitos, poderíamos morrer seguros de nos sucederem tais monumentos. Assim, como parecem ser (e deixar de ser) de polipropileno, de esferovite, de plasticina, de areia e/ou de barro que não viu forno – não.
Sim, andei por Santarém. É de facto uma cidade perigosa. Parece remontar ao constante temor bíblico das grandes calhoadas na mona à passagem pelos sopés das torres periclitantes a que o arquitecto medievo se esqueceu de juntar super-cola. A sério que andei pela bela e desprezada cidade que é Vossa como foi (e para sempre há-de ser) do Bernardo que era António, esse mesmo (Martinho do) Rosário não breve. Está bem, eu conto:
2 Cirandei pelo meio das estreitas artérias. “Pelo meio” – por me ter esquecido de trazer comigo material de desencarceramento capaz de libertar os passeios (os passeios já de si exíguos e opressos como o bafo dos asmáticos) da praga de carros que os juncam em perfeito aparato estacionante de selvajaria anticívica. Tesoura, ferramenta multiusos de acção dupla, rebarbadora, machado, picareta, expansor, extensor hidráulico, tudo à base de grupo energético calibrado e em bom trato de manutenção – a falta que de vós senti! Da próxima vez, talvez não me esqueça de juntar ao estojo do acordeão, à maneira de saca-pipos, o canivete de ponta curva que na puberdade me foi oferecido por um amigo interesseiro cujo pai era patrão de uma recauchutadora de pneumáticos.
3 A estas verdades tristes, junto uma desconfiança não-alegre. Esta aqui: sou capaz de ser eu quem leva tão arrastada invernia ao Planalto. Das duas últimas vezes, assim foi. A mais recente, pior do que a penúltima. Ora leiam:
4 O granizo diagonal vergastava a vetusta Scalabis ao colo de um vento de más horas, acudindo à nuca o arrepio glacial dos que de barriga para baixo esperam o gume da guilhotina. Tinha eu acabado de ser corrido do pórtico do W Shopping por uma faneca de quarenta quilos mas com farda de securita. Atirei o acordeão para dentro do estojo depois de recolher os dezassete cêntimos ganhos a tocar ao sentimento entre as oito e meia e as onze e ¼ da madrugada. Fiquei como estou há coisa de cinquenta e três anos menos 38 dias: sem norte nem oriente. Restavam-me o sul e o ocidente. Decidi-me, claro, pelo sul: indo pela Pedro de Santarém, chega-se num fósforo ao Quinzena.
5 Ainda não era a enchente. Serviram-me um quartilho, mas na condição de não usar o acordeão para tocar o Minho e Galiza, essa estremecedora marcha-de-concerto tão parideira de lágrimas viris e tão própria àquele transe em que o cabo dos forcados e o cavaleiro dão a volta ao arrebol com flores e lágrimas também. Bebi, o senhor Fernando ofereceu-me o gasto e a porta de saída, saí.
6 Cá fora, o mundo continuava imundo. A invernia contrariava o calendário: era já afinal inaugurada pelo relógio a outrora doce Primavera. Andei muito. Eu fiz Vale de Estacas, eu fiz S. Pedro, eu passei à Bonduelle, eu saudei sem abrir a boca os Casais do Mocho, eu desembestei-me pela 114 até Perofilho, eu parei à face de um monturo de lixo espontâneo para desfazer uma desnecessidade, e segui, segui muito, à passagem pela Jorge Cordeiro Automóveis Ld.ª já levava um bofe na mão direita & uma aguda vontade de jamais ter nascido na outra, e foi então que me pus a grande questão existencial que toda a humana pessoa mais tarde ou menos cedo acaba tendo de pôr a si mesma por não ter mais ninguém ao pé a quem pô-la: “Quinta dos Cardeais ou Secorio?”
7 Escolhi o Secorio. Por ser sexta-feira, havia mangusto de bacalhau na Associação Progresso e Recreio. Tiveram pena de mim e deixaram-me entrar, mas na condição de não usar o acordeão para tocar o Hino da Maria da Fonte, que fica sempre tão bem ou quando há bacalhau ou quando o vinho ainda se não acabou. Perguntei qual poderia então tocar para agradecer o extremoso manjar. Disseram-me que tocasse a Chula do Polipropileno, coisa que fiz sabendo o quão efémero é tudo na vida: a começar pela própria vida e a acabar nos conjuntos escultóricos da Santarém moderna, essa arte à la Moita Flores que o Inverno leva e a Primavera não devolve.